LEI DO PROTOCOLO DO ESTADO

A CAUSA REAL NO DISTRITO DE AVEIRO

A CAUSA REAL NO DISTRITO DE AVEIRO
Autor: Nuno A. G. Bandeira

Tradutor

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

EXCERTOS DA HOMILIA DA SANTA MISSA DE SUFRÁGIO POR EL-REI DOM MIGUEL



[…]
DOIS AMORES ERIGIRAM DUAS CIDADES


Caríssimos irmãos, o aniversário da morte de El-Rei Dom Miguel de Portugal, permite-nos evocar a personalidade singular deste Monarca ainda hoje tão incompreendido e injustamente banido da gratidão de boa parte do povo português.
Mas, mais importante que recordar virtudes pessoais ou, em debalde, elencar elogios fúnebres, seja-nos permitido trazer à nossa contemplação a realidade icónica de Dom Miguel de Portugal.
Sim, Dom Miguel não se representa simplesmente a si mesmo. Evocar El-Rei Dom Miguel em nossos dias, significa evocar um Portugal que fomos e que, Deo volente, havemos de tornar a ser. Significa evocar um Portugal fiel às suas raízes mais profundas, que bebem da fonte perene da Tradição, o respeito reverencial devido a Deus, à Pátria e ao Rei.
Com efeito, é possível traçar uma linha clara e distinta entre este Portugal tradicional hoje evocado, o Portugal das origens, diríamos a nossa Alma Mater e o novo Portugal, o Portugal liberal, um Portugal em conflito de identidade, amnésico de passado, absorvido pelo presente e prenhe de ilusões estrangeiradas a que chama de futuro.
Tal abismo entre estas duas realidades, encontra par e explicação naquela dicotomia que Santo Agostinho, na Cidade de Deus evidencia: “Dois amores erigiram duas cidades, Babilónia e Jerusalém: aquela é o amor de si até ao desprezo de Deus; esta, o amor de Deus até ao desprezo de si.” (Santo Agostinho, De Civitate Dei, 2, Lib. XIV, c. XXVIII).
O Santo Bispo de Hipona, haveria de explicar melhor cada uma destas cidades edificadas pelos homens: “são dois amores – diz Santo Agostinho – em que um é puro e o outro é impuro; um junta e o outro espalha; um quer o bem comum em vista da sociedade celeste, e o outro se vale do bem comum e submete-o ao seu domínio por orgulho e prevalência; um submete-se a Deus, e o outro tem-Lhe inveja; um é tranquilo, e o outro turbulento; um é pacífico, e o outro sedicioso; um prefere a verdade aos louvores dos aduladores e o outro é ávido de louvores, quaisquer sejam as suas fontes; um deseja ao próximo o bem que para si deseja, e o outro deseja submeter o próximo; um governa os homens para o bem do próximo; e o outro para seu proveito; esses dois amores, de que já se imbuíam os anjos, um nos bons e o outro nos maus, esses dois amores erigiram duas cidades, por entre os homens (Santo Agostinho, De Genesi ad litteram, Lib. XI, c. XV).

Como não entrever neste abismo entre as duas cidades apresentadas por Santo Agostinho, o extraordinário terramoto que sacudiu a nossa Pátria: a revolução liberal.

Hoje, como sublimemente constata o Senhor Cardeal Patriarca, D. Manuel Clemente, com justiça reconhecido como um dos maiores especialistas do catolicismo nesta época, continuamos credores desse momento fundador para a relação Igreja-Mundo que foi o advento do liberalismo: “o tipo de relação Igreja- Mundo que hoje vivemos tem as suas origens na sociedade subsequente à revolução liberal, acontecida em França no fim do século XVIII e sucessivamente ecoada em Portugal nas primeiras décadas do seguinte” (cf. Manuel Clemente, Igreja e Sociedade Portuguesa, ed. Assírio & Alvim, p.180).
Na verdade, se atendermos aos costumes da vida contemporânea, mas também aos princípios axiológicos e até aos códigos legislativos, hoje vigentes, e se examinarmos a sua génese, não sem razão podemos emitir o atestado de paternidade ao pensamento liberal, “a maior dificuldade” enfrentada pela Igreja Católica, “em toda a história portuguesa”, como indica o Eminentíssimo Patriarca.
Poderia parecer ao espírito de alguém, como uma comparação algo forçada, esta que elencámos entre as duas cidades apresentadas por Santo Agostinho – Jerusalém e Babilónia – e estas duas nações divididas pela revolução liberal. Mais a mais, adeptos que somos de uma equilibrada laicidade – ou como diria o Papa Pio XII, de veneranda memória, uma “sã e legítima” laicidade do Estado –, esta releitura religiosa poderia provocar até algum desconforto.
Contudo, se formos imparciais no julgamento dos factos, chegaremos à conclusão de que a “questão religiosa” não é um apêndice do movimento liberal: ela é, com efeito, central no processo revolucionário.
O pensamento liberal afirma o princípio da liberdade de consciência, e preterindo a verdade dogmática, entrega-se cegamente ao conhecimento cientificista. Engana-se quem pensa que nesta equação sobra pouco espaço à religião. Não. A religião transcendente é suplantada pela religião imanente, por uma religião política, que se constitui, na definição de um avisado historiador, num “sistema de crenças, mitos, rituais e símbolos que define e interpreta o sentido e o fim da existência humana através da subordinação do destino dos indivíduos e da colectividade a uma entidade suprema que não é Deus” (Emilio Gentile, La Religione della Politica, 2001). A política converter-se-ia ela mesma numa religião.
Era o que já preconizava Rousseau no seu “Contrato Social” com a definição de “religião civil” como garante da unidade do Estado. Segundo o Filósofo das Luzes, o cristianismo tinha cometido o pecado de separar a esfera do político da esfera do teológico (“dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”), dividindo assim a “devoção” da “cidadania” (cf. Rousseau, Contrato Social, IV, c. VIII). Seria, por isso, vital operar uma transferência de atributos divinos para o Estado, o que consubstanciava, mais do que numa separação da política e da religião, numa integração desta última na primeira.
O resultado deste turbilhão foi uma profunda secularização da sociedade, onde como afirma nos seus estudos, D. Manuel Clemente, o “nascer e o morrer, o contratar e o casar, estudar ou intervir na vida pública, nada teria de ser condicionado por qualquer sacralidade prévia, tudo se reduziria à simplicidade dos actos naturais” (op. cit.).
É sintomático o panorama descrito por Oliveira Martins, apenas três décadas após o termo da guerra civil: “a religião entre nós é uma conveniência social para os políticos; uma superstição elegante para as mulheres, um velho hábito banal para o povo, para o maior número. Um sentimento consciente, imperativo, fecundo, isso é que ela não é para ninguém. Oficialmente, nas estatísticas há quatro milhões de cristãos em Portugal. Realmente, nos corações há quatro milhões de indiferentes” (Oliveira Martins, 1870, in Páginas desconhecidas, Lisboa, Seara Nova, 1948, 23-24).

A esta luz se percebe que o movimento liberal tenha pretendido transformar a política em Portugal numa forma de salvação terrena, justificada pela crença no progresso, uma cidade construída sobre a areia do amor de si mesmo até ao desprezo de Deus, para me socorrer novamente do ensinamento agostiniano.

TESTEMUNHO DE RESISTÊNCIA


Mas sempre houve quem dissesse “Não!”.
Se a Igreja iria reagir tenazmente com a publicação das encíclicas Mirare Vos (1832), do Papa Gregório XVI, Quanta Cura e o Syllabus (1864) do Beato Pio IX, e pela Immortale Dei (1885) do Papa Leão XIII, muitos foram aqueles que diante da fúria avassaladora da revolução liberal, que manchou de sangue o nosso Portugal, heroicamente resistiram: por eles também rezamos em sufrágio nesta Santa Missa.
Apraz-me deter na eloquente recordação do intrépido Bispo de Coimbra – cidade que hoje acolhe a sede da Causa Tradicionalista – D. Frei Joaquim de Nossa Senhora da Nazaré.
Entre os vários bispos que tomaram posição pública em favor da causa miguelista, sobressai a voz do Bispo-Conde que a 7 de Maio de 1834 partia para Évora, com a missão de acompanhar o amigo próximo, El-Rei Dom Miguel.
Pouco tempo antes, publica uma Carta Pastoral aos seus diocesanos de Coimbra onde escreve: “ainda um pouco tempo, meus amados filhos, ainda um pouco tempo mais de sofrimento e de sacrifícios pela justa causa que defendemos; e nós seremos livres da opressão e da tirania dos nossos inimigos pela Divina Misericórdia. Quem poderia pensar, que uns homens, que tiveram a felicidade de nascer portugueses, e no grémio da Santa Igreja, que os fez cristãos, renunciado depois a todas as luzes da fé, da razão e da justiça, e alistando-se debaixo das bandeiras de uma seita infernal, que os tem perdido, se haviam de tornar os maiores inimigos que tem tido Portugal?”
A propósito da Carta, denuncia: “Uma Carta Constitucional que licencia as paixões dos homens… leis que aniquilam as ordens religiosas… declarações publicas que reprovam os sagrados cânones, finalmente o Cisma.”
Por fim, na mesma Carta Pastoral, o Bispo-Conde, D. Frei Joaquim de Nossa Senhora da Nazaré, partindo do exemplo dos Macabeus que tiveram a coragem de restaurar o reino de Israel, lutando heroicamente contra os opressores, compara: “E não vemos já, meus amados filhos, que o mesmo Deus, nos tem suscitado na Augusta Pessoa do nosso legítimo soberano, o Senhor Dom Miguel I, um Macabeu fortíssimo, tão zeloso da religião e da lei, e tão amante do seu povo?”
O seu regresso a este Reino […], a sua exaltação ao trono dos seus maiores, […] o grito geral do povo aclamando-o seu Rei legítimo […] o seu augusto nome que lhe foi dado no baptismo contra a expectação de todos e símbolo daquele que precipitou dos Céus a tantos anjos rebeldes […] é tudo isto uma espécie de prodígio, pelo qual Deus nos quer fazer persuadir que nos há-de defender e restaurar? Sim, filhos meus, assim o devemos acreditar.”
E voltando-se a referir aos Macabeus, o Bispo-Conde conclui assim a sua carta pastoral: “e da mesma sorte, que esses valorosos macabeus, auxiliados pelo socorro do Céu, puderam tirar o opróbrio de Israel, vendendo e destruindo os seus inimigos, restituindo Jerusalém e o Templo ao seu antigo esplendor, assim também, digam os contrários o que disserem, o nosso Augusto soberano, empenhado como todos o vemos, em salvar a Religião e a Pátria da opressão dos nossos inimigos, tendo o Senhor dos Exércitos por condutor das suas forças, há-de consumar um dia o que já tem começado, porque a Causa que defende é a mesma que defenderam os macabeus, idênticos os meios e idênticos os fins a que se tem proposto”.
Infelizmente tais esperanças não se concretizaram… Daí a dias, El- Rei Dom Miguel haveria de ser forçado a abdicar e do exílio, sinal de uma alma grande, ainda destinaria todos os seus bens à reconstrução do Portugal do pós guerra civil. O Bispo-Conde haveria de ser afastado de Coimbra e exilado para São Luís do Maranhão.

O terramoto de 1834 haveria de deitar por terra Jerusalém e os homens começaram a edificar Babilónia.

A HORA PRESENTE NOS CONVOCA


Quando se retira Deus do seu lugar, no coração do homem ou do centro de uma sociedade, sobra um montão de ruínas: “se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a constroem”, diz o Salmo 127 (Sl 127, 1).
Tal desiderato tem sido, ao longo dos últimos quinhentos anos, o fulcro de um movimento revolucionário que procura, malgrado os sucessivos infortúnios, edificar a sociedade humana sem o horizonte de Deus. Eis a questão de fundo: edificar um mundo, como se Deus não existisse.
O Servo de Deus, Papa Pio XII, soube intuir três fases históricas deste processo revolucionário (cf. Discurso Nel contemplare, 12.10.1952). Se o protestantismo se resume ao lema “Cristo sim, Igreja não!”, o deísmo proposto pelo pensamento liberal defendeu “Deus sim, Cristo não!”. Este processo gradativo, haveria de chegar à conclusão de que “Deus não existe!” própria do ateísmo marxista. Hoje, assistimos com assombro a uma quarta premissa desta equação. Se a negação marxista de Deus ainda dava um “sim” ao homem, hoje, os sinais de uma “cultura da morte” (São João Paulo II) vigente, pretendem esconder um lema aterrador: “o Homem não!”.
Caríssimos irmãos, a hora presente nos convoca!
As cicatrizes que vemos desfigurar o rosto belo do nosso Portugal, reclamam de nós uma acção. Sinal do Portugal de sempre, El-Rei Dom Miguel simboliza os antípodas do turbilhão revolucionário. Mais: ele soube de forma heróica, suportar até ao humanamente possível a força estertora do vendaval revolucionário. Por isso lhe devemos este acto de justiça e de gratidão.
Por isso, também, é hoje pedida a mesma resiliência aos filhos do Portugal de sempre!

Mas não basta resistir ao ímpeto revolucionário que varre o sistema educativo, corrompe os valores, destrói a Família e se divorcia da Tradição.
É necessária uma geração de portugueses cristãos com os pés na terra e o coração no céu, que restaure o nosso Portugal! Anima-nos saber que se o fizermos participamos misteriosamente da missão do Redentor: “a vontade do Pai que Me enviou é que não se perca nenhum daqueles que Me deu, mas que os ressuscite no último dia” (cf. Jo 6, 37-40) – escutávamos no santo Evangelho. Com efeito a lei suprema que há-de orientar a história de todas as nações e povos é esta: “é necessário que Jesus reine!” (cf. 1 Cor 15, 25).
Estamos na proximidade do centenário das aparições de Fátima – o acontecimento mais extraordinário da história portuguesa – em que a Virgem Maria estabelece uma aliança com a nossa e sua Terra, nos promete a perenidade do dogma da fé, e anuncia o triunfo do Seu Coração Imaculado. Connosco ou apesar de nós este triunfo virá!

Espontaneamente, brota do nosso coração português, a esperança que este triunfo de Maria seja penhor da restauração do nosso Portugal:
Nossa Senhora do Rosário de Fátima,
Nossa Rainha e Padroeira,
Salvai-nos e salvai Portugal!
Homilia proferida pelo Rev. Diácono Francisco Prior Claro, na Igreja do Mosteiro de São Vicente de Fora (Lisboa) a 19 de Novembro de 2016.

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