UMA SANTA PÁSCOA PARA TODOS!

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LEI DO PROTOCOLO DO ESTADO

A CAUSA REAL NO DISTRITO DE AVEIRO

A CAUSA REAL NO DISTRITO DE AVEIRO
Autor: Nuno A. G. Bandeira

Tradutor

sábado, 4 de fevereiro de 2017

HOMILIA NA MISSA DE SUFRÁGIO POR EL-REI D. CARLOS E O PRÍNCIPE REAL

Foto de Real Associação de Lisboa.

Foto de Real Associação de Lisboa.

O OFÍCIO REAL E A DUPLA FILIAÇÃO DE CRISTO

(Homilia na missa de sufrágio por el-Rei D. Carlos e o Príncipe Real)

Igreja de São Vicente de Fora, 1-2-2017

1. Introdução. O texto do Evangelho agora proclamado recorda o regresso de Jesus a Nazaré, já depois de ter iniciado a sua vida pública. No dia de sábado, tendo ido à sinagoga, como era seu costume, começou a ensinar, causando o espanto dos seus conterrâneos: “Os Seus numerosos ouvintes admiravam-se e diziam: ‘Donde vêm a este todas estas coisas que diz? Que sabedoria é esta que Lhe foi dada? E como se operam tais maravilhas pelas Suas mãos? Não é este o carpinteiro, filho de Maria (…) ?’ Estavam perplexos a Seu respeito” (Mc 6, 2-4).

Nesta quarta-feira da quinta semana do tempo comum, a liturgia da palavra  recorda-nos este regresso de Jesus a Nazaré, onde se tinha criado, na santa companhia de sua Mãe, Maria, e de seu marido, José. A não referência, nesta ocasião, a este último, também ausente no relato das bodas de Caná (cf. Jo 2, 1-11), leva a crer que, com toda a probabilidade, era já falecido em ambas ocasiões. Embora se omita o nome de São José, a menção que se faz da profissão que Jesus exerceu naquela povoação da Galileia, antes de iniciar a sua vida pública, evoca de algum modo o santo patriarca, de quem o Filho de Deus terá aprendido esse ofício.

2. Cumprimentos. Se, de um ponto de vista litúrgico, hoje é, como já referi, a quarta féria da quarta semana do tempo comum, do ponto de vista histórico, hoje acontece mais um aniversário do atentado que, no ano de 1908, vitimou Sua Majestade El-Rei D. Carlos I e Sua Alteza Real, o Príncipe D. Luís Filipe. Esta solene celebração assinala esta triste efeméride da história de Portugal, unindo na mesma prece o sufrágio devido ao monarca e ao príncipe real, tombados pela pátria em tão trágicas circunstâncias. A esta respeitosa evocação de D. Carlos I e do Príncipe Real não podemos deixar de associar a memória da Rainha D. Amélia, bem como a de seu outro filho, el-Rei D. Manuel II que, por razão da criminosa morte de seu augusto pai e irmão primogénito, veio a ser, até à data, o último Rei de Portugal.

Extinto, na pessoa do Senhor D. Manuel II, o ramo primogénito da dinastia brigantina, não está contudo extinta a Família Real, hoje representada por Sua Alteza Real o Senhor Duque de Bragança. Como sucessor dos Reis de Portugal, compete ao Senhor D. Duarte mandar celebrar esta Missa de sufrágio, piedoso encargo que anualmente se repete e a que sempre se associam inúmeros patriotas portugueses, de todas as condições sociais e filiações políticas. É pois ao Senhor Dom Duarte, bem como a Sua Alteza Real a Senhora Dona Isabel, Duquesa de Bragança, que devem ser dirigidos os nossos pêsames pelas vítimas do regicídio, na renovada esperança de que as novas gerações da Família Real, também aqui representadas na pessoa do Senhor Dom Afonso, Príncipe da Beira, perpetuem as gloriosas tradições da Casa de Bragança, ao serviço de Deus e de Portugal.

Cumpre-me também saudar, com especial deferência, o Senhor Presidente da Causa Real, bem como todos os ilustres membros da respectiva direcção. Devo também uma palavra de especial reconhecimento ao Senhor Presidente da Real Associação de Lisboa que, seguindo a tradição dos seus predecessores no cargo, teve a bondade de requerer os meus préstimos para este honroso serviço à Família Real.

É também uma muito salutar tradição a significativa presença de cavaleiros e damas das ordens dinásticas de Santa Isabel e de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, bem como da Soberana Ordem Militar de Malta e da Ordem de Cavalaria do Santo Sepulcro de Jerusalém.

Também saúdo todos os demais fiéis que participam nesta celebração eucarística que, como renovação incruenta do sacrifício redentor de Cristo, não se pode confundir com nenhum acto de afirmação política, nem pode ser entendida como expressão de um qualquer culto nacionalista. A fé cristã é, pela sua própria natureza, transcendente e universal, ou seja, não impõe nenhuma particular solução política para os problemas sociais, nem é exclusiva de nenhuma nação, mas universal, ou seja, católica. E, como na sua universalidade abarca todos os seres humanos, é também em sufrágio dos regicidas que se eleva esta prece, que pretende reproduzir a oração que, do alto da Cruz, Nosso Senhor Jesus Cristo dirigiu ao Pai do Céu pelos seus verdugos (cf. Lc 23, 34). Só perdoando os nossos inimigos, podemos ser também nós perdoados das nossas faltas e sê-lo-emos nessa mesma medida, como aliás expressamente dizemos cada vez que rezamos a oração que o Senhor nos ensinou: “perdoai-nos as nossas ofensas, assim como também nós perdoamos a quem nos tem ofendido” (cf. Lc 11, 4; etc.).  

3. A dupla filiação de Jesus Cristo. Quando Jesus foi convidado a ler e comentar a Sagrada Escritura, na sinagoga de Nazaré, os muitos ouvintes ficaram espantados com a sua sabedoria (cf. Mc 6, 2). Não sei se não seria mais lógico ficarmos nós espantados com o espanto deles, porque sendo eles conterrâneos de Nosso Senhor, estavam obrigados a conhecê-Lo bem, muito embora ainda não se tivesse manifestado a sua divindade.

Também é certo que, com doze anos apenas, tendo Jesus ido com seus pais, Maria e José, a Jerusalém (cf. Lc 2, 41-51), já nessa ocasião deixou surpreendidos os doutores do templo (cf. Lc 2, 47), porque as suas falas não eram certamente as que seriam de esperar do filho do carpinteiro de Nazaré… A admiração, aliás, não foi só dos sacerdotes e escribas, mas também de Maria e José que, depois de três dias à sua procura, finalmente O encontraram no templo de Jerusalém. Interrogado o filho adolescente sobre aquela sua misteriosa fuga, que foi motivo de tão grande aflição para seus pais, a resposta de Jesus foi ainda mais intrigante: “- Porque Me procuráveis?! Não sabíeis que devo-Me ocupar nas coisas de Meu Pai?” (Lc 2, 49). São Lucas, o único evangelista que refere este episódio, o único também da adolescência do divino Mestre que chegou até nós, esclarece que Maria e José não compreenderam o que então Jesus lhes disse, mas que com Ele voltaram para Nazaré, onde Jesus lhes era submisso (cf. Lc 2, 50-51).

Estas palavras de Cristo a Nossa Senhora são também as primeiras, por Ele proferidas directamente, de que há memória. É muito significativo que as mesmas sejam uma explícita e bastante surpreendente afirmação da sua filiação divina. Explícita porque, sem qualquer tipo de ambiguidades, Cristo refere-se a Deus como seu Pai, não como seu Pai dos céus, ou seu outro Pai, mas como seu único Pai (cf. Lc 2, 49). Daí o escândalo, porque Maria tinha acabado de se referir a seu marido, José, como sendo pai de Jesus: “Filho, porque procedeste assim connosco? Eis que Teu pai e eu Te procurávamos cheios de aflição!” (Lc 2, 48). Não terá sido fácil para José, nem para Maria, ouvir aquelas palavras de Jesus, muito embora para nenhum dos dois fosse novidade a filiação divina daquele que era também tido como seu filho e que o era, de facto, de Maria. 

4. O ofício do filho de Deus. Se é verdade que Jesus é, como afirma a fé cristã, o filho unigénito de Deus, o próprio Deus encarnado, também é verdadeira e real a sua natureza humana, recebida de sua mãe, Maria. Por via do seu casamento, José, que era da casa e família do Rei David (cf. Lc 2, 4; Mt 1, 20, etc.) é, em termos legais, o pai de Jesus, muito embora não tenha tido parte no mistério da sua geração.

Alguns exegetas fundamentam esta paternidade de José do seguinte modo: do mesmo modo como o dono de um campo é também dono dos frutos das árvores que nele houver, assim o marido é também dono do fruto da mulher que lhe pertence por matrimónio: se Jesus é o fruto do ventre de Maria e Maria é, pelo seu casamento, de José, então Jesus é também de José.

Se Nossa Senhora, que, melhor do que ninguém, conhecia como tinha concebido virginalmente o Filho de Deus, dá a Jesus, no episódio do menino perdido e achado no templo (cf. Lc 2, 41-51), o tratamento de filho de José, não será descabido que a Igreja também reconheça a José essa especial paternidade em relação a Jesus de Nazaré.

Por via desta filiação que, mesmo não tendo fundamento genético, é verdadeira e legal, não só Jesus era filho de José, como também membro da família e casa de David. É nele que se cumpre a profecia feita ao segundo rei de Israel, de que um seu descendente se sentaria para sempre no seu trono, isto é, o Messias seria, segundo a sua linhagem humana, descendente do Rei David. É provável que, embora por via paterna Jesus não pudesse descender desse monarca, fosse efectivamente seu descendente por via materna, na muito plausível suposição de que seus pais fossem remotamente aparentados pela sua comum ascendência davídica.

Sem querer entrar em intrincadas argumentações genealógicas, acrescente-se que, sendo o Rei David do ano mil antes de Cristo, aproximadamente, a grande maioria, se não mesmo a totalidade, dos judeus existentes ao tempo de Jesus, seria muito provavelmente descendente de David. De modo análogo, um físico português provou, matematicamente, que todos os portugueses actuais são, se de origem também lusa, descendentes de D. Afonso Henriques, bem como de todos os seus contemporâneos que tiveram geração.

A filiação de Jesus, em relação a José, relaciona-se com a sua filiação divina na exacta medida das palavras por Ele proferidas no templo, quando afirma que, como Filho que é do Pai, deve-se ocupar das coisas de Deus (cf. Lc 2, 49). Como seu Filho, Cristo, no templo que é a casa de seu Pai, estuda e questiona tudo o que respeita à Lei e aos profetas; mas, como filho ‘legal’ do marido de Maria, Jesus também se ocupa, na oficina de José, “nas coisas de seu pai”, primeiro como seu aprendiz e, depois da morte de José e até ao início da sua vida pública, como artesão e mestre da oficina que herdou do esposo de Maria. Com efeito, o Evangelho não só atribui a José essa profissão como também reconhece a Cristo esse mesmo ofício (cf. Mc 6, 3), pelo qual seria conhecido e estimado em Nazaré.

Com que alegria São José iniciaria Jesus nos segredos da sua arte! Com que santo orgulho o filho de Maria se identificaria como sendo da mesma profissão de seu pai terreno, primeiro como seu aprendiz e, depois, como mestre do mesmo ofício! Todos nós, quando tomámos consciência de que algum dia teríamos que exercer também uma profissão, teremos pensado primeiro na dos nossos pais, porque certamente foram os nossos primeiros modelos. Depois, se calhar a vida levou-nos por outros caminhos profissionais, mas nas famílias reais, como a de Jesus de Nazaré, que era da casa e família de David, o Filho não só pode como deve, efectivamente, ocupar-se das coisas de seu pai.

A monarquia, mais do que um desempenho individual, é uma empresa familiar, em que o ofício se aprende e transmite de pais para filhos: assim el-Rei D. Carlos recebeu por herança de seu augusto Pai a coroa portuguesa, do mesmo modo como seu filho, o Príncipe Real, se preparava para um dia lhe suceder no trono lusitano.

5. A aprendizagem do ofício de chefe de Estado. Um chefe de Estado não se improvisa; as qualidades próprias da mais alta magistratura da nação também não se adquirem por via do sufrágio universal. Mesmo que possa ser legítimo o mandato conferido pelo voto popular, nem sempre é certeiro quanto ao titular do cargo que, por ser representativo de toda a nação, requer também qualidades específicas.

Talvez por isso, embora esteja fora de questão a muita valia intelectual do actual chefe de Estado, bem como a do seu imediato antecessor, são por demais evidentes as carências de ambos: o anterior, pelo seu excesso de gravidade; e o actual, pelo seu excesso de afectos. Ambos são, sem dúvida, de grande valia pessoal e intelectual, como as suas brilhantes carreiras universitárias o atestam, mas revelam uma certa incapacidade de conjugar a alteza da missão institucional que lhes foi confiada com aquela prudente proximidade que, neles, parece postiça, mas resulta tão natural quando referida a um monarca.

Não é de estranhar que os presidentes, mesmo os mais queridos pela população, nunca chegam a ser respeitados e queridos como os reis: enquanto aqueles são sempre vistos como funcionários temporários, os soberanos são como que os pais da grande família nacional. Enquanto os chefes de Estado eleitos são, por definição, homens de partido; os reis, precisamente porque se situam para além de qualquer divergência ideológica ou política, são a expressão viva da unidade nacional. Enquanto o presidente, seja ele quem for, é apenas representativo da maioria, por vezes escassa, que o elegeu, o monarca identifica-se com toda a nação, porque encarna a sua história. Enquanto o presidente é sempre uma solução a prazo, muitas vezes em contra-ciclo com o seu antecessor ou sucessor, o monarca é sempre um porta-voz da mesma tradição, por ele recebida quando incumbido da sua augusta missão e por ele transmitida, segundo uma lógica de harmoniosa continuidade e pacífica evolução.  

6. Conclusão. Na sinagoga de Nazaré, os numerosos ouvintes de Jesus, Filho de Deus e de Maria, “admiravam-se e diziam: ‘Donde vêm a este todas estas coisas que diz? Que sabedoria é esta que Lhe foi dada? E como se operam tais maravilhas pelas Suas mãos?” (Mc 6, 2).

Era grande a admiração dos nazarenos, por ser Jesus “carpinteiro, filho de Maria, irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão” (Mc 6, 3). Não lhes espantava a sua profissão, porque o supunham filho de outro artesão, José, de quem aprendera a mesma arte e ofício.

Nesta missa de sufrágio e de acção de graças pela vida de el-Rei D. Carlos I e do Príncipe Real, Dom Luís Filipe, agradeçamos também o serviço que prestaram a Deus e a Portugal, bem como o generosamente realizado por todos os seus augustos antecessores no mesmo ofício, se assim se pode chamar o trono real. Peçamos ainda ao «Senhor dos senhores e Rei dos reis» (Ap 17, 14) que fortaleça com as mesmas virtudes cristãs os que agora representam uma tão nobre e patriótica tradição, para que a nossa Família Real seja, em todo o momento e ocasião, insigne expressão dos valores que, desde há oito séculos, fazem grande Portugal!

P. Gonçalo Portocarrero de Almada 






( Créditos fotográficos : Nuno De Albuquerque Gaspar )

2 comentários:

  1. Este comentario biblico esta fora contexto biblico, de fe em Deus e " fazer como Cristo disse para fazer", so por interesse saudosismo e/ou politico. Cristo nao e O D.Carlos e seu filho. Os ensinamentos do mwnimo Jesus nada tem haver com esta saudade por uma monarquia arrugante, riquíssima que ao longo da historia a caridade era feira para agradar os egos, da classe dominante. Podem pedir celebracoes de missas mas, nao vos dara mais paz nem guerras. Deus nao se confunde com a monarquia ou uma República. E falso, é enganar o vosso espirito.

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  2. Deus não se confunde com Monarquias nem Repúblicas, uma coisa é certa Deus disse não matarás, e além disso os Monárquicos tem o direito de mandar celebrar uma Missa por um Rei, tal como os Republicanos por um Presidente e não quer dizer que Deus se confunda com eles tal como não se confunde quando mando celebrar missas pelos meus pais, Deus é Pai e Pai de bondade só Ele nos pode perdoar e dar forças para suportar a dor daqueles que amamos e admiramos...

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