25º ANIVERSÁRIO DA REAL ASSOCIAÇÃO DE VISEU

25º ANIVERSÁRIO DA REAL ASSOCIAÇÃO DE VISEU

A CAUSA REAL NO DISTRITO DE AVEIRO

A CAUSA REAL NO DISTRITO DE AVEIRO
Autor: Nuno A. G. Bandeira

Tradutor

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

DOM MANUEL I OU A IDADE DE OURO DE PORTUGAL

Foto de Nova Portugalidade.

A 31 de Maio de 1469 nascia em Alcochete aquele que, contra todas as probabilidades, iria ser o décimo quarto Rei de Portugal. Filho do Infante D. Fernando e de D. Beatriz, D. Manuel era o último descendente de um ramo secundário da Família Real portuguesa, sendo que por isso estava no final da lista de sucessores ao trono. A roda da fortuna, contudo, haveria de fazer do último o primeiro. Após as mortes prematuras de quase todos os irmãos mais velhos de D. Manuel, sobrava apenas D. Diogo, Duque de Viseu, que acabou vítima da política violenta e autoritária de D. João II para com a nobreza portuguesa. Em 1484, o “Príncipe Perfeito” apunhalava o primo com as próprias mãos, sob o pretexto de este ter conspirado para o derrubar do trono.

Foi assim que D. Manuel herdou o património do irmão assassinado e recebeu o título de Duque de Beja, tornando-se na terceira figura mais importante do Reino. Com a morte do Príncipe D. Afonso em 1491, era o sucessor natural e legítimo à Coroa Portuguesa.

Em 1495, D. Manuel foi aclamado Rei, e começou de imediato a trabalhar num amplo conjunto de reformas ambiciosas que visavam uma transformação significativa do Reino. A imagem tradicional de D. Manuel, de um Rei passivo que nada fez a não ser receber a herança dourada construída pelos seus antecessores, enquanto apenas se preocupava com a acção dos Portugueses na Índia, não poderia ser mais distanciada da realidade. D. Manuel colocou grande parte dos seus esforços num programa de governo empreendedor e surpreendentemente dinâmico, que demonstra uma personalidade activa e determinada. A reforma dos forais, um projecto vastíssimo que durou quase todo o seu reinado, substituiu os obsoletos forais medievais, adaptando-os à realidade do seu tempo, ao mesmo tempo que lhes dava uma nova tonalidade, ao introduzir-lhes vários critérios gerais aplicados em todas as povoações, independentemente dos seus particularismos locais. Para além dos forais, numerosas outras reformas legislativas se podem dar como exemplo: o novo “Regimento da Casa da Moeda”; a “Leitura Nova”, que tratou de reorganizar e cuidar dos documentos da Torre de Tombo; o “Regimento dos oficiais da cidade”, complemento de medidas administrativas dos forais; ou ainda as “Ordenações Manuelinas”, onde se uniformizavam as normas de gestão do poder local. Todas estas reformas apontam para um caminho comum: estruturar eficazmente um Estado cada vez mais centralizado na pessoa do Rei.

A par de uma completa reorganização interna, o reinado de D. Manuel corresponde ao apogeu da Expansão Portuguesa, com a descoberta do caminho marítimo para a Índia em 1498 e do Brasil em 1500. Uma vez oficializadas as relações comerciais, foi formalmente constituído o Estado Português da Índia, com a conquista de Goa, Malaca e Ormuz. Os Portugueses, com uma tecnologia e artilharia navais superiores a todas as outras existentes na altura, conseguiram dominar o sistema de comércio do Índico. Ao mesmo tempo, eram virtualmente senhores indiscutíveis do Atlântico a sul do Bojador, com copiosas fortalezas espalhadas pelas costas ocidental e oriental de África. Da Mina, na costa ocidental africana, afluíam largas quantidades de ouro a Portugal, assentando aí a prosperidade das finanças régias deste período, e da Índia começaram a chegar a Lisboa a pimenta e a canela que eram revendidas para toda a Europa, com lucros chorudos. Bafejado com uma grande abastança, senhor indisputado dos mares e dono de um Império global que tinha o monopólio das especiarias e que se estendia por áreas de grande magnitude, Portugal adquiriu um imenso prestígio por toda a Europa.

Visto ter casado com a primogénita dos Reis Católicos, D. Manuel chegou a ser jurado herdeiro de Castela em 1498, e, apesar de não o ter sido devido à morte da esposa, conseguiu casar a sua filha Isabel com aquele que então era o soberano mais poderoso da Europa, Carlos V. Embora a acção portuguesa no Índico tivesse importância para a estratégia manuelina, o Rei sempre dispensou grande atenção à conjuntura hispânica e europeia. Aliás, a acção portuguesa no Oriente gizada por D. Manuel I enquadrava-se no espaço mediterrânico, já que sempre teve em vista o enfraquecimento do Reino Mameluco, que tinha na sua posse Jerusalém. O Rei português aspirava a que os Príncipes cristãos se unissem numa grande Cruzada que tomasse de novo a Terra Santa. Este, e não o Estado Português da Índia, foi o grande sonho imperial manuelino.

O reinado de D. Manuel I foi, numa perspectiva diacrónica, o período com as circunstâncias mais favoráveis e de maior poder, riqueza e prestígio de Portugal em toda a sua História. Este Rei afortunado trouxe o destino que lhe sorria para os desígnios do país: ao longo destes vinte e seis anos dourados, o Reino adquiriu o controlo militar de uma área marítima colossal e de um sistema de comércio bastante lucrativo, com entrepostos na exótica e mítica Índia; os Portugueses tinham ido mais longe que Gregos e Romanos. D. Manuel podia-se dar ao luxo de enviar uma opulenta embaixada ao Papa em 1514 que levava na sua comitiva um elefante que maravilhou toda a Europa, de organizar em Lisboa um aparatoso torneio entre um rinoceronte e um elefante, ou ainda de fomentar a construção de inúmeros monumentos que espelhavam a glória do tempo que se vivia, como o Mosteiro dos Jerónimos e a Torre de Belém. O nome de Portugal projectava-se com um brilhante esplendor para todas as partes do Mundo, quer em África, quer na Índia, quer na Europa, como nunca antes tinha acontecido e como nunca mais se voltaria a repetir no mesmo grau.

Miguel Martins



Foto de Nova Portugalidade.
O Cristianíssimo Emanuel, Rei do Portugal Vitorioso

Pormenor de uma gravura do atlas do espanhol Miguel Serveto, de 1535. A inscrição, em latim, pode traduzir-se por "o Cristianíssimo Emanuel [Dom Manuel I], Rei do Portugal Vitorioso".

Sem comentários:

Enviar um comentário