COMUNICADO DA CASA REAL PORTUGUESA

COMUNICADO DA CASA REAL PORTUGUESA

LEI DO PROTOCOLO DO ESTADO

A CAUSA REAL NO DISTRITO DE AVEIRO

A CAUSA REAL NO DISTRITO DE AVEIRO
Autor: Nuno A. G. Bandeira

Tradutor

sábado, 16 de novembro de 2013

FERNANDO PESSOA – DIÁLOGO MONÁRQUICO

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Introdução e Recolha do texto: Miguel Villas-Boas *

Fernando Pessoa, Monárquico firme, não se deixou ficar à margem da crítica à revolução republicana, que repudiou e criticou abertamente como nestes excertos de 1915, publicados em «O Jornal»: «O constitucionalismo republicano, para o descrever com brandura, foi uma orgia lenta de bandidos estúpidos», pois «quando fizemos uma “revolução” foi para implantar uma coisa igual ao que já estava.»
 
Mesmo correndo riscos por motivo da censura que se instalou juntamente com o regímen do 5 de Outubro, porque como lembrou: «Na monarquia era possível insultar por escrito impresso o Rei; na república não era possível, porque era perigoso, insultar até verbalmente o Sr. Afonso Costa.», Fernando Pessoa, com aquela coragem própria dos homens únicos, nunca se deixou intimidar e nunca capitulou em considerar que «o sistema monárquico seria o mais próprio para uma nação organicamente imperial como é Portugal».
 
Por isso, nunca se harmonizando com a Implantação da república, recusou qualquer «colagem» ao regime – ao contrário de uns e outros «adesivos» – e fez sempre questão de o demonstrar nos sublimes textos que publicou dispersamente entre 1910 e 1935, como no admirável diálogo «Na Farmácia do Evaristo», que vem completar a recolha da Plataforma de Cidadania Monárquica, que já se encontra, também, plasmada nos dois textos anteriormente publicados: «Fernando Pessoa: Da República» e «Eça de Queiroz e Fernando Pessoa – Convictamente Monárquicos».

«NA FARMÁCIA DO EVARISTO»

«A farmácia do Evaristo, que estivera sempre aberta, começou a receber os seus estacionários do costume. (…) A voz alta do Mendes, republicano democrático, erguia-se congratulória. Nisto assomaram à porta os dois habituais que ainda faltavam. (…)
 
O José Gomes, mais conhecido por o Gomes Pipa, entrou lentamente na farmácia. (…) O Gomes vinha limpando a boca.
 
- E o amigo Mendes contente com o restabelecimento da ordem, hein?
 
- Pois é claro…
 
- E com a conduta das tropas fiéis – isto é, fiéis àquilo a que foram fiéis?
 
- Àquilo a que foram fiéis? Ao governo, que é a quem tinham obrigações de ser fiéis. Ao governo, à ordem, à disciplina, às instituições! Portaram-se bem, mas não fizeram senão a sua obrigação.
 
- Folgo muito, Sr. Mendes, disse o Gomes sentando-se num banco e puxando pela bolsa do tabaco; folgo muito, como amigo da ordem, em vê-lo apreciar devidamente a fidelidade ao dever jurado e à obrigação militar.
 
- Não vejo razão para folgar tanto! Como não pode haver dúvida que eles fizeram bem cumprindo o seu dever de militares, e até de cidadãos, não é de estranhar que se ache bem que eles o cumprissem…
 
- Sim, senhor, respondeu Gomes Pipa. Mas não é só por isso que eu folgo com o seu aplauso a eles (…). Folgo, sobretudo, como monárquico, com a condenação, que com isso o sr. fez, da revolução e dos revolucionários do 5 de Outubro.
 
- Hein? O quê? Do 5 de Outubro?
 
O Gomes enrolou lentamente o seu cigarro vulgar.
 
-Sim, do 5 de Outubro. Os militares e marinheiros, que no 5 de Outubro se revoltaram, tinham jurado, como estes, manter a ordem e defender as instituições, que eram então as monárquicas. E como estes fizeram bem mantendo-se firmes ao seu juramento e ao seu dever militar, aqueles fizeram mal faltando ao deles. É com esta sua opinião que eu folgo. Estimo-a pela imparcialidade, vindo, como vem, de um republicano.
 
- Perdão… Não é nada disso… O 5 de Outubro é um caso diferente…
 
- Diferente? Diferente em quê? – E o Gomes suspendeu calmamente o acendimento do seu cigarro.
 
- No 5 de Outubro a revolução nasceu de um impulso nacional, correspondeu, por assim dizer, a um mandato imperativo da nação inteira, ou, pelo menos, da sua enorme maioria. Tanto assim que o movimento venceu com facilidade, e com forças aparentemente insuficientes…
 
- O ter vencido com forças aparentemente insuficientes não é argumento, meu amigo. Num país que está numa situação brilhante de disciplina e de ordem, como então acontecia, e com um governo fraco ainda por cima, um movimento revolucionário, desde que passe de um simples motim, facilmente vencerá, pela repugnância que há em combater compatriotas, e pela falta de hábito em fazê-lo, para que se vença essa repugnância. Deixemos isso da vitória fácil… Ou o senhor pretende basear na facilidade dessa vitória o único argumento a favor do carácter nacional do 5 de Outubro? Se vamos a isso, com muito mais facilidade venceu o chamado «movimento das espadas», com que foi ao poder Pimenta de Castro, sendo portanto consideravelmente mais nacional.
 
- O movimento das espadas foi um movimento exclusivamente militar, tomou toda a gente de surpresa…
 
- Exactamente. É isso que eu digo… Basta tomar de surpresa, apanhar os outros sem preparação condigna para vencer, sem que a vitória representa mais que os outros não estarem prontos…
 
- Espera lá: não é só isso… O movimento das espadas, foi exclusivamente militar; no 5 de Outubro entraram muitos civis…
 
- Isso quer dizer simplesmente que havia civis que estavam na conspiração e, se estavam, é natural que viessem para a revolução também. (…) O senhor diz que essa traição se justifica pelo facto de o 5 de Outubro ser um movimento nacional, uma espécie de mandato imperativo da nação. E o senhor não me citou argumento nenhum que provasse esse carácter nacional do movimento, (…). O próprio facto, que o senhor citou, de o movimento ter tido poucas forças (…) não é com certeza a melhor maneira de provar que ele representasse um mandato imperativo da nação (…).
 
- Talvez, Sr. Gomes, eu me exprimisse mal… (…) É a atmosfera, o ambiente, do movimento que provaram bem o seu carácter nacional…
 
- Oh, amigo Mendes, isso não serve… Reduza lá isso das atmosferas e dos ambientes a qualquer coisa de mais visível. Há-de haver por força sinais evidentes, distintivos, de se um movimento é nacional ou não. (…) Refere-se o senhor por acaso à circunstância, que na verdade se deu, de o movimento ter sido acolhido, em geral, com uma certa simpatia?
 
- Sim, sim, por exemplo… O que é que isso prova senão que…
 
- Prova que toda a gente tinha um medo medonho da revolução republicana (…). Em comparação com o que as imaginações aterrorizadas se figuravam do que fosse uma revolução, o 5 de Outubro, que realmente foi brando e limpo, foi um alívio, como o é sempre a realidade, ainda que má, quando a imaginação a figurava muito pior… Essa própria sensação de alívio deve ter despertado em muita gente uma certa hesitação esperançosa… Mas isso, amigo Mendes, são fenómenos posteriores à revolução, ambiente sobrevindo mas não preexistente… (…) Continuo, pois, a não achar aceitáveis as razões que alega para considerar o 5 de Outubro um movimento nacional…
 
- É difícil de explicar, realmente, mas…
 
- Vamos lá a ver se com o meu auxílio o senhor consegue desencaixotar a sua lógica… Vamos a um facto concreto (…)… Esse facto é o de ter ficado e durado a República…
 
- Ora exactamente, é isso mesmo.
 
- Não é, amigo Mendes, não é… A República tem durado, sim; mas tem durado de uma maneira irregular, cortada constantemente por movimentos vários, monárquicos e outros, e em perpétua atitude de sobressalto, de defesa e de confusão. E como esses vários movimentos não têm sido motins vulgares, de rua, mas revoluções em forma, algumas vitoriosas, em que entram regiões inteiras do país (como na restauração monárquica no Norte) e grandes forças do exército e numerosos civis, tem havido, ao que parece, ambiente e atmosfera para os dois lados. De modo que nada autoriza a que afirmemos que o 5 de Outubro teve mais «carácter nacional» que qualquer outra revolução ou revolta. (…) Mas agora reparo que nos afastámos do nosso caso original… Mesmo que o 5 de Outubro fosse um movimento classificável de «nacional», isso nada tinha com a questão da traição e da deslealdade dos militares e dos marinheiros que o fizeram… É esse, creio eu, o ponto que estávamos discutindo…
 
- Perdão, alguma coisa tem…
 
- Que coisa?
 
- A fidelidade ao juramento é realmente uma coisa importante. Mas há casos em que não é a mais importante de todas. Os interesses supremos da Pátria, que são o mais importante de tudo, podem prevalecer, se for preciso, sobre todos os juramentos e sobre todos os compromissos de fidelidade!
 
- Ah, sim… É verdade: o senhor foi germanófilo?
 
- Eu?!… Eu germanófilo?!… Mas a que propósito?
 
- É que esse é o argumento de que se serviu von Bethmann Hollweg naquela célebre declaração em que chamou aos tratados «farrapos de papel». (…) Vamos ao argumento… Se é legítimo faltar ao juramento e é obrigação em favor e defesa dos interesses supremos da Pátria – e por interesses supremos da Pátria entende o senhor sem dúvida aquilo que os revolucionários pensavam ser os interesses supremos da Pátria – porque não é legítimo nos actuais revoltosos, e em todos os outros que se têm revoltado durante a República, invocar o mesmo argumento? O senhor vê neste movimento, por exemplo, homens sérios e que se mantiveram sempre fiéis à defesa da ordem e do cumprimento da disciplina. (…)
 
- Perdão, senhor Gomes… Eu não nego, nem preciso negar, que pudesse ser boa a intenção dos chefes desta revolta. O que afirmo é que, se a sua intenção era boa, era ao mesmo tempo errada. E tanto era errada, que o movimento não correspondia a uma aspiração nacional, que se deu com ele, apesar de bem planeado, uma coisa que eu ia ainda agora objectar-lhe, mas que guardei para depois para o não interromper… É que este movimento foi sufocado; falhou… E a verdadeira prova da falta de ambiente é essa: falhar…
 
- Tem graça: outro argumento germânico!
 
- Outro argumento germânico?
 
- Sim. Foi o filósofo alemão Hegel que inventou o argumento de que a própria vitória é a justificação da vitória, e que quem vence é que tinha direito a vencer, por isso mesmo que vence. (…) Mas enfim, aqui estamos no mesmo caso de ainda há pouco. (…) A vitória é que prova a legitimidade, o «ambiente» de um movimento? Está bem… Ora o Sidónio venceu…
 
- E quanto tempo durou a situação do Sidónio, senhor Gomes?
 
- Durou até ao fim, como todas as coisas. (…) Não durou tão pouco que isso pese como argumento, nem acabou senão porque, estando concentrada num só homem, uma simples bala, isto é, um só homem pôde terminá-la. Mas, afinal, em que é que ficamos? O Senhor tinha-me dito que a vitória de uma revolta é que provava o seu ambiente. (…) Mas o senhor fala-me agora, já não em simples vitória, mas em duração da situação criada pela vitória, o que é uma coisa diferente… Quanto tempo é que uma situação tem que durar para o senhor a considerar legítima?
 
- Não é durar, meu caro senhor, é a maneira de durar…
 
- Também já respondi a isso… Já lhe disse que se a vida da República tivesse sido de inteira paz, (…) se poderia com efeito considerar de carácter nacional o movimento que a implantou.»

«Ora o dever de todo o homem que representa qualquer coisa em Portugal, hoje, é o de, afastado de toda a malandragem que faz política, prestar o seu auxílio, pequeno que seja, a essa criação de Portugal.»

Bibliografia:
Fernando Pessoa, «Na Farmácia do Evaristo», 1910.
Fernando Pessoa, excertos de «O Jornal», 1912, e 8/4/1915.

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