25º ANIVERSÁRIO DA REAL ASSOCIAÇÃO DE VISEU

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A CAUSA REAL NO DISTRITO DE AVEIRO

A CAUSA REAL NO DISTRITO DE AVEIRO
Autor: Nuno A. G. Bandeira

Tradutor

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

DOM JOÃO V, O "REI FIDELÍSSIMO", EXPOENTE CULTURAL DA PORTUGALIDADE

Foto de Nova Portugalidade.

No dia 1 de Janeiro de 1707 é solenemente aclamado D. João V, iniciando um dos mais longos reinados da história portuguesa. Realizava-se, neste dia, o auto de levantamento e juramento feito pelos grandes senhores seculares e eclesiásticos. 

De acordo com a descrição que nos chegou, pela pena magistral de D. António Caetano de Sousa, imortalizando o dia memorável, na sua "História Genealógica da Casa Real Portuguesa", no Terreiro do Paço, além de dois regimentos de infantaria, via-se a nobreza em suas carruagens e o povo, que se espalhava também pelas janelas e telhados. E descreve: "o rei estava com opta real de tela de prata com flores de ouro, forrada de tela carmesim com as mesmas flores, vestido de veludo com abotoadura de diamantes, e no peito com o hábito da Ordem de Cristo em uma venera também de diamantes de grande valor, espadim da mesma sorte, e no chapéu uma jóia que prendia a aba dele, tudo peças de grandíssima estimação."

Desfazendo alguns mitos importa salientar a meritória obra cultural financiada pelo rei. Da arquitectura à pintura, da literatura à música, a dinâmica cultural demarca um reinado de prosperidade e revelam um monarca com particular gosto pelas artes. Não serão despicientes as acusações que o retratam como "vaidoso" e "ostentoso" (Joaquim de Vasconcelos), conquanto o mais devoto, o rei "Fidelíssimo", também dos mais esclarecidos e dos mais cultos. De D.João V os diplomatas estrangeiros só escreveram louvores.

Da memória deste monarca ressalta o requintado gosto artístico, mormente a paixão pela música, certamente herança do avô, D. João IV, um verdadeiro rei melómano, o qual deixara uma importante e riquíssima livraria musical, infelizmente desaparecida com o terramoto de 1755. Também D. João V foi apaixonado da música, e, ao contrário de certas insinuações, o monarca não se restringiu apenas à música de igreja (aliás, à época, de superior valor). Em 1721 contratou para trabalhar no Paço, e dar aulas à sua filha, o famoso músico Dominico Scarlatti. Atento ao desenvolvimento cultural europeu, o rei procurou colocar o país a par do que de melhor se produzia lá fora, nas oportunas palavras de Sampaio Ribeiro, procurou "criar e desenvolver o gosto pela Arte dos Sons e estabelecer uma corrente artística, se não uma arte bem portuguesa".

Importante descoberta musical revelar-se-ia em 1720, quando a corte de Lisboa recebe um jovem de 16 anos, de seu nome Carlos Seixas, natural de Coimbra, filho do organista da Sé Velha. Não foi indiferente o precoce talento de Seixas, que mereceu profundos elogios de Scarlatti. Seixas afirma-se enquanto cravista, organista e compositor, que na arte imprimiu um cunho genuinamente português, conferindo-lhe uma particularidade que noutras latitudes não se encontra. Da arte produzida no século XVIII, Carlos Seixas é, sem dúvida, o símbolo musical da Portugalidade, na sonoridade poderosa, na genialidade das produções, encontramos (como escreveu Santiago Kastner) "toda a gama de cambiantes do ânimo lusitanissimo do nosso mestre".

Ressaltam ainda desse tempo, o grande compositor António Teixeira (1709-1755), que foi também o primeiro compositor dramático em língua portuguesa, ou a fama que ganhou um Francisco António de Almeida (1702-1755) organista da Capela Real e Patriarcal de Lisboa.

Apesar de todos os ataques, que uma certa historiografia (ora liberal, ora republicana) fez a este monarca, mesmo os seus mais ilustres detractores não deixaram de reconhecer a eficácia da política cultural joanina e a amplitude que teve no seu tempo. Comparativamente, o século XIX, será marcado por uma certa decadência musical, pois falhou o regime liberal na reforma das instituições musicais. Como também assinalou Vitorino Magalhães Godinho, que apontava na burguesia portuguesa de oitocentos a incapacidade de lograr um projecto que noutras paragens da Europa logrou cumprir. O século XVIII português fica assim para a história como um momento áureo da produção musical portuguesa.

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