25º ANIVERSÁRIO DA REAL ASSOCIAÇÃO DE VISEU

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A CAUSA REAL NO DISTRITO DE AVEIRO

A CAUSA REAL NO DISTRITO DE AVEIRO
Autor: Nuno A. G. Bandeira

Tradutor

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

O PRÍNCIPE NEGRO DO BRASIL

Foto de Nova Portugalidade.

Nascido na Bahia em 1845, Cândido da Fonseca Galvão foi um brasileiro negro de primeira geração. Era, ademais, neto do poderoso oba (rei) Alaafin Abiodun dos Oyo, poderoso povo que vivia, e vive ainda, no que é actualmente a Nigéria. A sociedade brasileira conheceu-o como Dom Obá II de África.

Forçado em 1865 o Brasil à guerra contra Solano Lopéz e seu Paraguai, Fonseca Galvão alistou-se no Exército Imperial e serviu com os zuavos. Distinguiu-se muito pela coragem e outras virtudes guerreiras, o que lhe valeria a promoção a oficial do Exército e atribuição de uma pensão. Mudou-se em 1880 para o Rio de Janeiro, que era então capital do país. Para a elite social e económica, este estranho aristocrata - nascera pobre apesar da ascendência nobre; lutara pela promoção e o respeito alheio nos campos de morte do Paraguai, e conseguira-a; trajava bizarramente, fazia-se tratar como aristocrata e desenvolvia activismo político - era tido como uma "aberração folclórica". Não o considerava o Imperador Pedro II do Brasil, filho de Pedro I & IV e neto de Dom João VI, que por Dom Obá construiu genuína afeição. Os dois tornaram-se amigos, escreviam-se e ouviam-se sobre temas de importância. O Imperador passou a receber regularmente Fonseca Galvão no Palácio de São Cristóvão, sede da monarquia, onde lhe dispensava honras e tratamento de soberano estrangeiro. Entre 1882 e 1884, os dois homens encontraram-se pessoalmente 125 vezes, quase sempre para a discussão do assunto que mais animava Dom Obá: a abolição da escravatura e a concessão de plena igualdade de direitos aos negros brasileiros. Dom Pedro, que nutria por ambas as causas reconhecida simpatia, teve em Galvão apoiante e conselheiro.

A sua figura extraordinária - era indivíduo de dois metros de altura e vestia-se, como acima de comentava, de modo irremediavelmente extravagante - concitou abundante cochicho e, dada a proximidade ao Imperador, inevitável inveja. O "príncipe" usou o prestígio que obteve para fazer avançar o seu projecto de abolição da escravatura, fazendo-se muito intensa a sua actividade como colunista e propagandista. Ela, combinada com a fama aristocrática e a amizade do Imperador, valeu-lhe a estima e a devoção de número imenso de brasileiros africanos, que passaram a segui-lo como seu chefe e defensor. Sobre a discriminação, de que era convencido adversário, disse o príncipe que era absurda, pois é "cada qual como Deus o fez". Esta era, num século XIX tão inundado por teses de supostas superioridades raciais, posição rara no Ocidente e até, crescentemente, entre a elite brasileira. A avançada cabeça de Dom Obá denunciou-o pela palavra dita e pela pena. "Um país tão novo onde completamente não reina a severa civilização colimada, porque ainda há quem apure a tolice (...) do preconceito de cor", reza um dos seus poemas.

Com o apeamento da monarquia e o exílio de Dom Pedro II, Dom Obá viria a sofrer fortemente pelas suas posições pró-monárquicas e pró-abolicionistas. As novas autoridades republicanas retiraram-lhe as honras militares e o posto de alferes. Logo depois, em 1890, o notável homem morreu. Se naturalmente ou de desgosto pela injúria recebida, não se sabe. Claro é que foi grande a tristeza com o seu passamento, falando a imprensa de então na sua "enorme tribo de seguidores" e na "imensa popularidade" do Príncipe.

Embora tenha sido tão infeliz o fim de Dom Obá de África, o seu exemplo é eloquente por demonstrar, como inegavelmente demonstra, o fosso imenso de civilização, sensibilidade e formação que separa o Brasil - então já independente, mas de raiz e esqueleto inexoravelmente portugueses - com esses Estados Unidos em que ainda há umas décadas havia KKK e apartheid.

RPB

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