A CAUSA REAL NO DISTRITO DE AVEIRO

A CAUSA REAL NO DISTRITO DE AVEIRO
Autor: Nuno A. G. Bandeira

Tradutor

quarta-feira, 13 de maio de 2015

SANTA JOANA PRINCESA, UM DOM PARA A CIDADE E DIOCESE DE AVEIRO

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Homilia na Solenidade de Santa Joana Princesa, a 12 de Maio de 2015 na Sé de Aveiro

1. Jesus fala às multidões em parábolas: o tesouro e a pérola (Mt 13, 44-46)
 
No discurso do capítulo 10 do Evangelho de S. Mateus, Jesus envia os doze em missão e diz-lhes como se devem comportar. A pergunta que os apóstolos fazem é a mesma que a Igreja continua a fazer hoje: qual é a mensagem que devemos anunciar?
 
Jesus responde a esta pergunta começando por explicar a natureza do reino, por meio de parábolas, todas elas centradas no tema do Reino: a sua natureza, a situação da Igreja em todos os tempos.
 
A pretensão de Jesus não era definir o Reino, mas convidar a conquistá-lo, ainda que para o conseguirmos tenhamos de sacrificar tudo o que temos.
 
Embora pequeno na aparência, o Reino é um autêntico tesouro e uma pérola de grande valor, pelo qual vale a pena lutar e vender tudo para o conseguir. O Reino afigura-se como o grande objecto de esperança. Aqueles homens que vendem tudo para conseguir o tesouro ou a pérola que encontraram, aparentemente ficam mais pobres, mas na realidade conseguiram o objectivo maior da sua vida. Não se insiste nas renúncias e nos sacrifícios que isso supõe, mas na grande e contagiante alegria da conquista.
 
Com esta esperança, temos de apostar tudo para conseguir o Reino. Em primeiro lugar, é necessária uma atitude de procura: não ficar numa apatia indolente, mas procurar o que é fundamental na vida. Para Cristo, o fundamental é o Reino que nos deu: realidade que deve polarizar toda a existência, e que é capaz de mudar radicalmente a orientação de toda uma vida. Isto supõe uma opção prévia a favor de algo que se encontrou e pelo qual vale a pena dar a vida. Todavia, não basta encontrar o tesouro, mas sim valorizá-lo como tesouro. Aquele que compreende a mensagem do Reino compromete-se de tal maneira que é considerado, pelos outros, como louco.
 
O reino de Deus é muito diferente dos valores que imperam no mundo, mas ao longo da história, muitos foram os que deram a sua vida para conseguir este tesouro. Sempre houve e há relatos de apaixonados aventureiros à procura de tesouros perdidos, e essa procura determina e é determinante para o sentido das suas vidas.
 
À primeira vista, talvez pareça que o camponês foi louco ao vender tudo para comprar o campo, tal como o comerciante que vendeu todos os bens para comprar uma só pérola, mas o que triunfa é o que sabe quando convém arriscar, contrair dívidas, que sabe discernir. O importante é estar plenamente seguro do valor daquilo que se compra, das opções que se fazem e que se convertem em verdadeiros tesouros.

2. Santa Joana Princesa e o seguimento de Jesus
 
Este ano cinquentenário da declaração de Santa Joana Princesa coincide, a nível da Igreja universal, com a celebração dos cinquenta anos do encerramento do Concílio Vaticano II, a proclamação do Jubileu Extraordinário da Misericórdia, pelo Papa Francisco, e com o ano da vida consagrada – três acontecimentos profundamente ligados à vida da nossa Padroeira.
 
A santidade, à qual todos somos chamados, interpela a vida cristã, porque ela é um reflexo da beleza de Deus no mundo. Pela fé, «o homem entrega-se total e livremente a Deus» (DV 5) e, por ela, o crente procura conhecer e fazer a vontade de Deus, revestir-se do seu amor. Unida à virtude teologal da fé está a virtude cardeal da fortaleza – a que levará Santa Joana a responder ao irmão, o rei D. João II, quando lhe pede que abandone a vida religiosa, que «fossem todos muito certos que isto que, com a graça e a ajuda divinal, começado tinha, por nenhuma coisa nem embargo o não havia de deixar» e, ao bispo de Évora, que igualmente insiste em que abandone o mosteiro de Jesus – o lugar onde tinha encontrado o seu tesouro –, ela responde com tal firmeza, que nos deixa admirados pela força das suas convicções: «sabei que a causa é de Deus, que não se sujeita a poderes humanos; e, pela mesma razão, não haverá nenhum na terra que me tire o prossegui-la; e, se Ele for servido que me custe a vida tal demanda, isso terei por ventura, por reino, por império».
 
A esperança nasce da fé e protege contra o desânimo, sustenta nas dificuldades e dilata o coração na expectativa da bem-aventurança eterna. O ânimo que advém da esperança preserva do egoísmo e impele a um “itinerário” novo, à felicidade da caridade.
 
A vida de Santa Joana Princesa reporta-nos para algo de parecido com esta procura da pérola pela qual vale a pena vender tudo quanto se possui para a adquirir. Na viagem do mosteiro de Odivelas para Aveiro, procuram dissuadi-la de tal propósito por lhes parecer aquele lugar «mui pequeno e desprezível, e em edifícios pobre e pouco sumptuosos para tal princesa haver de entrar nem estar um só dia». Mas ela, «não se turvando com o que diziam os que queriam embargar a sua tensão, tanto mais se alegrava quanto via que as coisas que alegavam para a turvarem, eram conformes à humildade d’Aquele que mais amava e desejava seguir e servir».
 
A caridade é a primeira das virtudes teologais: “Agora permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e a caridade; mas a maior de todas é a caridade” (1 Cor 13, 13). Jesus faz dela o mandamento novo, a plenitude da lei. Santa Joana, no seu testamento, não esqueceu os mais pobres, a começar pelas pessoas que a tinham acompanhado no mosteiro de Jesus.
 
Os santos são aqueles que, com a sua vida, fizeram santos à sua volta. Este é o critério fundamental de uma vida de santidade. A nossa Padroeira, meditando na paixão de Cristo, via nela a máxima expressão do amor de Deus por nós. A misericórdia é o «caminho que une Deus e o homem, porque nos abre o coração à esperança de sermos amados para sempre, apesar da limitação do nosso pecado» (Misericordiae Vultus 2). No leito de morte, Santa Joana irá afirmar isto mesmo: «Eu conheço que nunca em mim houve obras senão de muitas culpas e dignas de penas e tormentos. Porém, Senhor, a Ti peço que ponhas a tua morte e paixão entre o teu julgamento e a minha alma».

3. Santa Joana Princesa e a nossa cidade e diocese de Aveiro
 
A intensificação do Processo canónico de Santa Joana Princesa, em ordem à sua canonização, é ocasião propícia para aprofundar a sua vida e obra: as razões que a levaram a ingressar no Mosteiro de Jesus, o amor à paixão de Cristo como expressão máxima do amor de Deus, o testemunho de uma vida simples e humilde e o amor aos mais pobres da cidade de Aveiro.
 
A identidade de uma Diocese e de uma comunidade também se constrói com o reconhecimento de causas que mereçam todo o nosso esforço e a nossa própria vida. Dar a conhecer a vida de Santa Joana Princesa na sua ligação a Aveiro é um desafio a também nós vivermos os ideais a que ela consagrou toda a sua vida – o amor a Deus, no Convento de Jesus, e o amor ao próximo, nos habitantes de Aveiro.

Senhor, Pai santo,
Fonte de toda a santidade,
Nós vos louvamos e agradecemos,
Porque enriquecestes a vossa Igreja
Com a vida da bem-aventurada
Joana Princesa, que testemunhou
Simplicidade, humildade,
Devoção à paixão de Cristo
e amor ao próximo.
Fazei que nós, vossos servos,
De coração purificado,
Imitemos as suas virtudes
e alcancemos o reino dos céus.
Por sua intercessão,
Concedei-nos as graças
Que Vos pedimos,
Incluindo a da sua canonização.
Por nosso Senhor Jesus Cristo,
Vosso Filho, que é Deus convosco
Na unidade do Espírito Santo.
Ámen.

Sé, 12 de Maio de 2015
 
† António Manuel Moiteiro Ramos, Bispo de Aveiro

http://www.diocese-aveiro.pt/v2/?p=12706

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