25º ANIVERSÁRIO DA REAL ASSOCIAÇÃO DE VISEU

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A CAUSA REAL NO DISTRITO DE AVEIRO

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Autor: Nuno A. G. Bandeira

Tradutor

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

O CANTE ALENTEJANO

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A 27 de Novembro de 2014 o Cante Alentejano foi reconhecido pela UNESCO como Património Imaterial da Humanidade, graças ao esforço, à dedicação, ao estudo e ao trabalho a que muitos se dedicaram para elevar a tal categoria esta forma de cantar.

O Cante Alentejano, com influências claras do canto árabe e gregoriano, constitui uma forma de cantar única no mundo, resultado da reprodução de um povo tendo em conta as suas crenças e necessidades, que foi adaptando as cantigas populares com séculos à necessidade quotidiana de cantar. O cante nasceu na dureza dos trabalhos da agricultura, bem como em todos os trabalhos do dia a dia do Alentejo. O cante é, por isso, um conjunto de modas e de letras que, reunidas, constituem o mais vasto cancioneiro nacional. "A publicação do "Cancioneiro Alentejano" não esgotou o vasto e precioso manancial de modas alentejanas, agrupou somente o que se conhecia de melhor, mais antigo, mais bem cantado, e mais belo.

Assim, facilmente podemos constatar que se canta mais à laranja do que se canta a qualquer outra fruta; ao nome Maria do que a qualquer outro; mais à rosa do que a qualquer outra flor. Mas também se canta ao limão, ao António, ao trevo, à silva e ao pavão. No entanto, quer a fruta, quer a flor, quer a terra ou a ave servem de pretexto para falar do amor e da saudade.


Apesar das crises cíclicas de trabalho, em que o trabalhador rural e a família passavam muito mal, nenhuma das modas é um grito de revolta. O cante alentejano não foi feito para contestação, para falar de situações difíceis ou injustas. Não servia a política, os regimes ou as autoridades. Servia, isso sim, o trabalho, o descanso, a alegria e a tristeza, a vida e a morte; em suma, a simplicidade da existência. A planície alentejana era uma catedral imensa e solitária, tendo como abóbada o céu azul, onde ecoavam os seus cantares dolentes e melodiosos. Quem foram os poetas e os músicos desta epopeia maravilhosa? Foram todos, para todos. Forjava-se e aprendia-se no trabalho e no descanso, na rua ou na taberna."

Só se ouve verdadeiramente o cante penetrando no universo alentejano, dos campos largos e planos, dos calores do dia, e do frio das noites, dos serões à lareira grande, sempre acesa no inverno, dos almoços pela tarde fora, do pão duro e das açordas, das migas e das carnes de porco, do campo de pastoreio, da ceifa e da monda, e da trilogia alimentar dos três elementos sagrados na dieta: o pão, o vinho, e o azeite.

Assim, com as mais profundas reminiscências dos povos que habitaram as planícies do Além-Tejo em séculos volvidos, permanece, apesar de já não usado no trabalho, esta forma de expressão tão natural e tão portuguesa, como é o cante.

Um enorme bem-haja a quem o pratica, e a quem luta para que esta forma tão genuína continue a ser ouvida. E que continue a boa vontade de quem canta e de quem trabalha para que permaneçam os festivais, os eventos, e os grupos dos ranchos do cantar alentejano, para que haja manutenção deste património vivo e único.


*1 - MARVÃO, António. Sobre o "Cancioneiro Alentejano", Estudos sobre o Cante Alentejano. Instituto Nacional para aproveitamento dos tempos livres dos trabalhadores, Beja, 1997.

Tomás Severino Bravo


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