25º ANIVERSÁRIO DA REAL ASSOCIAÇÃO DE VISEU

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A CAUSA REAL NO DISTRITO DE AVEIRO

A CAUSA REAL NO DISTRITO DE AVEIRO
Autor: Nuno A. G. Bandeira

Tradutor

domingo, 14 de janeiro de 2018

AS CHAROLAS DO SOTAVENTO ALGARVIO

Foto de Nova Portugalidade.

Desde os tempos mais antigos que louvar o Natal pela graça do nascimento de Cristo, bem como saudar o ano novo que acaba de começar foi motivo de cantorias e autos. Por isso, Portugal tem uma forte tradição do canto das janeiras, de norte a sul, e nas ilhas, mas com particulares diferenças do que no Algarve em relação ao resto do país, visto que aí as charolas possuem um carácter e uma identidade que as torna especiais.

As charolas algarvias descendem da tradição medieval de se dançar em roda e cantar cânticos de alegria quando se comemoravam épocas festivas, como a Páscoa, o Pentecostes, o primeiro de Maio, as vigílias, as bodas de casamento ou as festas dos padroeiros das aldeias. No Algarve, só se conservou no Natal, e adulterada. É desta charola medieval - de que há registos, pinturas e iluminuras, não só na península Ibérica, como em toda a Europa cristã - que a charola algarvia descende. A dança só se conservou viva nos bailes de roda e no "balho mandado". Existe uma série de pequenas características que distinguem e fazem sobressair a charola, das joldras do Barlavento, dos grupos janeireiros, ou dos cantares dos reis. É de referir e de destacar o trabalho cuidadoso de quem conseguiu reorganizar esta matéria, de quem conseguiu provar através de buscas em documentação desde o tempo dos primeiros cristãos, entrelaçando as tradições que são hoje vividas com as crenças, o quotidiano e as necessidades dos povos que cá habitaram.

O Pe. José Cunha Duarte, na sua obra "Natal no Algarve - Raízes Medievais" (2002), faz um estudo, aprofundado, sobre o Natal algarvio, falando não só das origens do Natal, mas da origem dos presépios algarvios, com as cearas e as laranjas, das tradições gastronómicas, e em especial, do canto das Charolas e das Joldras. Como qualquer trabalho honesto que se possa fazer, a investigação do padre Cunha Duarte, para além da pesquisa bibliográfica exaustiva, foi também virada para uma série de entrevistas (que ele próprio fez) aos vários grupos charoleiros e a pessoas residentes de muitas zonas serranas e outras zonas isoladas, perpetuando assim muita informação etnográfica que poderia morrer, simplesmente, caindo no esquecimento.

As charolas marcam a sua diferença porque não só saúdam o "ano bom" e desejam prosperidade e felicidade, mas têm a sua vertente de piedade popular, porque cantam ao menino e aos reis. As temáticas das letras que são cantadas pelos charoleiros são poemas narrativos que contam os episódios da quadra, podendo abordar, desde a anunciação do anjo, à chegada a Belém e a adoração dos pastores e dos reis do oriente. O repertório do grupo, é construído, na maioria dos casos, por uma marcha de entrada, o Canto Velho, o “Pasodoble”, o Canto Novo, uma (ou mais) valsas, e a marcha de saída. O canto velho é o canto popular dos outros anos, que se repete sempre. O canto novo é o orgulho dos charoleiros, e é composton especialmente para aquele ano. Tanto o canto novo como o velho são iniciados por um "principiador", que levanta os primeiros versos, sendo depois o resto cantado por todos os elementos do grupo. A euforia das charolas conduziu estes grupos a uma proliferação de instrumentos, transformando-os em grandes grupos musicais, com uma ou duas dezenas de instrumentos: acordeões, violas, violinos, guitarras, banjos, bandolins, saxofones, trompas, clarinetes, e outros instrumentos de sopro. Ao conjunto de instrumentos que marcam ritmo e ornamentam estilo, é chamada "pancadaria". São as castanholas e pandeiretas, enfeitadas com fitas de muitas cores, que proporcionam belas coreografias e são reminiscências das danças e das representações que se faziam por esta altura festiva. Estes grupos atuam por diferentes zonas da freguesia, pelas ruas, no adro depois da missa, nos lares de idosos e nos cafés, nos mercados, e por todo o lado onde o povo aplaude e não deixa esquecer uma tradição que só pode ser valorizada.

A propósito dos grupos charoleiros, o farense Mário Lyster Franco, grande historiógrafo, etnógrafo e antropólogo algarvio, escreve em 1961: "Vão os grupos de monte em monte, às vezes por alguns quilómetros em redor cantando de sítio em sítio e principalmente em frente às casas que já sabem ou presumem que recebem bem e em que se sabe que está o Menino armado em seu trono no qual os motivos decorativos são principalmente as clássicas flores de papel, as laranjas bem amaduradas e as bem formadas cabeleiras e em que a própria imagem Divina em figurações diferentes se repete, desde o pequeno presépio no primeiro plano, à altura dos olhos, e depois uma, duas, três vezes, tantas quantas haja em casa, em sucessivos degraus até ao tecto. E ao cair da tarde, transidos de cansaço e, vamos lá, por vezes também pelas sucessivas libações a que as diferentes visitas obrigaram, em sítio previamente anunciado muitas Charolas se reúnem e há concursos, combates, competições e despiques."

Termino, com a letra do canto novo da Charola da Amizade de Santa Catarina da Fonte do Bispo, composto especialmente para este 2018, pela autoria do amigo da Nova Portugalidade João Carapeto.

"Numa noite fria e escura
Nada fazia prever
Que no meio da amargura
Um milagre divino fosse acontecer

Pois nessa noite em Belém
Na manjedoura nascia
Do ventre da virgem mãe
O menino Jesus, que nos trouxe alegria

- Refrão -
Cantemos aos céus
Esta melodia
Vamos dar as mãos
Ao filho de Deus
Que traga harmonia
Entre nós irmãos

E essa criança divina
Que o mundo ilumina
Pela sua aliança
Que traga para toda gente
Amor, paz e esperança

(Refrão)

Mas ó que noite tão serena
Um Presépio profundo
Pelo seu amor
Nos deste o tesouro do mundo
Jesus Salvador

Por esse menino Jesus
Celebra-se hoje o natal
Para lembrar a todos vós
Que a sua missão, era a paz mundial

Mas todos estamos cientes
Que tal é uma utopia
Então rezemos os crentes
Para que essa paz, regresse um dia!"

Tomás Severino Bravo


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