A CAUSA REAL NO DISTRITO DE AVEIRO

A CAUSA REAL NO DISTRITO DE AVEIRO
Autor: Nuno A. G. Bandeira

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quarta-feira, 5 de julho de 2017

UM 10 DE JUNHO DIFERENTE

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Olivença está bem arranjada, nota-se ainda perfeitamente a sua traça portuguesa e o centro, monumentos e fortalezas, são portuguesas, fora de qualquer dúvida. Merece uma visita.

Não, não foi por o Presidente da República e sua comitiva terem debandado para as atribuladas terras de Santa Cruz e nem ter sido recebido pelo Presidente Brasileiro – que não tinha que o receber, a não ser por cortesia, já que o PR não ia em visita oficial e, além do mais, ia com o fito de comemorar o dia da sua terra em terra alheia [1] ; não, não foi por se ter finalmente uma comemoração popular em cada cidade e vila, como por décadas e, até séculos, se festejava o dia da Restauração, no 1º de Dezembro; também não foi diferente por, finalmente, a Comunicação Social se dignar ceder duas linhas ou imagens de atenção que fosse, ao que se comemora na “Homenagem Nacional aos Combatentes”, junto ao Forte do Bom Sucesso, no Restelo, cujo programa é único e tem razões específicas para ocorrer.
Não, o 10 de Junho (para quem não sabe é o Dia de Portugal…) foi diferente porque foi comemorado na portuguesíssima terra de Olivença. Em boa verdade já no ano passado tal facto tinha ocorrido mas, enfim, só este ano tivemos o gosto de participar.
A grande importância da comemoração tem a ver com o facto de Olivença e seu termo (cerca de 430 Km2), estar ocupada ilegalmente pela Espanha desde 1807, e o Estado Português (que representa a Nação politicamente organizada) não ter até hoje conseguido a sua retrocessão. Estado Português que não tem um único crédito a seu favor no evento que ora expomos.
De facto, o mesmo foi organizado pela Associação Além-Guadiana, fundada em 2008, por oliventinos que sentiram em si o sentimento da Portugalidade, e que já lograram concretizar um conjunto de iniciativas louváveis. Deste modo passou a haver quatro tipos de alentejanos: os do Alto Alentejo; os do Baixo Alentejo; os da margem esquerda (do Guadiana); e, agora, os do termo de Olivença.
Para este evento concreto, associou-se o conhecido ex-deputado e dirigente do CDS-PP, Dr. Ribeiro e Castro, que se interessou por toda esta tentativa quando liderou a Comissão Parlamentar dos Negócios Estrangeiros e recebeu, por várias vezes, delegações dos “Amigos de Olivença” – patriótica instituição da “sociedade civil” que, sem qualquer apoio do Estado, tem desenvolvido ininterruptamente desde a sua criação, em 15 de Agosto de 1938,uma luta tenaz e persistente pela causa de Olivença portuguesa – na sequência de uma petição por eles promovida.
As autoridades espanholas têm condescendido com estas iniciativas, pensamos nós, para aliviar tensões; por terem problemas mais graves noutras regiões; darem uma de “progressistas” e multiculturais e, sobretudo, por nada ter ainda tocado o âmbito da soberania.
Em Olivença não há tensões sociais pelo facto da ilegalidade se manter, pois o território foi sendo sucessivamente colonizado, algumas vezes com actos violentos, e a população original ter, praticamente desaparecido.
O Estado Espanhol também não se esquece de manter o nível de vida – enfim com a excepção compreensível da última guerra civil – num estádio superior ao lado de cá da fronteira. Fronteira que não está oficialmente delimitada entre o Rio Caia e o Rio Cucos, faltando os marcos nº 801 a 900. [2] E, de facto, ao atravessar a fronteira na nova Ponte da Ajuda – um local magnífico do Guadiana – e depois em S. Leonardo, nota-se uma diferença na qualidade das estradas e respectiva sinalética; na limpeza e no aproveitamento dos campos. [3]
Olivença está bem arranjada, nota-se ainda perfeitamente a sua traça portuguesa e o centro, monumentos e fortalezas, são portuguesas, fora de qualquer dúvida. Merece uma visita.
As cerimónias ocuparam praticamente todo o dia, tendo começado um pouco tarde por causa da diferença horária e porque se teve que esperar pela pequena excursão ida de Lisboa. O “Alcalde “da vila aguentou firme todos os eventos, estando ainda presente na maioria deles, o presidente da Região da Estremadura, também ele, filho da terra. O “Mestre-de-Cerimónias” falou bilingue (num português perfeito) e os oradores falaram nas suas línguas de origem. A Guardia Civil manteve uma presença discreta, apenas com duas viaturas e cinco guardas.
A cerimónia principal decorreu no Convento de S. João de Deus – um Santo Português – que está incluído num dos nove baluartes erguidos após a Restauração de 1640, para melhor defesa desta praça – forte, uma das mais avançadas e expostas de toda a fronteira terrestre.
As intervenções dos oradores – administrador executivo da Fundação Portugal-África; presidente da Conexão Lusófona; coordenador do Movimento 2014 – 800 Anos da Língua Portuguesa; directora do Gabinete de Iniciativas Transfronteiriças da Junta da Extremadura – foram equilibradas, embora todas elas a puxar para a descrição das actividades de que são responsáveis, do que sobre o objectivo das cerimónias em si. E todas voltadas para a cooperação e cultura. Discursos equilibrados também dos responsáveis políticos presentes, todos na mesma toada. Uma curiosa e bem apanhada reportagem sobre os resquícios da cultura portuguesa em Malaca (onde só estivemos 130 anos!), também marcaram presença. Ainda houve tempo para um pequeno teatro sobre o Rei D. Dinis e a Rainha Santa Isabel e a oficialização da geminação dos municípios de Leiria e de Olivença, a cargo dos respectivos edis, apenas com um pequeno deslize numa frase do Leiriense.
O ponto alto (opinião nossa) teve lugar com a actuação do Coro “Alma de Coimbra, que encantou a audiência com cerca de 70’de um óptimo espectáculo, que nos deixa orgulhosos em qualquer parte do mundo e nos dá esperança de que nem tudo está perdido. Só faltou que a última performance fosse o Hino Nacional Português e um “viva Portugal”, que seria a chave de ouro e o dia merecia. Pelo meio houve almoço de tapas à espanhola para convidados e cada um à sua, para os restantes.
O final foi o mais importante e já ocorreu na pérola monumental representada pela Igreja da Madalena – uma joia do mais puro manuelino que, significativamente ganhou um concurso, há poucos anos, que elegeu o “melhor recanto de Espanha” – antecedido de uma visita guiada à mesma. Ouviu-se a Santa Missa em português, facto que já não ocorria desde que tal prática tinha sido proibida pelas autoridades espanholas desde os anos 40 do século XIX! Oficiou-a o Padre Ricardo Cardoso, acompanhado pelo seu congénere e “dono da casa”, o qual teve especial habilidade e desenvoltura para o papel que lhe coube fazer. Bem – haja.
A única coisa a lamentar – embora não surpreenda – foi o escasso envolvimento da população local, nas cerimónias. Na sessão solene estavam umas 150 pessoas; na missa só umas 50, sendo que a maioria tinha ido de Portugal. Por isso para o ano temos de levar a Olivença, no dia 10 de Junho, não menos de 10.000 pessoas com bandas e fanfarras. Isto mudaria tudo…
Lá esperaremos o Senhor Presidente da República (embora não acredite que, nessa altura, lá esteja alguém da Família Real Espanhola) o qual, estamos certos, abdicará de ir visitar a comunidade emigrante lusa na Nova Zelândia, em prol de tão benemérito como patriótico acto. E nem precisa de autorização da Assembleia da República para se ausentar do território nacional, para o fazer…[4]
Então até para o ano.
Oficial Piloto Aviador
[1] Se a moda pega ao contrário, vamos ter por cá chusmas de dignatários de outros países, por cada comunidade de emigrantes que por cá labutam ou repousam!…
[2] A fronteira Luso-Espanhola tem 1292 Km de extensão, e é delimitada por 5228 marcos, separados de 250 metros.
[3] Onde convinha manter os caminhos limpos; preservar a capela da Nossa Senhora da Ajuda e, no mínimo, colocar uns painéis explicativos sobre a ponte centenária ora em ruinas!
[4] Artigo 129º da CR. Embora nunca até hoje tenha vindo a público qualquer prova de que tal é feito… (nº3 “A inobservância do disposto no número 1 envolve, de pleno direito, a perda do cargo”)
Fonte: Observador

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