25º ANIVERSÁRIO DA REAL ASSOCIAÇÃO DE VISEU

25º ANIVERSÁRIO DA REAL ASSOCIAÇÃO DE VISEU

A CAUSA REAL NO DISTRITO DE AVEIRO

A CAUSA REAL NO DISTRITO DE AVEIRO
Autor: Nuno A. G. Bandeira

Tradutor

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

CORTE EM TAVIRA E CONSTRUÇÃO DA FORTALEZA E VILA DA GRACIOSA, NO LARACHE

Foto de Nova Portugalidade.

A construção da Fortaleza e Vila da Graciosa, no Larache, e a Corte D'El Rei D. João II em Tavira

Perante a política de conquista e construção de praças e fortalezas no norte de África, Portugal vê-se a braços com a necessidade de combater a navegação pirata muçulmana, que atacava constantemente a costa algarvia. O el-Arïsh (Larache), povoação costeira junto à foz do Oued Loukkos (rio Lucos) era 
um dos maiores portos corsários marroquinos, onde aportava a maioria das embarcações piratas, nestas incluindo as galeras turcas que assaltavam tanto o norte de África como o Algarve. D. João II pensa então, de forma estratégica, na construção de uma vila e fortaleza portuguesas, na extremidade do território luso que pertencia a Arzila. A fortaleza e a vila seriam construídas numa pequena ilha, a 15 km do mar, junto à ligação do Rio Lucos e do Oued el-Makhazen (Rio Mocazim), a que chamaram "Graciosa". O objectivo desta construção era impedir o acesso dos piratas que transitavam de Alcácer-Quibir para o porto de Larache.

O Reino ganha energia para uma nova expedição. Procura-se a mais rápida força para a construção de caravelas e outras embarcações, e o recrutamento de homens para edificar e povoar mais uma praça portuguesa. A 17 do segundo mês de 1489, partem do Restelo, à confiança de Gaspar Jusarte, 4 tafoeiras, providas de um total de 160 homens, em expedição à foz do rio de Larache, para erigir mais um castelo lusitano no meio da Berbéria. Para um melhor acompanhamento da construção do forte, o Príncipe Perfeito decide deslocar-se com a sua corte para a então vila de Tavira, ficando alojado na casa do Alcaide-mor, Diogo Lopes da Franca. Tavira, de onde já tinha partido várias vezes socorro para Ceuta, Tânger, Arzila, e até, para o reino Nápoles, quando este pedira auxílio a Portugal em ocasião do ataque do Grão-Turco, sairá de novo ajuda para a defesa dos portugueses que dedicavam os seus esforços na construção da Graciosa. Entre 18 e 22 de maio deste mesmo ano, partem do reino a Caravela Santo António e a Santa Maria da Praça, o Navio S. Pedro e o Navio Cirne, Del Rei, bem como uma quantidade de fustas, albetoças, tafoeiras e outras pequenas embarcações, bem providas de pedraria e outros materiais de construção, como madeiras e ferros. Vão também quantidades de mantimentos, principalmente o biscoito, mas também vinho, e os viveres que eram produzidos no Algarve para o mantimento dos mareantes, como frutos secos e peixe seco e salgado. Dentro dos batéis, enviam-se pedreiros, bombardeiros, besteiros, valadores, armeiros, ferreiros e sacerdotes, mas também bestas de carga, e cavalos. No final do mês de Maio, Jusarte adoece, e D. João vê-se perante a necessidade de mandar uma armada comandada por D. Pedro de Castelbranco, composta por cinco caravelas e barcos de apoio.

Esta feliz epopeia, porém, estava quase a chegar ao fim. Os ataques das tribos e das aldeias próximas à construção portuguesa são recorrentes, e em Julho, o alcaide de Alcácer-Quibir Sidi Al-Arous, e o Sultão de Fez, Mulay As-Sheik, decidem pôr cerco à Graciosa. Será fácil de imaginar, a partir desta altura, o corrupio de caravelas entre a barra de Tavira, Lisboa e o Larache. Da vila onde estava alojado o Rei de Portugal partem mais de 20 navios de socorro, providos não só de alimentos, mas também de nobres e fidalgos e respectivos escudeiros e homens de combate, para auxílio. De Sesimbra e de Cascais, partem as caravelas com homens e escudeiros do Conde de Monsanto, e na Caravela de Tristão da Cunha, embarca Martim, Fernão, e Afonso de Albuquerque (futuro vice-rei da Índia), morrendo o primeiro irmão, na chacina contra os mouros que atacavam a construção portuguesa.

No entanto, vários percalços como o isolamento do local, a insalubridade, e o facto de o rio só ser navegável parte do ano fizeram com que o projecto português redundasse numa derrota. Perante um constante ataque mouro, e uma resposta apenas por mar da Coroa Portuguesa, o sultão de Fez pede ao Capitão da fortaleza, Aires da Silva, um acordo de Paz, deixando sair todos os portugueses, cavalos e materiais que ali estavam sem chacina, com o acordo do abandono efectivo do local. Assim, com a concordância de D. João II, a 27 de Agosto em Tchem-mich (Xamez) é assinada a paz entre os dois países. Durante Setembro e Outubro desse ano, regressam todas a embarcações para Tavira, onde recebe o "Rei D'aquém e D'além mar" as gentes que trabalharam e lutaram na construção da fortaleza. A estadia do Rei e da corte em Tavira foi de quatro meses, uma vez que este só abandonou a vila nos primeiros dias de Outubro. Foi de lá, que escreveu ao Papa Inocêncio VIII, pondo-o ao corrente do que se passava no norte de África.

Portugal abandona o rio Lucos, mas com novas ideias em mente. Frustrado com o norte de África, D. João prepara a «armada de Manicongo», local situado muito mais a sul. Só no início do século XVI voltariam os portugueses às construções na costa do Magrebe, com Mazagão (1502), Santa Cruz do Cabo Guer e Ben Mirao (1505), Safim (1508), Azamor (1513), S.João da Mamora e Aguz (1515).

Tomás Severino Bravo 


Fontes:
FREIRE, A. Braamcamp, Expedições e Armadas nos anos 1488 e 1489, Lisboa, 1915
IRIA, Alberto, Da importância Geo-política do Algarve na defesa marítima de Portugal, nos séculos XV a XVIII, Lisboa, 1976
CHAGAS, Ofir, Tavira Memórias de uma cidade, Tavira, 2004

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