28.º ANIVERSÁRIO DA REAL ASSOCIAÇÃO DO PORTO

A CAUSA REAL NO DISTRITO DE AVEIRO

A CAUSA REAL NO DISTRITO DE AVEIRO
Autor: Nuno A. G. Bandeira

Tradutor

domingo, 5 de abril de 2015

HOMILIA NAS EXÉQUIAS DE MANOEL DE OLIVEIRA


Manoel de Oliveira (* 11.12.1908; † 02.04.2015)

(Créditos fotográficos: Revista CARAS, de 23.11.2013)

 
Neste dia e, em Portugal e noutros lugares, a esta mesma hora muitos cristãos estão reunidos nas igrejas para recordar, melhor, para celebrar a Paixão e Morte de Jesus Cristo. Os cristãos acreditamos que Jesus é verdadeiro Deus e verdadeiro homem: o Filho de Deus que se fez um de nós e morreu por nosso amor para nos oferecer a alegria da salvação.

É neste amplo contexto litúrgico que nos reunimos aqui, convocados pelo amor ou pela amizade ou pela admiração ou pela gratidão ao cineasta Manoel de Oliveira.

Esta celebração, por exigência da especificidade litúrgica deste dia, não será uma missa, mas uma celebração exequial da Palavra; também não proporcionará a oportunidade da comunhão que, em sexta-feira santa, apenas é possível nas celebrações da Paixão e Morte de Jesus Cristo.

Na serenidade do silêncio da morte, caminho de ressurreição, pedimos ao Senhor da Vida o eterno descanso deste nosso irmão; louvamos e agradecemos a Deus a sua longa vida de serviço à Sociedade, de serviço à cultura; pedimos o dom da esperança, particularmente para todos os que lhe são mais próximos.

***

Esta celebração, tendo como referência visível os restos mortais de Manoel de Oliveira e como horizonte a eternidade, era o filme que, na sua longa vida, Manoel de Oliveira não tinha pressa de rodar.

“Já pensou na morte?”, perguntaram-lhe em 2007 numa entrevista a propósito da atribuição do Prémio Árvore da Vida – P. Manuel Antunes. “A morte é algo que nos acompanha … A ideia, o receio, o pensamento, o medo, o mistério e o segredo da morte”. Mas acrescentou de seguida: “Alguém disse que ‘se Cristo não ressuscitou, toda a nossa fé é vã’. É o segredo da morte”. Esse alguém – esclareço – é S. Paulo na Carta aos Coríntios (1Cor 15, 14).

Este é Manoel de Oliveira. Profundamente humano. Marcado, por isso, pelas eternas perguntas do homem como criatura. Mas sem desistir na sua busca, indo uma e outra vez às suas raízes, sem fechar as janelas à Luz, buscando incansavelmente novos horizontes: horizontes de eternidade, do Absoluto.
Situava-se aí: no quadro existencial e cultural que justifica plenamente esta celebração. Na notável saudação que dirigiu a Bento XVI, no Centro Cultural de Belém, em 2010, no Encontro com representantes do mundo da cultura, justificava assim o seu pedido de bênção filial ao Papa: “pertencente à família cristã, de cujos valores comungo, e que são as raízes da nação portuguesa e de toda a Europa, quer queiramos ou não”.

Não escolheu a sexta-feira santa para dia da sua sepultura. Não escolheu esta coincidência temporal com a celebração cristã da morte do Filho de Deus. Mas nos insondáveis desígnios de Deus e no inefável mistério da existência humana esta coincidência aconteceu. O texto do Evangelho (Mc 15, 33-39) que acaba de ser proclamado recorda-nos a morte de Jesus Cristo. Mas o tríduo pascal das celebrações cristãs passa pela morte mas desemboca na ressurreição. É a resposta à dúvida que Manoel de Oliveira expressava ao citar S. Paulo. Jesus Cristo ressuscitou, ganhou-nos a vitória sobre a morte e abriu-nos as portas de uma vida nova. Cristo ressuscitou e, por isso, Manoel!, não é vã a nossa fé.

Eu sei que, como nos recordava o Livro da Sabedoria (3, 1-6.9), continuará a bater-nos à porta a perspectiva da morte como desgraça, como castigo, como aniquilamento. Mas se Cristo ressuscitou – e (acreditamos) Cristo ressuscitou – convido-vos a ficar com o contraponto também sublinhado pelo Livro da Sabedoria: a morte como porta que se abre para a paz, para a imortalidade, para a compreensão da verdade, para o amor, para a misericórdia.

Pedimos ao Senhor da Vida e da Misericórdia que se tenha cumprido já a meta que Manoel de Oliveira almejava na entrevista antes citada. “Um dia afirmou, perguntava o jornalista: ‘Se pudesse já tinha comprado um bilhete para o céu’. Ainda pensa com frequência na compra desse bilhete?” “Sim. Não se perde nada com isso. Só se pode ganhar. Se o céu existe … é bom que se tenha o bilhete”. Assim tenha sido! Assim seja!


Porto, Igreja de Cristo Rei, 03 de Abril de 2015

+Pio Alves
Bispo Auxiliar do Porto
Presidente da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais

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