23º CONGRESSO DA CAUSA REAL

LEI DO PROTOCOLO DO ESTADO

A CAUSA REAL NO DISTRITO DE AVEIRO

A CAUSA REAL NO DISTRITO DE AVEIRO
Autor: Nuno A. G. Bandeira

Tradutor

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

ROLÃO PRETO: O FASCISTA (E MONÁRQUICO) QUE COMBATEU SALAZAR

 
Francisco Rolão Preto, líder do Nacional-Sindicalismo no início da década de 1930, 
queria que “os muito ricos ficassem menos ricos para os muito pobres ficarem menos pobres”
ARQUIVO ANTÓNIO COSTA PINTO / EDIÇÕES 70

Parece confuso mas aconteceu. Francisco Rolão Preto, fascista, monárquico, tentou derrubar Salazar por ser um “homem de centro e um formalista universitário”. Foi preso, viveu no exílio, apoiou Humberto Delgado e, depois do 25 de Abril, aderiu ao Partido Popular Monárquico. Breve retrato do homem que queria que “os ricos fossem menos ricos para os pobres serem menos pobres”


Quatro anos mais novo do que Salazar, Francisco Rolão Preto, o ultra-fascista que liderou o movimento nacional-sindicalista em Portugal, morreu nove anos depois do ditador ter caído da cadeira e três anos depois do 25 de Abril de 1974. Homem de fortes convicções, liderou a extrema-direita que se opôs à governação do professor de Coimbra na década de 1930 e, posteriormente, depois de ter estado preso e viver no exílio, aliou-se à oposição democrática para derrubar o ditador.

Anti-Salazarista convicto, acreditava no fascismo revolucionário e apostou no movimento sindical para conquistar as massas operárias. A PVDE, polícia política que antecedeu a PIDE, chegou a apelidá-lo de “comunista branco”. O termo, é uma metáfora da expressão “russos brancos”, muito em voga na primeira metade do século para designar os russos que se tinham oposto à revolução bolchevique de 1917, que acabou com a Rússia dos czares para fundar a já desaparecida União Soviética.


Rolão Preto, o homem que queria ser a vanguarda da “revolução nacional”, a discursar num jantar-comício no Palácio de Cristal. Porto, 1933 
Rolão Preto, o homem que queria ser a vanguarda da “revolução nacional”, a discursar num jantar-comício no Palácio de Cristal. Porto, 1933
 Colecção particular Fernando Gramaxo

Para a PVDE, antecessora da PIDE, “o nacional-sindicalismo é a primeira tentativa de penetração da extrema direita na classe operária”, diz ao Expresso o historiador António Costa Pinto, autor do livro ““Os Camisas Azuis e Salazar - Rolão Preto e o Fascismo em Portugal”.

Salazar chegou a temer esta personagem pouco conhecida de muitos portugueses, que quis conquistar as massas operárias para a causa fascista, apostando no movimento sindical e defendendo a comemoração do 1.º de Maio, Dia dos Trabalhadores.

Oito décadas depois, muitos estranharão as divergências doutrinárias que existiam entre dois defensores de um regime autoritário e repressivo de direita. Mas a verdade, é que houve especificidades ideológicas que caracterizaram os diferentes fascismos na primeira metade do século XX.

O ideário de Rolão Preto inspirava-se no fascismo italiano, “movimento revolucionário associado ao modernismo”. Esta ideologia, colidiu com o modelo de Salazar, oriundo do “movimento católico, e que desconfia dos movimentos fascistas” - por apostarem na galvanização das massas - da sua iconografia, “das milícias”, e da mobilização da classe operária, explica Costa Pinto.

Francisco Rolão Preto, líder do Nacional-Sindicalismo no ínício da década de 1930, queria que “os muito ricos ficassem menos ricos para os muito pobres ficarem menos pobres”
Francisco Rolão Preto, líder do Nacional-Sindicalismo no início da década de 1930, queria que “os muito ricos ficassem menos ricos para os muito pobres ficarem menos pobres” 
ARQUIVO ANTÓNIO COSTA PINTO / EDIÇÕES 70

A repartição da riqueza que Rolão Preto defendia em ideário, tinha por objecto conquistar a massas operárias e os sindicatos para o nacional-sindicalismo de que foi líder; este movimento nacionalista tem a sua génese no Integralismo Lusitano de António Sardinha. Desenvolveu-se na década de 1930 por oposição ao movimento internacionalista proletário dos comunistas.

“Em Março de 1934, já em luta aberta com Salazar, Rolão Preto referia-se com orgulho ao aparecimento de uma nova ‘elite’ operária” associada ao nacional-sindicalismo: “Dêem-se possibilidades aos humildes, aos filhos do povo que logo de tenra idade amassam com o suor do seu rosto o pão que comem”, escreveu o líder do nacional-sindicalismo numa obra citada por Costa Pinto.

O pavor dos comunistas

O partido Comunista Português foi fundado em 1921, quatro depois da Revolução Russa de 1917. Tal como Salazar, Rolão Preto “temia a ‘nefasta’ influência comunista” junto das massas trabalhadoras.

Capa do livro “Camisas Azuis e Salazar - Rolão Preto e o Fascismo em Portugal” 
Capa do livro “Camisas Azuis e Salazar - Rolão Preto e o Fascismo em Portugal” 
DR

O nacional-sindicalismo tinha uma “boa base organizativa. Várias sedes a funcionar, uma rede de cerca de dezena e meia de inscritos de órgãos regionais e locais, e alguns milhares de inscritos”. Mas, ao contrário de outras organizações - como a União Nacional [o partido único do Salazarismo] - o movimento liderado por Rolão Preto “estruturava-se sem ambiguidades em moldes fascistas, sob o ponto de vista organizativo, ideológico e de acção política”.

Caetano defendeu a “conversão” de Rolão

Numa carta confidencial enviada a Salazar, Marcelo Caetano, que tinha menos 13 anos do que Rolão Preto, e que com ele partilhava uma ligação de juventude ao Integralismo Lusitano, escreveu: É o “primeiro movimento espontâneo de opinião que surge desde que há Ditadura; um movimento que não foi dolorosamente posto em marcha pelo ministro do Interior, que não é obra dos governadores civis, que não se sustenta à custa dos favores do governo, que não é agência eleitoral”.

O jornal “Revolução”, órgão do movimento nacional-sindicalista, tinha um suplemento destacável que era distribuído gratuitamente
O jornal “Revolução”, órgão do movimento nacional-sindicalista, tinha um suplemento destacável que era distribuído gratuitamente 
ARQUIVO ANTÓNIO COSTA PINTO / EDIÇÕES 70


Apesar de haver apoiantes do Estado Novo que alimentaram um certo fascínio pela mobilização de massas que Rolão Preto defendia, a partir de maio de 1933, “os conflitos violentos começaram a generalizar-se na rua, cada vez que os nacional-sindicalistas se manifestavam”.

Em Junho de 1933, Alberto de Monsaraz, companheiro de Rolão Preto, anunciou a intenção de organizar uma manifestação comemorativa da batalha de Aljubarrota, com a participação de 10 mil homens envergando o fardamento com camisas azuis. O ministério do Interior “não autorizou o desfile”.

A 10 de Setembro de 1935 Rolão Preto e os seus companheiros falharam um golpe contra Salazar. Mendes Norton e Manuel Valente foram presos, Preto partiu para o exílio em Espanha.

Com o passar do tempo, alguns dos seus companheiros capitularam na pulsão revolucionária, e acabaram por aderir ao Estado Novo de Oliveira Salazar; foi o caso de Gonçalves Rapazote que foi deputado da Assembleia Nacional e ministro do Interior. Mas, Rolão, manteve-se monárquico e anti-Salazarista convicto até ao fim da vida. Em 1945, estabeleceu a sua primeira aliança com a oposição democrática. Em 1958, apoiou a candidatura do general Humberto Delgado à Presidência.

É desta personagem e do mais organizado movimento fascista que contestou Salazar pela sua direita, que nos fala o livro “Os Camisas Azuis e Salazar - Rolão Preto e o Fascismo em Portugal”. A obra que vai ser apresentada esta quinta-feira em Lisboa, na Livraria Almedina, por Fernando Rosas e Pedro Tavares de Almeida, é uma reedição revista e actualizada da tese de doutoramento de Costa Pinto, publicada em 1994.

 Manuela Goucha Soares   



 

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