"...A restauração da Monarquia, —
ponderava já De La Barre de Nanteuil — , não é simplesmente a restituição do
poder ao rei, mas a restauração de todas as leis fundamentais do povo. Pois,
exactamente, nas «leis fundamentais» do povo, é que a nossa Monarquia
tradicional assentava a sua razão histórica de existir. Não pensemos, de modo
nenhum, em que seriam preceitos escritos, formando o que em boa mitologia
política se convencionou chamar uma «constituição». Saídas de vários
condicionalismos, tanto sociais como físicos, duma nacionalidade, formariam,
quando muito, pelo consenso seguido das gerações, a observância dos princípios
vitais da colectividade, — Família, Comuna e Corporação, ou seja Sangue, Terra
e Trabalho, cujo conjunto admirável Le Play designaria de
«constituição-essencial».
De «Monarquia limitada pelas ordens», classificaram os tratadistas portugueses a nossa antiga Realeza. Correspondendo às forças naturais da sociedade, organizadas e hierarquizadas em vista ao entendimento e bases do comum, as «ordens» do Estado eram, a dentro dos seus foros e privilégios, as depositárias natas dessas «leis fundamentais». Cada associação, cada classe, cada município, cada confraria rural, cada behetria, possuía na Idade Média o seu estatuto próprio, a sua carta de foral. Legislação positiva destinada a normalizar e a coordenar as exigências da vida quotidiana, tomava o «costume» por base e consagrava a experiência como sua regra inspiradora."
António Sardinha, A Teoria das Cortes Gerais — Prefácio a «Memórias para a História e Teoria das Cortes Gerais» do 2.º Visconde de Santarém, Biblioteca do Pensamento Político, Lisboa, 1975 (2.ª edição).
Olhando o caminho, por António Sardinha
…”Tal
é a hereditariedade espiritual a que nos acolhemos filialmente, — nós
que em 1914 pegámos do arado, lançando na herdade lusitana um sulco tão
profundo que já não há vento daninho que o possa apagar. A nossa faina
de semeadores não conheceu mais um minuto de descanso ou adormecimento.
Do que tem sido essa batalha, ou
defrontando-nos com a anarquia que nos desagrega, ou fazendo face ao
peso morto que ameaça sufocar, no seu pretenso conservantismo, o
princípio de renovo em que Portugal parece querer florir, - do que tem
sido essa batalha não é para aqui o contá-lo e comentá-lo. Basta que
assinalemos com a maior humildade de propósitos o trajecto que já se
andou, tanto em extensão como em intensidade. Na desordem geral, dos
espíritos, sente-se, apalpa-se uma certeza, uma coesão que se desenha e
robustece, e aumenta. Frutifica o sincero entusiasmo do reduzido grupo
de vontades que em 1914 se meteu à empresa penosa de restaurar a alma da
Pátria, voltando à senda esquecida da sua tradição.
E
porque se escreve a palavra "tradição", entendemos dever precisar-lhe o
sentido. Não se trata de um regresso — duma suspensão. Filosófica e
historicamente o nosso conceito de "tradição" equivale a dinamismo e
continuidade. Estamos, por isso, bem longe de nos confinarmos numa ideia
saudosista da sociedade que foi ou das gerações que passaram. Pelo
contrário, abertos às solicitações clamorosas deste instante de febre,
olhamos o futuro com um alto desejo de o prepararmos, melhor e mais
belo, do que é a actualidade, tão horizontal e espessa em que vivemos.”
…”Reflectindo
no seu conflito o conflito da sociedade em geral, a sociedade
portuguesa dissolve-se, vai-se, varrida pelo individualismo nas suas
últimas e extremadas consequências. Serenos, no raciocínio das nossas
convicções que a fé amplia num fundo de claridade invencível, não há
desânimo que nos vença, nem tormenta que nos vergue. Salve-se o que
subsista ainda de divino e de humano no amontoado de coisas sem nexo em
que Portugal se subverte, incaracterizado e difamado. É obedecendo a tão
religiosa obrigação para com Deus e para com a Pátria, criada à sua
Semelhança e Imagem, que nós não desfalecemos nem um instante sequer na
jornada empreendida, já se completaram nove anos, quando a mocidade nos
punha nas veias fanfarras de triunfo. Semeou-se? Pois colher-se-á! E
para que resulte em outras colheitas, e a seara cresça sempre, viçosa e
farta, de novo entregamos à graça das Estações um pequeno punhado de
grão, por acaso guardado no nosso pequeno celeiro.”
Elvas, Quinta do Bispo, Janeiro, 1923.
In http://www.angelfire.com/pq/





































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