28.º ANIVERSÁRIO DA REAL ASSOCIAÇÃO DO PORTO

A CAUSA REAL NO DISTRITO DE AVEIRO

A CAUSA REAL NO DISTRITO DE AVEIRO
Autor: Nuno A. G. Bandeira

Tradutor

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

O PRESTE JOÃO DAS ÍNDIAS

Foto de Nova Portugalidade.

"Em chegando el-rei lhe falou em grande segredo dizendo que esperava dele um grande serviço porque sempre o achara bom e leal servidor e ditoso em seus feitos e serviços; o qual serviço era que ele e outro companheiro que se chamava Afonso Paiva lhe haverem ambos de ir descobrir e saber do Preste João e onde acham há canela e outras especiarias que daquela parte iam a Veneza por terras de mouros."

A figura mítico-lendária do Preste João não é nada mais que uma lenda persistente que povoou a imaginação dos povos do sul da Europa durante quase quatro séculos. Essa lenda, nascida no século XII, afirmava a existência de um poderosíssimo Rei cristão que habitaria numa região que se localizaria algures entre a Abissínia e os confins da então Berbéria e cujo império seria de uma riqueza inimaginável. Este Preste João seria um rei-sacerdote que liderava a cristandade assumindo um papel de patriarca e de líder religioso do seu povo; talvez daí o nome de Preste João ou Presbítero João - "Presbyter Ioannes, sic enim eum nominare solent...".

A partir desta fantasia houve quem se aproveitasse, quem escrevesse cartas falsas aos reis e ao Papa, quem incentivasse expedições em busca do reino do Preste João. No livro das Maravilhas de Marco Polo, afirma-se que o verdadeiro Preste João é Ong-Cã, rei dos turcos de Oengut, na Mongólia, descendente de cristãos nestorianos. Mas com excepção desta fonte, poucas eram aquelas que mereciam credibilidade, por mais embaixadores e cartas que chegassem a Roma em nome do Presbítero encoberto nas brumas da distância.

Posto isto, no quadro do início da expansão portuguesa, D. João II enviou em expedição dois leais servidores: Pêro da Covilhã e Afonso Paiva. Em 1487 ambos partiram para o Cairo, onde se separariam. Um iria buscar na Índia, impenetrável e desconhecida, o paradeiro desse patriarca, bem como recolher o máximo de informações necessárias para preparar a expedição que os portugueses já preparavam para atingir a Ásia por mar; o outro seguiu para os territórios da actual Etiópia em busca do Preste João. Quando, finalmente, Pêro da Covilhã regressou da Índia, soube da morte de Afonso, exigindo-se-lhe que se dirigisse à Abissínia e ali confirmasse a existência do Preste João. O monarca cristão lutava então contra a pressão muçulmana, pelo que pediu a ajuda dos portugueses na disputa travada com os Mamelucos pelo controle das rotas comerciais do Mar Vermelho.

Tomás Severino Bravo

23 E 24 DE NOVEMBRO: CONGRESSO INTERNACIONAL DE HERÁLDICA MILITAR

Foto de Diogo Teixeira Dias.

Um congresso para os amantes da Heráldica e Falerística Militares. A vertente Falerística - dia 24 de Novembro - conta com um elenco de luxo: Eric TripnauxGuyDeploige, Jean-François Dubos, Jose Vicente de BragançaPaulo EstrelaPavol Marciš e este que vos escreve. A não perder a entrada é livre.


domingo, 22 de outubro de 2017

ENTREVISTA DE S.A., A INFANTA MARIA FRANCISCA DE BRAGANÇA À "POINT DE VUE"

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BARTOLOMEU DE GUSMÃO, O "BRASILEIRO" QUE QUIS VOAR

Foto de Nova Portugalidade.

Bartolomeu de Gusmão, o brasileiro que quis voar (ou de como o Brasil português era atrasado e obscurantista)

Nascido em Dezembro de 1685, em Santos (Estado do Brasil, Reino de Portugal), Bartolomeu Lourenço de Gusmão foi um pioneiro na arte da aviação. De facto, foi este ilustre Português que colocou a funcionar, pela primeira vez, um aeróstato – isto é, uma aeronave que voa por ser mais leve que o ar. (Nota: há quem afirme que Leonardo Da Vinci o teria feito antes mas, regra geral, Bartolomeu de Gusmão é referido como o pioneiro neste campo).


Filho de um cirurgião, é fácil de imaginar que o espírito científico lhe fora incutido desde tenra idade. À data do baptismo, foi registado somente como Bartolomeu Lourenço, adicionando, mais tarde, o apelido “de Gusmão” mais tarde, em honra ao seu tutor Alexandre de Gusmão (padre Jesuíta). 

Desde muito cedo, destacou-se como inventor e era conhecido pelo brilhantismo das suas ideias. Após frequentar o Seminário, é ordenado padre da Companhia de Jesus, tendo pelo caminho registado a patente de “o invento para fazer subir água a toda a distância e altura que se quiser levar”, um sistema criado pelo genial padre nos seus tempos de Seminário.

Na Metrópole, ingressaria na Universidade de Coimbra e, mais tarde, abandonaria essa mesma instituição para se instalar em Lisboa, onde foi recebido com bastante apreço pelo Rei D.João V. 

É em Lisboa que começa a sua pesquisa para criar “um instrumento para se andar no ar”, requisitando, de imediato, esta patente. A notícia depressa se espalha pelo Reino e por toda a Europa, onde começam a surgir ilustrações fantasiosas do célebre engenho. O Velho Continente fica, assim, a conhecer a “Passarola”. Não obstante, estas ilustrações não eram, de todo, fidedignas. Com efeito, os primeiros desenhos da “Passarola” foram deliberadamente falsos, tendo sido elaborados pelo colaborador de Bartolomeu de Gusmão - D. Joaquim Francisco de Sá Almeida e Menezes -, a única pessoa com acesso ao projecto para além do próprio padre jesuíta.

Estes desenhos falsos tinham como objectivo esconder a invenção dos olhos do mundo, ludibriando aqueles que a tentassem replicar. De facto, até o próprio princípio de funcionamento da “Passarola” era mentira: Bartolomeu e o seu protegido afirmavam que o balão funcionava graças ao magnetismo. Na realidade, o segredo da “Passarola” era o Princípio de Arquimedes e, mais uma vez, o padre jesuíta conseguia iludir aqueles que tentavam replicar a sua invenção.

Ao longo do ano de 1709, Bartolomeu de Gusmão realizou diversas demonstrações públicas das capacidades da sua invenção. Entre os admiradores do engenho do padre jesuíta estava aquele que viria a ser, mais tarde, o Papa Inocêncio XIII. Ainda assim, os seus balões de ar quente não vingariam, pois havia o receio de que estes provocassem incêndios e a falta de poder de controlo sobre eles impediu a construção de um modelo que permitisse transportar um homem. 

Mais tarde, Bartolomeu de Gusmão teve problemas com a Inquisição, por quem era acusado de ser conivente com cristãos-novos. Houve até quem chegasse a afirmar que o padre, numa crise de Fé, se teria convertido ao judaísmo. Aquilo que fica para a História é que à data da sua morte, estava confessado e teria comungado – estava, portanto, em comunhão com a Santa Igreja Católica. Foi, desta forma, sepultado na Igreja de São Romão, em Toledo, a 18 de Novembro de 1724.

Mamede Broa Fernandes


sábado, 21 de outubro de 2017

JÁ ESTÁ DISPONÍVEL A REAL GAZETA DO ALTO MINHO N.º 13



Neste número pode ler:

- Entrevista a Sua Alteza Real a Senhora Dona Isabel de Bragança

- Monarquia Inclusiva versus República Exclusiva, por Miguel Villas-Boas


- Vivemos em República, não em Democracia, por Lamas Pacheco

- A Monarquia e a abolição da pena de morte, por Carlos Aguiar Gomes

- Carlos Lobo de Oliveira, por Susana Cunha Cerqueira

 





É A INDEPENDÊNCIA DA CATALUNHA DO INTERESSE DE PORTUGAL?

Foto de Nova Portugalidade.


É a Catalunha nação? O autor crê que sim, e, tudo o sugere, fá-lo também maioria gorda dos catalães. A Constituição da Espanha, de resto, o mesmo afirma. Deve a Catalunha ser Estado independente? Isso não sabe o autor, que entende que desses assuntos só os povos, sem infiltração que lhes seja estranha, podem ajuizar e decidir. No que à família espanhola pertence, é feio e de má vizinhança que vá português pôr a mão ou enfiar argumento. Tal como desagradaria a Lisboa ou ao patriota de Portugal que a Espanha se exprimisse se, de futuro, parte do nosso Estado desejasse autonomizar-se, é natural - e, logo, coisa de evitar - que o espanhol se sinta incomodado com as paixões catalanistas de quem vê a crise deste lado da raia. Pela mesma razão pode, e deve, o catalão que quer o corte com Madrid irritar-se quando o português aficionado da Espanha lhe diz que a legalidade constitucional se sobrepõe aos direitos dos povos e que, por isso, os independentistas mais não devem fazer que enterrar fundo o desejo de separação. Silêncio, paciência, prudência; eis o caminho que interessa a Portugal até que a confusão ibérica amaine e se perceba se a Espanha se manterá unida ou se, como aconteceu na península até Isabel e Fernando, voltará a haver nela três grandes países.

Se a separação da Catalunha é questão de catalães e restantes espanhóis, o que convém a Portugal na crise catalã é compreender o que é do seu interesse. Não que, como se dizia, Portugal possa agir em função dele; a Espanha é Estado soberano e a intervenção, como ao vizinho de família que viva momento difícil, encontra-se-nos vedada. Mas convém estudar se, como é argumento de tantos inimigos da unidade espanhola, Portugal teria vida facilitada numa península dividida ou fraccionada. Diz-se frequentemente que sim e mostra-se, como prova para a tese, que foram tensas durante muitos séculos as relações entre Lisboa e Madrid; atribuem-se á Espanha intenções sinistras e o desejo de unificar a península à força. A resistência a Castela fez-se, particularmente após a Restauração de 1640, parte importante da mitologia nacional portuguesa. Recorda-se Godoy, Fontainebleau e o plano franco-espanhol para a destruição e partição da nação portuguesa; fala-se de Afonso XIII, que no século XX terá querido invadir Portugal após a revolução republicana de 1910; treme-se de indignação com Franco, que com a tese "Como invadir Portugal?" se fez general; recorda-se Alcântara, a sorte do Prior do Crato, que a mitologia nacionalista canonizou, e a conquista do trono português por Filipe II de Espanha, depois I de Portugal. Também o nacionalismo espanhol acusa, injustamente, Portugal de haver traído a unidade peninsular e católica para abraçar a Inglaterra protestante. Uma leitura mais racional da relação luso-espanhola, menos dada a excitações e mais amiga da realidade histórica e compreensiva da posição de ambos os países permite relativizar as faltas que ambos atribuem ao outro.

A relação luso-espanhola pode ou não ser de hostilidade - e é do interesse de ambos, Portugal e Espanha, que o não seja. A máxima grandeza peninsular - o Siglo de Oro espanhol, que coincidiu com o auge imperial de Portugal - não se fez do antagonismo entre as coroas de Castela e de Portugal, mas de colaboração franca e estreita entre as duas. Não é verdade que Portugal participou, em defesa da Espanha sua aliada e da Europa católica, nas campanhas marítimas que Castela conduziu no Mediterrâneo contra a ameaça islamo-turca? Não dividiram os dois o mundo entre si, primeiro com Alcáçovas-Toledo e depois em Tordesilhas e Saragoça? Não combateram irmanados a competição francesa, Portugal no Brasil e a Espanha na Europa? E não coube a Portugal a protecção das rotas atlânticas que, usadas pelos galeões vindos do México e do Rio da Prata, engordaram os cofres da Espanha e permitiram pagar a defesa da Europa contra o avanço coligado do Sultão otomano e do protestantismo luterano e calvinista? Trabalhando juntos Portugal e Espanha, tomaram a Europa e o mundo para si; dividindo-se - e dividiram-se traumaticamente em 1640 porque, para prejuízo dos dois, se haviam unido em 1580 - caíram os dois em imparável espiral de decadência. A lição é dupla: que a Espanha europeia e o Portugal marítimo não podem, para bem dos dois, confundir os seus interesses (e isso fizeram entre 1580 e 1640) e que, também para bem dos dois, devem ser parceiros.

Em medida que não pode ser ignorada, a expansão mundial de Portugal no século XVI - que exigiu, como sabemos, a completa mobilização de todos os recursos humanos, militares, diplomáticos, económicos e científicos ao dispor da nação portuguesa - só foi possível porque houve tranquilização da vida peninsular através da unificação entre Aragão e Castela. A existência a oriente de um aliado capaz de guarnecer as fronteiras terrestres de Portugal e de impedir a entrada na Ibéria de actores externos - a França, especialmente - foi o dado novo que possibilitou investir na construção do império meios que teriam, de outro meio, sido necessários à salvaguarda da metrópole europeia de Portugal. Sem dúvida, a expansão para o Atlântico e Marrocos iniciou-se antes da união entre Castela e Aragão, e isso não se pretende ocultar; o que se diz é que semelhante largueza de meios não poderia ter sido devotada à conquista e povoamento da Índia e do Brasil sem a amizade luso-espanhola que durou de Toro, em 1476, até 1580.

A lição do século XVI, o mais feliz e luminoso da História de Portugal, deve ser escutada pelos portugueses que desejem ver no nosso tempo uma nova política nacional de reencontro com a Portugalidade. Como nas centúrias de Quatrocentos e Quinhentos, uma deriva marítima e extra-europeia por Portugal requereria todos os parcos meios que Lisboa tem ao seu dispor. Se, como necessariamente aconteceria após uma independência catalã, a Ibéria do futuro for de conflitos latentes, ódios vários e alianças e contra-alianças entre Portugal e os países que venham a suceder à Espanha, Lisboa ver-se-á forçada a dar à defesa do rectângulo peninsular atenção que não atribui desde que, em verdadeiro golpe de génio, o governo português de então fez o Pacto Ibérico de 1939 e reconstruiu, após tantos anos de oposição entre Portugal e a Espanha, a situação que vingou no século de ouro - o XVI - de ambos os países.

RPB

NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO "APARECIDA" RAINHA DE PORTUGAL E DO BRASIL

Foto de Nova Portugalidade.

Há exactos trezentos anos, aos doze dias do mês de Outubro do ano da Graça de 1717, nas águas do rio Paraíba do Sul, no actual Município de Aparecida, tradicional e popularmente conhecido como “Aparecida do Norte” e por esse tempo pertencente à Vila de Santo António de Guaratinguetá, na então Capitania de São Paulo e Minas do Ouro, humildes pescadores encontraram uma enegrecida imagem de Nossa Senhora da Conceição, padroeira de Portugal, heróica e cruzada Nação de que nasceu a nossa igualmente heróica e cruzada Nação. Hoje, passados três séculos da retirada da imagem da Santa Virgem do fundo das águas do Paraíba, todos os autênticos brasileiros, quer se considerem ou não católicos, devem evocar, com o máximo respeito, a figura de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, padroeira deste grande Império do ontem e do amanhã, ao lado do injustamente olvidado São Pedro de Alcântara.

A história da popular devoção a Nossa Senhora Aparecida, “página de encantadora poesia”, na expressão de Plínio Salgado, [1] é bem conhecida, mas, ainda assim, julgamos oportuno recordá-la, segundo os relatos do Padre José Alves Vilela, de 1743, e do Padre João de Morais e Aguiar, de 1757, relatos estes que se encontram no Primeiro Livro de Tombo da Paróquia de Santo António de Guaratinguetá.

Naqueles longínquos idos de Outubro do ano da Graça do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1717, quando D. Pedro Miguel de Almeida Portugal e Vasconcelos, Conde de Assumar e Governador da Capitania de São Paulo e Minas do Ouro, se encontrava na Vila de Santo António de Guaratinguetá, de onde seguiria para as Minas, o Senado da Câmara da aludida Vila resolveu fazer um banquete em homenagem ao visitante ilustre, solicitando a Domingos Garcia, João Alves, Filipe Pedroso e outros pescadores que fossem conseguir peixes para o referido banquete. Os pescadores foram pescar em suas canoas e embalde lançaram as redes por diversas vezes nas caudalosas águas do Paraíba, não conseguindo tirar delas sequer um peixe. Chegando à conclusão de que era inútil prosseguir em sua faina, todos os pescadores, com excepção dos três mencionados pelo nome, volveram às suas moradas, às margens do rio. Algum tempo mais tarde, quando os três pescadores se encontravam próximos ao porto de Itaguaçu, onde tinham chegado seguindo a correnteza, um deles, mais precisamente João Alves, lançou sua rede uma vez mais, pescando, no lugar de peixes, uma imagem de Nossa Senhora da Conceição, sem a cabeça. Deitando novamente a rede, apanhou o pescador a cabeça da Santa Virgem Aparecida, que foi em seguida juntada ao corpo. Os três pescadores deitaram novamente as suas redes, apanhando tantos peixes que se viram forçados a aportar, posto que o volume da pesca era tão copioso que ameaçava afundar as embarcações. Foi este o primeiro dos inúmeros milagres da Virgem Morena, que assim ficou em razão do tempo que permaneceu no fundo do rio.

Como ressaltou Plínio Salgado, o mais injustiçado dos grandes pensadores e escritores católicos do Brasil, na magnífica conferência Mensagens ao Mundo Lusíada, a 6 de Fevereiro de 1818, data de sua coroação, El-Rei D. João VI, soberano do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, instituiu a Ordem Militar da Conceição de Vila Viçosa e confirmou a consagração que El-Rei D. João IV fizera das Pátrias Lusíadas a Maria Imaculada, em 1646. Conforme igualmente sublinhou o autor de O Rei dos Reis e de Primeiro, Cristo!, D. João VI, primeiro príncipe português a pisar o solo brasileiro e americano, foi quem elevou o Brasil à categoria de Reino, aos 16 dias do mês de Dezembro do ano da Graça de 1815, data em que a nossa Terra de Santa Cruz se tornou uma “nação independente, conquanto unida a Portugal, na grande fórmula dos Reinos componentes da comunidade lusíada”. Portanto, ainda como frisou Plínio Salgado, a mão que assinou a outorga de maioridade e de personalidade política a esta Terra de Santa Cruz foi a mesma nobre e inspirada mão que aos povos lusíadas dos dois lados do Atlântico “legou um penhor de união indissolúvel no culto de Maria Imaculada”, [2] a quem, nas palavras do autor de Mensagens ao Mundo Lusíada,

“proclamamos Rainha e Padroeira de Portugal, do Brasil e de todos os povos que falam a mesma língua em que Camões cantou e em que rezaram os Santos, os Cavaleiros e os Reis construtores da nossa História e profetas do nosso Destino”. [3]

Ainda conforme enfatizou o magno adail da Fé e cavaleiro do Brasil Profundo que foi e é Plínio Salgado, só com Maria Imaculada e por Ela, os brasileiros e portugueses lograrão salvar o património da Civilização Lusíada “da voragem de misérias que, sob rótulos pomposos e esperanças ilusórias se escondem na boca dos falsos profetas”. [4]

Ao tratar da mensagem de Nossa Senhora Aparecida, observou o assinalado autor de A Tua Cruz, Senhor (Plínio Salgado) que é esta uma mensagem essencialmente “antirracista, uma proclamação do universalismo católico, que abrange todos os tipos humanos, sem predominância de um sobre os outros” e que só não pode ser aceito por aqueles que, equivocadamente, pretendem “fundar a justiça na base de particularismos étnicos”. [5] “Mãe de todas as gentes em todas as latitudes e em todas as expressões dos caldeamentos”, assim como “símbolo da Universalidade Católica, da Comunhão dos Santos, luz a um tempo de cambiantes boreais e fulgurações tropicais”, [6] Nossa Senhora parece querer dizer à nossa Terra de Santa Cruz, que tem recebido correntes imigratórias de todo o Mundo:

“esta é a Pátria formada sob as luzes do Evangelho, que o português interpretou e realizou na obra civilizadora e os brasileiros continuam, confraternizando todos os povos do planeta”. [7]

Como igualmente salientou o bandeirante da Fé e do Império que foi e é Plínio Salgado, tudo o que Nossa Senhora tem realizado, ao longo dos séculos, “para conservar o Brasil fiel aos costumes cristãos”, particularmente naquilo que se refere à Família, cellula mater da Sociedade, e tudo aquilo que ela tem presidido de nobre e grandioso na construção da Nacionalidade, “tudo isso é graça, é aviso, é mensagem trazendo a luz do Céu”. [8]

Sejam estas as nossas singelas palavras a propósito de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, Rainha e Padroeira do Brasil, e de sua mensagem, mensagem estuante de Catolicidade e de Brasilidade e, portanto, de Lusitanidade, de Portugalidade.

Victor Emanuel Vilela Barbuy,
São Paulo, 12 de Outubro de 2017. 


Notas: 
[1] Mensagens ao Mundo Lusíada, in O Rei dos Reis, 5ª edição, in Obras completas, volume 6, 2ª edição, São Paulo, Editora das Américas, 1957, p. 359.
[2] Idem, pp. 350-351.
[3] Idem, p. 351.
[4] Idem, loc. cit.
[5] Idem, p. 371.
[6] Idem, p. 372.
[7] Idem, p. 371.
[8] Idem, p. 373.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

DUQUES DE BRAGANÇA VISITARAM CASA DO COMBATENTE NO FUNCHAL


Dom Duarte Pio, Duque de Bragança, visitou a Casa dos Combatentes, onde incitou os presentes a "continuarem a não perder a esperança" e a "fazer algo mais" por todos os combatentes que desde sempre defenderam o País.

Fazendo-se acompanhar pela esposa, Dona Isabel de Bragança, e pelo comandante operacional e da Zona Militar da Madeira, general Carlos Perestrelo, Dom Duarte Pio foi recebido à entrada das instalações pela Direcção do Núcleo do Funchal da Liga dos Combatentes e por um grupo de combatentes, a quem saudou e com quem partilhou algumas memórias pessoais alusivas à sua permanência como tenente piloto aviador da Força Aérea na ex-província de Angola, entre 1968 e 1971.

De acordo com uma nota enviada pela Casa dos Combatentes ao JM, no interior das instalações, o Duque de Bragança teve oportunidade de observar as suas alterações, com destaque para a Capela de São Nuno de Santa Maria, de quem é devoto, o Gabinete Médico e de Apoio Psicológico e, por último, o miradouro que hoje serve de esplanada do bar, onde foi servido um Madeira de Honra.

Durante este momento, o presidente do Núcleo do Funchal da Liga dos Combatentes, tenente coronel Bernardino Laureano, usou da palavra para agradecer a Dom Duarte Pio "a honrosa visita", fazendo referência não só à sua condição como representante da Casa Real Portuguesa, mas também por ter sido combatente e servido as Forças Armadas Portuguesas em terras de África.

"Por fim", adianta a nota, "dirigindo-se aos combatentes presentes", o Duque de Bragança "agradeceu o convite, referindo que a Casa dos Combatentes no Funchal era um exemplo a nível nacional e de prestígio para a Liga dos Combatentes, felicitando todos os elementos pelo trabalho desenvolvido".

Já prestes a abandonar as instalações, Dom Duarte Pio visitou o monumento de São Nuno de Santa Maria que se encontra no parque de estacionamento e, antes de se despedir, "deixou uma mensagem de simpatia e admiração por todos, prometendo voltar ao local sempre que venha à Região". 



Fonte: JM Madeira e FN

A BATALHA DE MACAU (1622)

Foto de Nova Portugalidade.

Africanos, asiáticos e europeus na defesa de Macau, a maior das vitórias portuguesas sobre a Holanda em terra asiática

Integrado desde 1580 na monarquia dos Habsburgos, Portugal herdou deles inimigos que antes não tivera e conflitos de que sempre tentara abster-se. Em 1592, o apresamento do galeão português A Madre de Deus por piratas ingleses despertou para o mundo protestante, inimigo de Lisboa, a consciência do poderio económico de Portugal e, nesse poderio, a centralidade da Ásia portuguesa: sozinho, um só dos galeões do Rei de Portugal havia valido à Inglaterra meio milhão de libras esterlinas, o que equivalia a metade do tesouro inglês. Aquela demonstração da fabulosa riqueza que havia a obter a leste excitou os ingleses. Os holandeses, aliados daqueles no corte com o Papa e na oposição ao império católico de portugueses e espanhóis, entusiasmaram-se também. Fundada a Companhia Holandesa das Índias Orientais, ou VOC, esta instala-se no Índico e na Insulíndia; em 1603, copiando a Inglaterra, a Holanda captura perto de Singapura o imenso galeão português Santa Catarina. Tão magnífico foi o saque que o navio permitiu aumentar em 50% os capitais da Companhia, injecção de dinheiros que a VOC usaria para expandir-se rapidamente por todo o Oriente.


Recebida da Espanha, pois, a inimizade do mundo protestante - até à União, a política portuguesa fora pragmática: no reino e no império, repressão do protestantismo; na Europa, boas relações comerciais com a Holanda e a Inglaterra - Portugal achou-se à mercê da cobiça de ingleses e, especialmente, de holandeses. O enfrentamento luso-holandês duraria sessenta longos anos e constituiria a primeira guerra verdadeiramente mundial da História do Homem: travá-la-iam portugueses e flamengos, a Cruz de Cristo contra a insígnia da VOC, carraca e filibote, no Brasil, em África, na Índia, na China e na Insulíndia. Portugal vencê-la-ia a ocidente, preservando o Brasil e Angola, e perdê-la-ia a Oriente, com os grandes bancos de Amesterdão a tomar o Ceilão, Malaca e grande parte das nossas possessões indianas.

Em 1622, os holandeses tentaram igualmente assenhorear-se de Macau. O ataque ao Santa Catarina, vinte anos antes, fizera a fortuna dos accionistas da Companhia e catapultara a empresa no seu projecto de dominação da Ásia. O que convirá esclarecer é que o Santa Catarina não transportava especiaria, mas porcelana da China. O primeiro contacto da VOC com as riquezas da Ásia dera-se, pois, através de Macau, e Macau, porta da China que era então, manteve-se solidamente incrustado na cabeça dos decisores holandeses. Em Maio de 1622, apareceram frente a Macau quatro fortes embarcações inimigas. Duas exibiam o pavilhão azul, laranja e branco da VOC; outras duas, inglesas, o pavilhão daquele país. Tentaram uma primeira investida, que Lopo Sarmento de Carvalho, capitão dos portugueses, parou pela construção de um banco de areia nas praias. Vencidos naquele dia, confiantes no próximo, os holandeses preferiram esperar nos navios e impor completo cerco marítimo à cidade.

Macau achava-se precariamente defendida. Conhecedores dos ciclos do comércio e da situação local, os holandeses haviam escolhido para a invasão data oportuna. Acabada de abrir a temporada comercial, grande parte da população reinol da cidade - é dizer, de origem metropolitana - encontrava-se em Cantão; pior, a invasão da China Ming pelos Manchus havia ditado um pedido de auxílio de Pequim aos portugueses. Aliado do Imperador, Portugal honrara o seu pedido de ajuda e enviara para norte um poderoso contingente de quatrocentos mosqueteiros. Em Macau, pois, gente pouca e mal armada: cinquenta soldados e, entre rapazes e adultos, reinóis e macaenses, coisa de cem homens capazes de pegar em armas. Tão pobre era a força portuguesa que defendia a cidade que os holandeses haviam esperado, de início, tomá-la com apenas os quatro navios chegados em Maio. Os cuidados de Sarmento de Carvalho haviam-nos forçado a pedir reforços a Batávia, bastião da VOC na Insulíndia. Saíram de lá alguns navios. Outros puseram-se a caminho de Macau via Manila, nas Filipinas, onde cercavam a guarnição espanhola.

A frota holandesa, já reforçada, apresentou-se frente a Macau a 22 de Junho de 1622. Era uma armada forte de dezassete navios, dois dos quais ingleses, e que transportava um contingente terrestre de mil e quinhentos homens. Os combates iniciaram-se quando a força naval holandesa, comandada pelo Almirante Cornelis Reijersen, despachou contra o Forte de São Francisco dois navios. Deram-se mal os flamengos: o forte resistiu, acabando inutilizada - e, mais tarde, afundada - pela artilharia portuguesa uma das embarcações inimigas. Reijersen ordenou então um ataque geral. De acordo com Montalto de Jesus em "Historic Macau", desceram sobre as praias da cidade oitocentos holandeses, juntamente com número não insignificante de japoneses e malaios que se haviam juntado à expedição flamenga por sede de lucro. Os ingleses, a quem havia sido negada participação no saque, recusaram-se a tomar parte no desembarque. 

Com a guarnição de Macau distante e a força portuguesa muito reduzida, a salvação da cidade foi confiada aos cento e cinquenta portugueses metropolitanos e luso-chineses, assim como aos escravos negros ali residentes. Uns e outros bateram-se com inegável bravura. Montalto e outros narram a impossível defesa das praias por António Rodrigues Cavalinho, cinco outros europeus e algumas dezenas de africanos. Disparando contra o fumo em que a força anfíbia holandesa se escondia, estima-se que tenham abatido quarenta adversários. Retiraram-se depois para o centro perseguidos, e quase batidos, pelas companhias holandesas. Mas estas não puderam ser impedidas de tomar a costa, e assenhorearam-se delas pagando pesado preço. Marcharam, depois, para o coração de Macau. A população civil, consternada, deixou-se dominar pelo pânico: os chineses - então ditos "chinas" - fugiram para o campo; as famílias cristãs, europeias e luso-chinesas, retiraram-se para o grande seminário jesuítico de São Paulo. Os jesuítas, ali muito numerosos, instalaram-se por sua vez na Fortaleza do Monte, de onde animaram furiosos fogos de artilharia contra o invasor.

Reijersen, liderando a infantaria da VOC, penetrou a cidade até ao centro. E parece ter sido aí que, em notável reviravolta, a sorte mudou de lado e os holandeses foram postos em retirada. Da Fortaleza do Monte, o Padre Giacomo Rhó, na China ao serviço da Companhia de Jesus e da Coroa portuguesa, fez fogo de canhão sobre a tropa flamenga. Rhó era, ora, grande matemático; o padre seria, depois deste episódio, convidado pelo Imperador Chongzhen da China para Pequim e lá criaria, e lideraria, o Observatório Imperial. O sacerdote terá aplicado os conhecimentos que obtivera em Goa, onde estudara, para fazer chegar aos homens da Holanda tiros precisos. Um deles, parece, fez rebentar o carregamento de pólvora que o inimigo trouxera dos navios para terra. A explosão foi imensa, matando soldados e deixando os sobreviventes sem modo de resistência. Animados, os defensores - numa massa humana em que os negros e os luso-chineses seriam clara maioria - lançaram-se sobre eles, deixando-os sem reacção que não fosse a da fuga. O que se seguiu foi arrepiante, miserável retirada: a tropa holandesa correu, sem honra e sem glória, rumo ao mar; Lopo Sarmento de Carvalho e António Rodrigues Cavalinho inspiraram a carga portuguesa e resolveram o dia a favor das nossas armas. No fim do dia, multidão de cadáveres altos e louros - eis o comentário que se retira de várias fontes portuguesas - adornavam as ruas e praias de Macau. Divergem apenas os relatos quanto à dimensão das perdas de parte a parte. Para os portugueses, entre 300 e 800 holandeses mortos; na documentação da VOC, 136 mortos e 126 feridos. Charles Ralph Boxer, grande autoridade da História do império oriental de Portugal, vê maior merecimento na informação prestada pelos portugueses e coloca as mortes holandesas acima das trezentas. Certo é que, destas, se contam sete capitães, quatro tenentes e sete bandeiras. Para os portugueses, apenas seis europeus e número indeterminado, mas baixo, de africanos, assim como 20 feridos.

A enorme humilhação sofrida pelos holandeses às mãos de Portugal em Macau foi motivo de consternação geral em Batávia. O governador-geral holandês, Coen, atribuiu a resistência portuguesa à coragem dos africanos que serviam Portugal, muitos deles escravos. Terá dito que "os escravos dos portugueses serviram-nos com tal fidelidade que foram eles quem nos derrotou em Macau". O papel dos contingentes africanos, independentemente da importância da artilharia de Rhó, da bravura de Cavalinho e do comando de Sarmento de Carvalho, parece ter sido verdadeiramente determinante para a defesa da cidade. Os portugueses de Macau reconheceram-no libertando "grandes números de escravos" imediatamente após a vitória. Boxer refere igualmente que o vice-rei chinês de Cantão, admirado, mandou grandes quantidades de alimentos para Macau para que fossem oferecidos aos mais distintos dos combatentes africanos.

RPB

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

A PROPOSTA DE RIBEIRO TELLES PARA A ZONA ARDIDA

Foto de Gonçalo Ribeiro Telles.

OS PORTUGUESES NÃO SÃO (APENAS) EUROPEUS. SÃO DA PORTUGALIDADE

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Portugal não é nação europeia - ou, pelo menos, não é apenas europeu. Dizemo-la assim, de rompante, com a exactidão e segurança que se exigem quando se proclamam as grandes verdades. Parece, claro, afirmação herética: como pode Portugal não ser nação europeia se à Europa se dedica em pleno desde há décadas? Como pode Portugal não ser Europa quando mais não há nas cabeças dos seus chefes que Bruxelas, Paris, Londres e Berlim? Como pode Portugal não o ser em tempo de União Europeia, de Schengen, de Euro e BCE? A resposta é firme: Portugal não é Europa porque escolheu não o ser; Portugal não é Europa porque, digam o que disserem os políticos ou os portugueses confusos, comprados ou mentalmente estropiados, a realidade é o que é. A realidade dos povos é moldada na sucessão das eras; a essência da obra portuguesa, a maior das decisões nacionais, o momento-chave da nossa História foi, precisamente, o instante em que Portugal decidiu construir espelhos de si nos confins do mundo descoberto e por descobrir. Nesse momento ponderoso, Portugal deixou de ser apenas europeu e passou, na profundidade plena do termo, a ser português: ser português tornou-se ser europeu, mas mais que europeu. Isso somos nós, como povo e nação (ainda que já não como Estado) desde as Descobertas.

Ao argumento se fornecem, como prova, aquelas evidências que os portugueses - ou, pelo menos, alguns portugueses - parecem ter vendido a troco de "fundos europeus", auto-estradas e banal cimento. Que português poderá achar-se europeu - isto é, europeu antes de ser português, europeu antes de ser homem da Portugalidade - ao ouvir missa no Rio, sob as armas de Portugal e escutando um sacerdote em português? Que português estranho, alienado, destruído na consciência poderá achar-se mais em casa em Budapeste - o que nos é Budapeste? - que em Díli, Goa ou Luanda? Que triste português, que ruína de homem poderá considerar-se mais próximo do alemão ou do francês que do cabo-verdiano com que partilha a língua, a fé e tantos séculos de convivência e sangue dado em comum? Decerto haverá alguns, mas quem poderá dizê-los verdadeiros portugueses se ignoram quem são?

Portugal não é europeu. É também europeu, como é também asiático, também africano, também americano. Saiu da Europa, andou pelo globo e regressou dele alterado. Aprendeu a compreender a diferença porque a viu de perto; descobriu aquelas subtilezas que permitem a concórdia entre os povos; fez, onde assentou, o mundo à sua imagem, mas ao fazê-lo mudou-se também no seu âmago. O príncipe das nossas letras, Padre António Vieira, era mulato. Bartolomeu de Gusmão e Alexandre de Gusmão - um, padre e cientista celebrado; o outro, seu irmão, secretário de Dom João V e, a seu tempo, o homem mais poderoso do império - eram de extracção ameríndia. Henrique Dias, herói da Restauração Pernambucana, era negro; Filipe Camarão, seu camarada de armas, índio; Almada Negreiros, glória das nossas artes no século passado, mestiço de São Tomé e Príncipe. A nossa língua é falada em todos os continentes. Os nossos fortes, as nossas catedrais, os nossos canhões, os nossos padrões, estão espalhados pelo mundo. O que é, pois, Portugal? Europeu ou português? Sem dúvida, é português. Hoje, mais do que nunca, é importante lembrá-lo e repeti-lo. Para que os portugueses saibam quem são e para que ajam em conformidade.

RPB


quarta-feira, 18 de outubro de 2017

A NOVA PORTUGALIDADE AJUDA-NOS A PERCEBER O DRAMA DOS INCÊNDIOS

Foto de Nova Portugalidade.

Ao contrário de uma certa crença muito difundida, o processo de desarborização – a chamada crise florestal – não é um fenómeno recente, mas iniciou-se nos séculos XV e XVI com a destruição da economia rural medieval. Arroteamentos, alargamento do espaço destinado ao pastoreio extensivo e procura de madeira «grossa» destinada aos estaleiros navais de Lisboa, Porto, Aveiro, Viana e Lagos, provocaram a destruição das paleo-florestas.
No início do século XIX, quase todas as terras estavam nuas de arvoredo e os bosques das terras altas recebiam golpe sobre golpe num país onde a lenha rareava. Os quadros oferecidos pela literatura portuguesa de base provinciana são eloquentes desse país escalvado, poeirento e pedregoso.
Em 1867, o Relatório da Arborização, primeiro estudo sério produzido em Portugal, mostrava que apenas 7% do território era arborizado. Portugal era um imenso deserto. Com a criação do Regime Florestal (1901), o governo da monarquia apontou o rumo para a rearborização do território entre o Minho e o Tejo. Contudo, a implantação da república, a crise económica, a penúria crónica e a desorganização do Estado tornaram impossível responder à grave crise ambiental que assumia proporções de desastre. Teve de se esperar pelo advento do Estado Novo para que entrasse em execução o Plano de Povoamento Florestal (1938), inspirado nos programas então em voga nos EUA e Europa, o qual prolongou-se até 1972 e foi efectivamente cumprido.
Optou-se pela plantação extensiva do pinheiro bravo, a melhor solução para impedir a erosão dos solos, mas igualmente pela criação de uma polícia florestal e quadros técnicos do Estado com a incumbência de preservar o património florestal. Em 1965, 33% da superfície do país estava já coberta de matas. Os incêndios rareavam. A área de fogos nas décadas de 1950 e 1960 não excedia os 5000 hectares/ano. Veio a revolução, as estruturas entraram em colapso e só em 1975 arderam 80.000 hectares ou seja, o equivalente à soma de todos os incêndios verificados no país entre 1951 e 1974. A devastação continuou. Entre 1976 e 1981, a área anual de fogos foi de 40.000 hectares. O que restava da indústria das florestas entrou em colapso ao longo das décadas de 1980 e 1990. Desde então, verifica-se uma perda anual de 2% da superfície da mancha florestal.
A agravar o quadro de desastre, a indústria das celuloses entrou em força, implantando o famigerado eucalipto, espécie voraz que devastou os solos, a mata e a flora nativas, esgotando igualmente os lençóis freáticos. Ao longo das últimas duas décadas, tendo perdido competitividade, a indústria do papel entrou em recessão. Não sabendo o que fazer com o que restava das nossas florestas, o “poder autárquico” aproveitou-se da falta de autoridade do poder central e lançou mão à destruição do mínimo de racionalidade ainda existente. A absurda política de abertura de estradas para nenhures, as célebres “rotundas”, os loteamentos, os “parques industriais” que jamais passaram da fase de destruição dos bosques pré-existentes, os campos de golfe e “projectos de urbanização” que retiraram populações de cidades e vilas para a conurbação dos velhos centros urbanos, empurrando-as para áreas de bosque, deixaram-nos à beira do precipício. Ora, como as matas não dão votos, e como todo o regime vigora nesta criminosa inconsciência demagógica de “obras”, o que resta da floresta portuguesa está condenada à desaparição.
Não, a floresta europeia não está em regressão, mas em expansão. A excepção é Portugal. Porquê ?

Miguel Castelo-Branco


OS PORTUGUESES DA BIRMÂNIA, UM POVO DE SOLDADOS

Foto de Nova Portugalidade.

Chegaram a Myanmar (o nome por que o birmaneses designam o seu país) na terceira década do século XVI, servindo sucessivamente as dinastias de Ava, Toungoo e Konbaung. Ao longo de 300 anos, a minoria luso-birmanesa especializou-se como grupo social estratégico, desempenhando funções administrativas relevantes no palácio, no comércio internacional e no exército.

Em Merguy, Tavoy e Dagon (hoje Rangum, capital histórica do Myanmar), principais portos de mar, a função de shabandar, ou seja, de capitão portuário, foi sempre desempenhada por estes católicos habilitados para o uso das duas línguas francas então usadas no Sudeste-Asiático, o malaio e o português. Depois, com a afirmação do poder britânico a partir de meados do século XVIII, passaram a dominar o inglês e ganharam uma nova competência; transformaram-se em tradutores e intermediários em todas as embaixadas enviadas pelos britânicos à corte birmanesa. Posto que Calcutá, então sede do poder britânico na Índia, se transformara lentamente em importante pólo comercial, os governantes birmaneses ali procuraram estabelecer agentes comerciais e diplomáticos. Assim, coube aos portugueses da Birmânia tal importante tarefa. Não é, pois, de estranhar que a sua influência fosse crescendo, ao ponto de um dos últimos reis da dinastia Konbaung ter tomado como uma das suas mulheres uma rapariga luso-birmanesa.

Mas foi como comunidade marcial que os nossos luso-birmaneses ganharam notoriedade. Nas lutas com o Sião, com o império chinês e, finalmente, durante as três guerras com os ingleses - primeira guerra anglo-birmanesa (1824-1826), segunda guerra anglo-birmanesa (1852-1853) e terceira guerra anglo-birmanesa (1885) - as unidades católicas do exército real birmanês, armadas à europeia, transformaram-se na espinha dorsal do dispositivo birmanês. Para além de unidades de atiradores, constituíram-se unidades de artilharia de campanha cuja eficácia foi repetidamente comprovada nos campos de batalha, em assédios e operações defensivas.

Na imagem, uma força de infantaria composta por portugueses da Birmânia. A portugalidade do contingente é-nos revelada pela bandeira, uma cruz negra sobre fundo vermelho.

MCB

terça-feira, 17 de outubro de 2017

PORTUGAL ESTÁ DE LUTO!

Foto de CAUSA REAL.
A Causa Real une-se a todos os portugueses que sofrem no país que arde, principalmente às famílias que vivem a dor da perda.
Este é um momento de união por todos os que vivem esta situação dramática e pelos bravos bombeiros que tudo fazem para salvar vidas.

O MITO DA NOBREZA ANALFABETA

Foto de Nova Portugalidade.


1. Historiografia ou ideologia ?

Não há mito que não se alimente sem mentira; não há mentira que subsista com conhecimento. Desarmar os mitos pela via historiográfica revisionista, eis a única receita para desarmadilhar as verdades engrossadas pela tradição, aquelas que, de tão repetidas, se transformaram em doutrina indiscutida. É sabido que desde o século XIX se montou intensa campanha difamatória contra a dinastia de Bragança e contra a nobreza supostamente decaída a partir "absolutismo" do período joanino. Em Rebelo da Silva (A Última Corrida de Touros Reais em Salvaterra, 1848; A Mocidade de D. João V, 1852-53), em Oliveira Martins (História de Portugal e Portugal Contemporâneo), em Junqueiro (Pátria, 1896), em Júlio Dantas (Os inquéritos médicos às genealogias reais portuguesas - Avis e Bragança, 1909) e até na sempre frágil preparação historiográfica de Saramago perpassam a "maldição dos Bragança", a "degenerescência" da estirpe - beata, casmurra, idiota, caprichosa, reaccionária, decrépita, sifilítica, vítima da consanguinidade, violenta ou afásica - e a sua responsabilidade no Finis Patriae. Tudo o que se escreve e repete na Academia parece carecer daquele mínimo de rigor investigativo que coroa a História como conhecimento do tempo passado. Infelizmente, praticamente tudo quanto se faz passar por História é instigado por ideologia ou, pior, por propaganda, não lhe faltando, até, a adjectivação (o pior inimigo da serenidade) e o anedotário jamais sustentado por um simples documento de arquivo.

2. A nobreza: uma ordem decaída ?

A historiografia oitocentista estabeleceu uma teoria da decadência nacional pondo de relevo a quebra de vitalidade da antiga nobreza, que supostamente se deixara envilecer, amolecer e domesticar na "vida da Corte", nas procissões "fradescas", nas caçadas e no marialvismo.

Do século XVII não há vestígio dessa queda, nem mesmo no século XVIII. Sirvamo-nos de um recorrente exemplo de mentira institucionalizada. Em compêndios de história seiscentista afirma-se, amiúde, que um dos requisitos para a ocupação do posto de sargento era o de saber contar, ler e escrever, "pois os oficiais são nobres", ou seja, assinam de cruz, são analfabetos. Gastão de Mello de Matos, historiador amante do rigor e da mais exigente tradição positivista, procurou em vão tal documento nos arquivos nacionais para comprovar tal exigência. Nada encontrou. Talvez não fosse necessário tal esforço, pois bastar-lhe-ia ter compulsado o célebre Abecedário Militar do que o Soldado deve fazer para chegar a ser Capitão e Sargento, de João de Brito de Lemos (1631) para ali encontrar cabal desmentido de tal fantasia. O que João de Brito de Lemos afirmava era, apenas, que os sargentos deveriam saber ler e escrever para "fazerem a lista dos soldados da [respectiva] companhia". Dos oficiais, para além do sentido da honra, da lealdade, do serviço do Rei, exigia-se conhecimentos de táctica, teoria de fogos e castramento (ou seja, de defesa).Ora, conhecendo a rol de bibliografia seiscentista e setecentista sobre a arte militar, sabe-se pelos róis das bibliotecas pertencentes à nobreza portuguesa, que tais obras eram conhecidas, lidas e até anotadas pelos respectivos proprietários.

Outra mentira recorrente afirma que os altos cargos no Ultramar eram confiados a nobres impreparados, pelo que para o declínio imperial teria concorrido a fraqueza da elite dirigente. É hoje sabido que os Vice-Reis portugueses na Índia foram, ao longo do século XVIII e até 1821, homens de assinalável mérito, capacidade e preparação, o contrário da lenda-negra oitocentista finissecular. Eram homens possuidores de bibliotecas, com interesses ecléticos, da História Antiga e Moderna, da religião, legislação, literatura, Filosofia, teoria política e questões militares aos clássicos (Horácio, Cícero, Marco Aurélio) (1); mais, eram poliglotas, falavam, liam e escreviam latim e francês, línguas cultas por excelência e possuíam alta consciência e segurança de si mesmos, o que lhes permitia lidar com homens de diferentes condições. Estavam, pois, preparados para o exercício do mando. “Os [Reis] escolhem sempre para este cargo (…) pessoas de raras qualidades e sangue muito ilustre em que concorrem esforço, entendimento e experiência na guerra e em todas as coisas necessárias para a administração de tal cargo" (2). 

MCB

(1) ver A.J.R Russel-Wood, “Governantes e agentes”, História da expansão portuguesa, v.3, Lisboa, Círculo de Leitores, 1998, p.179.
(2) ver Francisco Mendes da Luz (ed), Livro das cidades, e fortalezas, que a coroa de Portugal tem nas partes da India, e das capitanias, e mais cargos que nelas há, e da importancia deles, Lisboa, Centro de Estudos Históricos Ultramarinos, 1960, p.9.

Imagem: Luís de Vasconcelos e Sousa, 4.º Conde de Figueiró, Vice-Rei do Brasil (1778-1790)

FOTOGRAFIAS DO ROTEIRO REAL "OS TÁVORA E MARIALVA NO BAIRRO ALTO"

Foto de Real Associação de Lisboa.

Decorreu no passado sábado à tarde mais um Roteiro Real que reuniu mais de duas dezenas de associados da Real Associação de Lisboa num passeio guiado por Joel Moedas Miguel pelo Bairro Alto, entre a Igreja de São Pedro de Alcântara e o Convento dos Cardaes, subordinado ao tema “Os Távora e Marialva no Bairro Alto”.

Foto de Real Associação de Lisboa.

Foto de Real Associação de Lisboa.

Foto de Real Associação de Lisboa.

Foto de Real Associação de Lisboa.

Foto de Real Associação de Lisboa.

Foto de Real Associação de Lisboa.

Foto de Real Associação de Lisboa.

Foto de Real Associação de Lisboa.

Foto de Real Associação de Lisboa.

Foto de Real Associação de Lisboa.

Foto de Real Associação de Lisboa.

Foto de Real Associação de Lisboa.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

A PORTUGALIDADE ACABA DE GANHAR TRINTA NOVOS SANTOS

Foto de Nova Portugalidade.

Destruir o mito da "boa colonização holandesa do Brasil": os massacres de Cunhaú e Uruaçu

A Igreja brasileira - e, por isso, a Portugalidade - acaba de ganhar trinta novos santos. São os mártires de Cunhaú e Uruaçu, friamente assassinados pela Holanda, que invadira o Brasil e então lá se encontrava como potência ocupante, no século XVII. A ocasião permite - obriga, até - reflexão sobre a estranha deturpação que se vem fazendo do papel da Holanda no Brasil, programa que sabemos confundir-se com a difamação de Portugal por muita historiografia lusófoba e Portugal e no Brasil.
Filha de muitos anos de propaganda anti-portuguesa nas escolas do Brasil, essa peculiar leitura da História ataca os construtores portugueses do país e exalta como bons, decentes e avançados os invasores holandeses. É outro exemplo do auto-ódio que foi elevado à dignidade de verdade por quem - e assim é com tantos governos de países portugueses, e especialmente com o do Brasil - faz da mentira a sua profissão. Mas este é especialmente extraordinário, pois o que pede do brasileiro - e o brasileiro é o português, mas sul-americano e com o seu próprio Portugal independente do Portugal europeu - é que grite de júbilo pela invasão da sua terra por povo estranho, pela violação das suas mulheres, destruição das suas aldeias e por série temível de saques, torturas, latrocínios e massacres.
Das incontáveis brutalidades cometidas pela Holanda em terra brasileira, há poucas mais repelentes que as de Cunhaú e Uruaçu. A primeira deu-se a 16 de Julho de 1645. Uma coluna holandesa, comandada por um tal Jacob Rabi, juntou-se a número indeterminado de índios potiguares e desceu sobre o Engenho Cunhaú, em Canguaretama. O povo do engenho encontrava-se a ouvir missa do seu padre, um tal André de Soveral, quando a tropa ocupante por lá entrou. Os detalhes do que se terá passado depois são de difícil, porque dura, explicação. Como os outros do aldeamento, o padre Soveral foi torturado; depois, os potiguares aliados da Holanda e às ordens de Rabi arrancaram-lhe o coração pelas costas. Os mortos foram mais de 70. Em reconhecimento do seu martírio às mãos do invasor, o Padre André de Soveral foi beatificado em 5 de Março de 2000 pelo Papa São João Paulo II.
A três de Outubro de 1645, novo acto de horror, nova manifestação de ódio irrefreado, novo motivo de vergonha a quantos ousam hoje cantar as virtudes da conquista holandesa. Cunhaú causara compreensível temor entre a população luso-católica e esta, acossada, refugiara-se na costa. Rabi e seu bando seguiram-nos e, encontrando grupo de oitenta, tentaram forçá-los à conversão ao calvinismo. Se o fanatismo religioso teve origem em J. Rabi, um judeu holandês, é impossível saber; é de crer que o acompanhariam presbíteros calvinistas, e que teria partido deles a exigência de apostasia. O que sabemos é que a população, embora cercada, humilhada e aterrorizada, recusou apostatar. O sacerdote português, Padre Ambrósio Ferro, foi supliciado e forçado a assistir à chacina de todos os outros. A um deles, um camponês chamado Mateus Moreira, foi arrancado, como ao Padre Soveral de Cunhaú, o coração pelas costas. Moreira terá deixado o mundo com brado de coragem e fé: "Louvado seja o Santíssimo Sacramento!" foi o que exclamou no momento do fim. Hoje, como o Padre André de Soveral e 28 outros mártires, Moreira foi canonizado pelo Papa Francisco em Roma. São trinta novos santos portugueses, brasileiros e da Portugalidade.
A ocupação holandesa do Brasil terminou em 1654. É prova infeliz do estado da educação brasileira que tantos vejam neste período de expropriações, perseguições e massacres uma época de progresso para o Brasil. Mas dessa mentira falará a Nova Portugalidade futuramente.