| D. Manuel II Monarca de Portugal |
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Pela Graça de Deus, Rei de Portugal e dos Algarves, d'Aquém e
d'Além-Mar em África, Senhor da Guiné e da Conquista, Navegação e
Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia, etc. |
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| Ordem: | 35.º monarca de Portugal |
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| Cognome(s): | O Patriota ou O Desventurado |
| Início do reinado: | 1 de Fevereiro de 1908 |
| Término do reinado: | 5 de Outubro de 1910 |
| Aclamação: | Palácio de São Bento, Câmara dos Deputados,
6 de Maio de 1908 |
| Predecessor(a): | D. Carlos I |
| Sucessor(a): | República |
| Pai: | D. Carlos I |
| Mãe: | D. Amélia de Orleães |
| Data de nascimento: | 15 de Novembro de 1889 |
| Local de nascimento: | Palácio de Belém, Lisboa, Portugal |
| Data de falecimento: | 2 de Julho de 1932 |
| Local de falecimento: | Fulwell Park, Twickenham, Inglaterra |
| Local de enterro: | Panteão dos Braganças, Mosteiro de São Vicente de Fora, Lisboa |
| Consorte(s): | D. Augusta Vitória de Hohenzollern-Sigmarigen |
| Príncipe herdeiro: | D. Afonso Henriques de Bragança, Duque do Porto (tio) |
| Dinastia: | Bragança |
D. Manuel II de Portugal (nome completo: Manuel
Maria Filipe Carlos Amélio Luís Miguel Rafael Gabriel Gonzaga Xavier
Francisco de Assis Eugénio de Bragança Orleães Sabóia e
Saxe-Coburgo-Gotha; 15 de novembro de 1889[1] – 2 de julho de 1932) foi o trigésimo-quinto e último Rei de Portugal. D. Manuel II sucedeu ao seu pai, o Rei D. Carlos I, depois do assassinato deste e do seu irmão mais velho, o Príncipe Real D. Luís Filipe, a 1 de Fevereiro de 1908. Antes da sua ascensão ao trono, D. Manuel foi duque de Beja e Infante de Portugal.
Infância e educação
D. Manuel II nasceu no Palácio de Belém, em Lisboa,
cerca de um mês depois da subida de seu pai ao trono de Portugal.
Baptizado alguns dias depois, no mesmo Paço de Belém, teve por padrinho
avô materno, o Conde de Paris, tendo participado na cerimónia o imperador do Brasil, D. Pedro II, deposto do seu trono exactamente no mesmo dia do seu nascimento. D. Manuel recebeu à nascença os títulos reais de Infante de Portugal e de Duque de Beja.
Teve o tratamento e a educação tradicionais dos filhos dos monarcas
da sua época, embora sem preocupações políticas, dado ser o filho
segundo do rei e, como tal, não esperar um dia vir a ser rei. Como tal, é
de notar que durante a infância e juventude posava para os fotógrafos
com uma atitude mais altiva que o irmão. Este divertia-se com os tiques
snobes do irmão mais novo, embora sempre tenham sido bons amigos.
Paradoxalmente, depois de subir inesperadamente ao trono, D. Manuel teve
uma atitude oposta, afastando-se regularmente dos costumes
protocolares: foi o primeiro rei de Portugal a não dar a mão a beijar ao
dignitários durante a cerimónia anual do Beija-mão Real, a 1 de Janeiro[2].
Aos seis anos já falava e escrevia em francês. Estudou línguas, história e música (tendo como professor Alexandre Rey Colaço).
Desde cedo se mostrou a sua inclinação pelos livros e pelo estudo,
contrastando com o seu irmão, D. Luís Filipe, mais dado a actividades
físicas. Viajou em 1903 com a mãe, a Rainha Amélia de Orleães, e o irmão ao Egipto, no iate real Amélia, aprofundando assim os seus conhecimentos das civilizações antigas. Em 1907 iniciou os seus estudos de preparação para ingresso na Escola Naval, preparando-se para seguir carreira na Marinha.
Reinado
A sua futura carreira naval foi inesperadamente interrompida em 1 de Fevereiro de 1908, com o Regicídio de 1908.
O infante havia regressado a Lisboa (depois de ter estado alguns dias em Vila Viçosa, com toda a família) para se preparar para os exames da escola naval, tendo ido esperar os pais e o irmão ao Terreiro do Paço. Minutos depois deu-se o atentado que vitimou o Rei e o Príncipe Real, sendo D. Manuel atingido no braço.
O infante tornou-se assim Rei de Portugal. A sua primeira decisão
consistiu em reunir o Conselho de Estado, a conselho do qual demitiu o
Primeiro-Ministro João Franco,
cuja política de força foi considerada responsável pela tragédia.
Nomeou então um governo de aclamação partidária, presidido pelo
Almirante Francisco Joaquim Ferreira do Amaral.
Esta atitude acalmou momentaneamente os ânimos mas, em retrospectiva,
acabou por enfraquecer a posição monárquica pois foi vista como fraqueza
por parte dos republicanos.
Foi solenemente aclamado Rei na Assembleia de Cortes em 6 de Maio de 1908, perante os deputados da Nação, jurando cumprir a Carta Constitucional.
D. Manuel manteve-se sempre fiel a este juramento mesmo quando, já no
exílio, foi pressionado a apoiar outras formas de governo para uma
possível restauração. O Rei auferiu, no início, uma simpatia
generalizada devido à sua tenra idade (18 anos) e à forma trágica e
sangrenta como alcançou o trono. Foi então fortemente protegido pela sua
mãe, D. Amélia, e procurou o apoio do experiente José Luciano de Castro.
Julgando que a intervenção directa na governação pelo seu pai havia
sido a causa principal para o desfecho trágico do reinado deste, D.
Manuel II absteve-se de intervir directamente nos assuntos do governo,
seguindo a máxima de que o rei reina, mas não governa. No entanto, sobre
um aspecto se debruçou directamente o rei, a Questão Social.
D. Manuel II e a Questão Social
Por “Questão Social” compreende-se a preocupação, por parte de alguns
intelectuais e governantes, com a sorte do crescente proletariado
urbano criado ao longo do Séc. XIX com as mudanças impostas na sociedade
pela Revolução Industrial. Em Portugal, dada a fraca industrialização,
essa questão não teve o peso que teve noutros países, no entanto, o seu
peso era exacerbado tanto pela crise económica do país, como pela acção
reivindicativa do Partido Republicano.
Existia um Partido Socialista desde 1875, mas nunca chegou a ter
representação parlamentar. Isto devia-se não só ao fraco peso do
operariado no país e às divergências internas de carácter doutrinário,
mas sobretudo ao facto de o Partido Republicano concentrar em si, pela
sua natureza mais radical, todos os descontentes. Dado que era teoria
dos socialistas, ao contrário dos republicanos, que a questão do regime
era secundária face à melhoria de condições de vida para os operários e
por conseguinte, estarem dispostos a colaborar com o regime, D. Manuel
II vai tomar iniciativas de moto próprio. Pretendia com isto o rei, sem
infringir os seus deveres constitucionais, incentivar o Partido
Socialista de forma a que este retirasse apoios ao Partido Republicano,
nomeadamente o apoio do proletariado urbano, dado que este último
partido punha para depois da mudança de regime quaisquer medidas sociais
concretas.
Assim logo em 1909 D. Manuel convida para Portugal, a expensas suas, o
Sociólogo francês Léon Poinsard. Este percorreu o país com o fito de
elaborar um extenso relatório. Neste documento defendia que, para se
combater os clientelismos derivados do Rotativismo, se devia reorganizar o trabalho e a administração locais, em consequência do qual a reforma política viria naturalmente.
Entusiasmado, o rei escreve, em Junho de 1909, ao então Presidente do Conselho de Ministros, Venceslau de Lima,
pondo-o ao corrente da recente reorganização do Partido Socialista,
então unido sob a chefia de Alfredo Aquiles Monteverde, e lembrando-o da
importância de uma colaboração do regime com os socialistas: “Desta
maneira, vamos desviando o operariado do partido republicano e,
orientando-o, o que virá a ser uma força útil e produtiva”.[3]
Apesar de contactos anteriores do governo de Campos Henriques com o
socialista Azedo Gneco, Venceslau de Lima considerou a acção difícil,
dadas as dificuldades que surgiam então na realização do Congresso
Nacional Operário, boicotado por anarquistas e republicanos com um
congresso rival. Por seu lado, os socialistas entusiasmam-se com o apoio
régio, iniciando-se correspondência entre o rei e Aquiles Monteverde.
Este dá conta ao rei, em Outubro de 1909, da falência do rival Congresso
Sindicalista, agradecendo-lhe o interesse pelos operários. Apesar do
apoio Real, e devido à instabilidade governativa, durante o ano de 1909
não se tomaram medidas legais que mostrassem concretamente essa
aproximação aos socialistas, excepto nas portarias que de facto
facilitaram e permitiram o trabalho de Poinsard.
Foi só já no governo de Teixeira de Sousa, em Julho de 1910, que o
governo criou uma comissão com o fito de estudar o estabelecimento de um
Instituto de Trabalho Nacional. Desta comissão faziam parte três
socialistas, incluindo Azedo Gneco. No entanto, Aquiles Monteverde
queixava-se, que faltavam à comissão meios para ser eficaz,
nomeadamente, que a comissão tivesse um carácter permanente e que aos
delegados socialistas tivessem acesso ilimitado aos transportes do
estado para prosseguirem a sua tarefa de propaganda pelo país.
Informado, o Rei passou palavra ao governo que, através do ministro das
obras públicas, concordou com o estabelecimento de um Instituto de
Trabalho Nacional. Estava-se em fins de Setembro de 1910, e no início do
mês seguinte ocorria o golpe de estado do Partido Republicano, o que
pôs fim à tentativa do monarca de revitalizar um partido que não se
opusesse ao regime: de certa forma o mesmo que o seu pai tentara fazer,
mas por meios menos drásticos e mais demorados. Mas faltou-lhe tempo
para o conseguir.
Política externa
Durante seu reinado visitou várias localidades do norte do país e visitou oficialmente a Espanha, a França e a Inglaterra, onde foi nomeado cavaleiro da prestigiada Ordem da Jarreteira, em Novembro de 1909. Recebeu as visitas de Afonso XIII, Rei de Espanha, em 1909 e de Hermes da Fonseca, Presidente eleito do Brasil, em 1910.
Procurou sempre seguir uma política de aproximação à Grã-Bretanha.
Este imperativo era ditado não só por uma orientação geo-política já
seguida pelo seu pai, mas também como um recurso para fortalecer o
trono. Considerava-se que o casamento do rei com uma princesa inglesa
colocaria definitivamente a casa de Bragança sob a protecção da
Inglaterra. No entanto, a instabilidade do país, o recente regicídio e a
lentidão das investigações sobre este atrasaram as negociações até que a
morte do rei britânico, Eduardo VII,
lhes pôs fim. O velho monarca, amigo pessoal de D. Carlos, havia sido o
grande protector da Casa de Bragança e, sem ele, o governo liberal
britânico não tinha especial interesse pela manutenção do regime
monárquico em Portugal[5].
Situação interna e Revolução Republicana
Entretanto a situação política degradou-se, tendo-se sucedido sete
governos em cerca de 24 meses. Os partidos monárquicos voltaram às
costumeiras questiúnculas e divisões, fragmentando-se, enquanto o
partido republicano continuava a ganhar terreno. As eleições
legislativas de 28 de Agosto
de 1910 fizeram aumentar os deputados republicanos no parlamento para
14 deputados (9% de republicanos, contra 58 % de apoio ao Governo, e 33%
do bloco da oposição), o que parece ter favorecido bastante a causa
revolucionária, embora já tivesse sido tomada a decisão de tomar o poder
pela via revolucionária, no Congresso de Setúbal, 24 a 25 de Abril de
1909[6].
Na verdade, a 4 de Outubro de 1910, começou uma revolução e no dia seguinte, 5 de Outubro deu-se a Proclamação da República em Lisboa. O Palácio das Necessidades, residência oficial do Rei, foi bombardeado, pelo que o monarca terá sido aconselhado a dirigir-se ao Palácio Nacional de Mafra, onde sua mãe, a Rainha, e a avó, a Rainha-mãe D. Maria Pia de Sabóia viriam juntar-se a ele. No dia seguinte, consumada a vitória republicana, D. Manuel II decidiu-se a embarcar na Ericeira no iate real "Amélia" com destino ao Porto.
Os oficiais a bordo terão demovido D. Manuel dessa intenção, ou raptaram-no simplesmente, levando-o para Gibraltar[7]. A família real desembarcou em Gibraltar, recebendo-os logo a notícia de que o Porto aderira à República. O golpe de Estado estava terminado. A família real seguiu dali para o Reino Unido, onde foi recebido pelo rei Jorge V.
Exílio
D. Manuel fixou residência em Fulwell Park, Twickenham, nos arredores de Londres,
local para onde seguiram os seus bens particulares, e onde já sua mãe
havia nascido, também no exílio. Ali procurou recriar um ambiente
português, à medida que fracassavam as tentativas de restauração
monárquica (em 1911, 1912 e 1919).
Manteve-se sempre activo na comunidade, frequentando a igreja católica
de Saint James, e sendo o padrinho de baptismo de várias dezenas de
crianças. A sua passagem no lugar ainda se vê hoje em topónimos como
"Manuel Road", "Lisbon Avenue" e "Portugal Gardens".
Continuou a seguir de perto a política portuguesa, gozando de alguma
influência junto de alguns círculos políticos, nomeadamente das
organizações monárquicas. Se preocupava de que a anarquia da Primeira República provocasse uma eventual intervenção espanhola e o seu perigo para a independência nacional.
Pelo menos um caso é conhecido em que a intervenção directa do rei
teve efeito. Depois do afastamento de Gomes da Costa pelo general
Fragoso Carmona, foi nomeado novo embaixador de Portugal em Londres,
substituindo o anteriormente designado. Dada a aparente instabilidade e
rápida sucessão de embaixadores designados o governo britânico
recusou-se a reconhecer as credenciais do novo enviado. Ora acontece que
na altura estava a ser negociada a liquidação da dívida de Portugal à
Inglaterra, pelo que o assunto se revestia de grande importância. Nesta
conjuntura, o ministro dos negócios estrangeiros da república pediu a D.
Manuel que exercesse a sua influência para desbloquear a situação. O
rei ficou encantado com esta oportunidade para ajudar o seu país e levou
a cabo vários contactos (incluindo provavelmente o seu amigo, o rei
Jorge V), o que teve de imediato os efeitos desejados.
Apesar de deposto e exilado, D. Manuel teve sempre um elevado grau de patriotismo, o que o levou, em 1915, a declarar no seu testamento
a intenção de legar os seus bens pessoais ao Estado Português, para a
fundação de um Museu, manifestando também a sua vontade de ser sepultado
em Portugal.
As incursões monárquicas
Desde 1911 que forças de monárquicos exilados se centram na Galiza,
com o beneplácito do governo espanhol, para entrarem em Portugal e
restaurarem o regime monárquico. Eram lideradas pelo carismático Henrique de Paiva Couceiro,
veterano das campanhas de África e o único oficial que se havia batido
com denodo pelo regime aquando do golpe de estado de 5 de Outubro.
Acreditava o Paladino (assim o alcunhava a imprensa republicana)
que bastava uma demonstração de força para que o povo rural se erguesse
em apoio da restauração. Os acontecimentos mostraram que estava
enganado, pois além de mal preparadas e mal financiadas, a reacção do
povo não correspondeu ao esperado, tendo a sua apatia e a defesa das
forças republicanas batido as incursões de volta para a Galiza.
D. Manuel apoiou como pôde estas incursões, embora os seus recursos
financeiros, nos primeiros anos de exílio, fossem bastante limitados.
Acresce o facto de que esta primeira incursão ter sido feita sob a
bandeira azul e branca, mas sem a coroa, e foi precedida de um manifesto
de Paiva Couceiro que identificava o movimento como neutro, e
reclamando um plebiscito para decidir a forma de regime. Ora como
monarca constitucional legalmente jurado, D. Manuel II não aceitava ser
sujeito a um referendo. Foi só após troca de correspondência e aceite
que a restauração seria baseada na sua pessoa e na Carta constitucional
de 1826, que o rei passou a apoiar os exilados da Galiza.
A segunda incursão ocorreu em 1912 e apesar de melhor preparada, não
encontrou maior sucesso. Isto deveu-se ao facto de que o governo
espanhol, cedendo às pressões diplomáticas, agora que a república já
gozava de um reconhecimento mais alargado, ter forçado os conjurados a
escolherem, ou entrarem em Portugal, ou serem desarmados. Após o
falhanço e retirada o governo espanhol desarmou os combatentes
restantes, cuja presença na Galiza era, de resto, ilegal.
No entanto, é de notar que D. Manuel II nunca fez fé numa restauração
baseada na força, e sempre defendeu que os monárquicos se deveriam
organizar internamente para tentarem chegar ao poder legalmente, através
do jogo eleitoral. Esta orientação não era acatada de bom grado pela
maioria dos monárquicos, mais radicais nas suas acções, pelo que nos
anos seguintes continuavam as mal preparadas tentativas
restauracionistas (por exemplo, em 20 de Outubro de 1914), que o monarca
achava apenas contribuíam para agravar a situação anárquica do país.
Esta preocupação agravou-se com o começo da Guerra Mundial. Temia que a
situação de do país, combinada com a aproximação da Espanha às potências
ocidentais, levasse a Inglaterra a substituir Portugal pelo seu vizinho
como seu aliado, e que o próprio país fosse o preço cobrado por Afonso
XIII pela sua entrada na guerra.
O Pacto de Dover
Depois do fracasso da primeira incursão monárquica, e perante o que
parecia desinteresse da parte de D. Manuel, já que este não punha fé em
movimentos baseados na força, ganhou vigor o ramo legitimista, que
apoiava os descendentes de D. Miguel,
e que haviam participado no movimento. Para contrariar isto o monarca
entrou em negociações directas com os representantes miguelistas.
Pretendia-se que D. Miguel reconhecesse D. Manuel como rei e em troca
que este reconhecesse a linhagem de D. Miguel como segunda na linha de
sucessão, restabelecendo os direitos e cidadania portuguesa aos
príncipes miguelistas. De facto houve um encontro entre D. Manuel II e D. Miguel II,
em Dover, em 30 de Janeiro de 1912, onde se trocaram cartas
protocolares.
Casamento
Em 4 de Setembro de 1913 D. Manuel casou-se com D. Augusta Vitória, princesa de Hohenzollern-Sigmaringen (1890-1966), sua prima (por ser neta da Infanta Antónia de Portugal), e filha do Príncipe Guilherme de Hohenzollern-Sigmaringen.
Durante a missa na manhã do enlace, que teve lugar na capela do castelo
de Sigmaringen, D. Manuel assistiu de pé, ostentando a ordem da
Jarreteira e o Grande cordão das Três Ordens Portuguesas, sobre um
caixote cheio de terra portuguesa. A cerimónia foi presidida por D. José
Neto, cardeal-patriarca de Lisboa, à altura exilado em Sevilha, e que
já havia baptizado D. Manuel, e assistiram o príncipe de Gales, (futuro
Eduardo VIII), bem como representantes das casas reinantes ou reais da
Espanha, Alemanha, Itália, França, Roménia e de vários principados e
reinos alemães próximos. O casamento, uma união calma e serena, durou
até à morte súbita do rei, mas não teve descendência, fonte de grande
descontentamento para os monárquicos portugueses. Nunca se ouviram falar
em gravidezes de Augusta Vitória, pelo que se julga que os dois eram
geneticamente incompatíveis.
D. Manuel II na I Guerra Mundial
Sendo anglófilo, e admirador do espírito britânico, D. Manuel defende a partir da entrada de Portugal na guerra,
uma participação activa, instando os monárquicos a não lutarem contra a
república e a porem de lado as tentativas restauracionistas enquanto
durasse o conflito, e a unirem-se como portugueses na defesa da Pátria,
chegando mesmo, no exílio, a ter solicitado a sua incorporação no
exército republicano português.
Mas ao contrário do que esperava, a maioria dos monárquicos não
corresponde às suas expectativas, pois eram germanófilos, que esperavam
que a vitória do Kaiser se saldasse pela restauração da monarquia. O rei
por seu lado acreditava que só o apoio à Grã-Bretanha garantia a
manutenção das colónias portuguesas, que se perderiam para a ambição
alemã em caso de vitória destes, quer Portugal fosse uma república ou
uma monarquia. Mas apenas aqueles mais próximos do rei se ofereceram
para lutar, embora a República não tenha aceite os serviços de nenhum
monárquico.
O próprio monarca se pôs à disposição dos aliados para servir como
melhor pudesse. Ficou de início um pouco desapontado quando o colocaram
como oficial da Cruz Vermelha
Britânica, mas o esforço que desenvolveu ao longo da guerra,
participando em conferências e recolha de fundos, visitando hospitais e
mesmo os feridos na frente, acabou por ser muito gratificante. As
visitas á frente foram dificultadas pelo governo francês, mas a amizade
com Jorge V era suficiente para desbloquear esses entraves.
O seu esforço nem sempre foi reconhecido. Anos mais tarde, em entrevista a António Ferro,
lamentou-se, "A sala de operações do Hospital Português, em Paris,
durante a guerra, foi montada por mim. Sabe o que puseram na placa da
fundação? ‘De um português de Londres'."[8]
Ao rei se deveu a criação do departamento ortopédico do hospital de
Sheperds Bush, que por sua insistência continuou a funcionar até 1925,
assistindo aos mutilados de guerra. Uma prova de reconhecimento dos
ingleses para D. Manuel e para com Portugal foi o facto de Jorge V tê-lo convidado a ocupar um lugar a seu lado na tribuna de honra do desfile da vitória, em 1919.
A Monarquia do Norte
Depois do falhanço das incursões monárquicas continuam amiúde os
levantamentos ocasionais, sem mais que repercussão local, e que o
monarca condenava, exortando os seus correlegionários a organizarem-se e
a fazerem propaganda, de forma a restaurar o regime pelo voto, e não
pela força. Esta opção pareceu viável quando a ditadura do general Pimenta de Castro,
em Janeiro de 1915, quebrou momentaneamente o monopólio político do
Partido Democrático e, numa tentativa de captar as simpatias mais
conservadoras, retirou as restrições à liberdade de associação que desde
o 5 de Outubro limitavam os monárquicos. Entre Abril e Maio de 1915
abriram-se 55 centros monárquicos (33 no Norte e 12 no Centro do país),
mas perante esta abertura cerrou fileiras todo o espectro republicano e
em 14 de maio de 1915 a revolução saiu à rua. 15000 civis armados e a
marinha em revolta manietaram o exército fiel ao governo e ao fim de
três dias de combates, 500 mortos e mais de 1000 feridos, o Partido
Democrático estava de volta ao poder e os monárquicos de volta à
ilegalidade.
A opção das urnas voltou a ter possibilidade com a subida ao poder de
Sidónio Pais. Apesar de claramente republicano, também ele procurou
apoio no sector mais conservador da sociedade, estabelecendo o sufrágio
universal. O assassinato do presidente-rei levou ao poder forças
republicanas mais moderadas, mas não sem oposição. O estabelecimento de
juntas militares na província, algumas com tendências monárquicas e em
oposição ao governo criaram expectativas de que uma restauração através
de um golpe militar. Por esta altura a guerra já tinha acabado, o que
com a situação anárquica do país dava força aos que argumentavam por um
golpe.
D. Manuel, no entanto, continuava a pedir calma e, não pondo de parte
a ideia de uma acção pela força num futuro próximo, insistia que se
esperasse pelo fim das negociações de paz em Paris. Temia que um aumento
da anarquia prejudicasse a posição negocial do país. Mas para Paiva
Couceiro e para os integralistas era chegado o momento, bastava apenas a
autorização real na pessoa do seu lugar-tenente. Este, Aires de Ornelas,
recebeu o memorando que pedia autorização para um movimento de carácter
monárquico, e convencido de que não se tratava de uma acção imediata,
escreveu à margem “Go on. Palavras de El-Rei” e assinava.
A 19 de Janeiro de 1919, com um milhar de soldados e algumas peças de
artilharia, Paiva Couceiro restaurava no Porto a Monarquia
Constitucional, na pessoa de D. Manuel II. Um governo provisório foi
estabelecido, aderindo o Minho, Trás-os-Montes (com excepção de Chaves, Mirandela e Vila Real)
e parte do distrito de Aveiro. Mas, ao contrário do que esperava
Couceiro, o resto do país não se levantou. O poder republicano
continuava firme em Lisboa, onde Aires de Ornelas foi completamente
apanhado de surpresa, e mais não pôde do que refugiar-se, com algumas
centenas de monárquicos, no Regimento de Lanceiros 2, à Ajuda.
Aumentando o número de refugiados que temiam represálias republicanas, o
comandante do regimento, que era monárquico, fez retirar a guarnição e
os civis, marchando para Monsanto, que na época tinha pouca vegetação.
Aí juntaram-se a outras forças monárquicas, entrincheirando-se com parte
das forças de Cavalaria 4, 7 e 9, além da Bateria de Belém e do
Regimento de Infantaria 30. Aires de Ornelas hesitou entre obedecer ao
rei e ficar à margem, correndo o risco de os integralistas passarem a
sua lealdade a D. Miguel, ou assumir a liderança deste movimento
monárquico conjunto. Num terreno pouco propício para a arma de
cavalaria, e cercados por forças republicanas, os monárquicos acabaram
por se render em 24 de Janeiro.
Com o falhanço da restauração no Centro e Sul do país, a sorte acabou
por se virar contra Paiva Couceiro. A 13 de Fevereiro, a parte da
Guarda Nacional Republicana que o havia apoiado desertou e reinstaurou a
República no Porto. Os monárquicos que não conseguiram fugir foram
presos e condenados a pesadas penas. O rei, no exílio, poucas
informações recebeu e acabou por saber do falhanço através dos jornais.
As forças republicanas responsáveis pela vitória na escalada de Monsanto repuseram no poder a “Republica Velha”, o que não facilitava a vida aos monárquicos.
Nos meses seguintes, o monarca moveu a sua influência na corte
britânica de modo a que tivesse lugar uma amnistia para os seus
correlegionários. Esta teve finalmente lugar em aquando do 3º
aniversário da batalha de La Lys.
Além do fracasso do movimento em si, com o qual não concordara nem fora
consultado, D. Manuel II ainda teve que se confrontar com as acusações
de desinteresse em regressar ao país e a deserção de parte dos
activistas monárquicos.
Os Integralistas
A queda da monarquia constitucional em Portugal teve como reacção a
criação de um movimento monárquico de renovação nacional que se
distanciou das formas parlamentares cujos defeitos se consideraram como
responsáveis pela queda do regime. Esse movimento, conhecido como Integralismo Lusitano, começou por afirmar a sua lealdade a D. Manuel II, então já no exílio.
No entanto, os proponentes do movimento nunca deixaram de salientar
que a forma monárquica que pretendiam diferia da que fora derrubada em
1910. A monarquia tradicional que defendiam, das corporações e dos
municípios, renegava as formas de representação parlamentar assentes
exclusivamente em partidos ideológicos. Esta atitude chocava contra os
princípios do rei que, embora reconhecendo defeitos na constituição
vigente antes de 1910, não se achava no direito de ditar ou defender
quaisquer alterações, considerando-se preso por juramento à Carta
Constitucional. Quaisquer mudanças, defendia o monarca, teriam que ser
discutidas e implementadas pelas cortes gerais da nação uma vez
restabelecida a monarquia.
À medida que crescia a força das ideias integralistas entre as hostes
monárquicas, aumentava o tom das exigências daqueles sobre o monarca
exilado. Dada a recusa de D. Manuel em faltar ao seu juramento, aliada
ao fracasso da Monarquia do Norte, e acusando o monarca de falta de
interesse na restauração, a Junta do Integralismo Lusitano declarou-se
desobrigada de lealdade para com o antigo monarca em Outubro de 1919. Em
julho de 1920, representantes do movimento reunir-se-iam com os
representantes do ramo Legitimista de que resultaria a transferência de
lealdades para o terceiro filho de D. Miguel II, o então ainda menor D. Duarte Nuno.
O Pacto de Paris
Em 1922, tendo em conta o afastamento dos integralistas, e mais ainda
o facto de depois de quase uma década de casamento D. Manuel e D.
Augusta Victória ainda não terem filhos, o monarca exilado tentou uma
nova aproximação ao ramo miguelista. O encontro teve lugar em Abril de
1922, em Paris, sendo representante do rei, o seu lugar-tenente Aires de
Ornelas, e pelos miguelistas Aldegundes de Bragança, Duquesa de
Guimarães e Condessa de Bardi, tutora de D. Duarte Nuno.
Concordou-se que, a faltar sucessor directo a D. Manuel, os seus
direitos passariam para D. Duarte Nuno, reconhecendo este o seu primo
como rei legítimo. Ambos os lados colaborariam, cessando actividade
conflituosas. Os delegados integralistas não chegaram a tempo de
participar no encontro, mas, a pedido de D.ª Aldegundes, subscreveram o
acordo.
Os monárquicos constitucionalistas ficaram satisfeitos, mas entre as
hostes integralistas isso não aconteceu. Devia-se o desagrado ao facto
do acordo, como publicado, não fazer referência ao aspecto
tradicionalista da monarquia a ser restaurada, algo em que a junta do
Integralismo considerava fundamental. Tendo retirado o seu apoio público
ao acordo, este ainda se manteve, se bem com utilidade limitada, dado o
seu falhanço em unir as forças monárquicas, até que em Setembro de 1925
foi formalmente repudiado por D.ª Aldegundes em carta a D. Manuel,
alegando não cumprimento pela outra parte, dado continuar a funcionar o
jornal constitucionalista, enquanto o órgão integralista já havia sido
fechado, e nenhum legitimista ou integralista ter sido convidado para o
conselho superior monárquico. Terminava assim a última tentativa de
reconciliação entre os dois ramos da casa de Bragança.
D. Manuel, o bibliógrafo
D. Manuel sempre se havia interessado pelos livros, e nos seus anos
de exílio dedicou-se aos estudos e escreveu um tratado sobre literatura medieval e renascentista
em Portugal. Nos tempos a seguir à Grande Guerra, e com mais tempo
livre, embora sem descurar os contactos com as organizações monárquicas,
o rei passou a dedicar-se mais aos estudos, seguindo assim a tradição
que já vinha de seu pai.
Inicialmente planeou fazer uma biografia, assente em fontes primárias, sobre a vida de D. Manuel I,
que achava ter sido mal tratado pelos historiadores recentes. Para isso
contratou os serviços do bibliófilo Maurice Ettinghausen em 1919, que
se encarregou de lhe achar os livros antigos de que necessitava. Esta
acção foi beneficiada pela dissolução de inúmeras bibliotecas privadas
em Portugal depois da implantação da república. Teria sido Ettinghausen
que lhe sugira que precedesse o seu estudo pela feitura de uma lista de
todos os livros antigos da sua biblioteca.
Cerca de 1926 o objectivo do real investigador já havia mudado e,
abandonando a ideia da biografia, concentrou-se na descrição dos livros
antigos da sua biblioteca. Mais do que uma simples lista, a obra foi
aproveitada pelo autor para descrever as glórias passadas de Portugal,
descrevendo cada obra não só bibliograficamente mas acompanhando-o com
um ensaio sobre cada autor e cada assunto do livro, inserindo-o no seu
contexto histórico. A sua interpretação era fundamentada com documentos e
rigor científico,
e o resultado final só pode ser criticado pelo marcado amor à sua
pátria, bem patente na leitura e que o leva a uma exaltação dos valores
ancestrais da Grei, ainda assim desculpáveis num exilado.
Sendo uma obra de tema especifico, o número de exemplares era de
tiragem limitada e obtido por subscrição.Estava ilustrado por
fac-similis das obras tratadas e escrito em português e em inglês. O
primeiro volume da obra “Livros Antigos Portuguezes 1489-1600, da
Bibliotheca de Sua Magestade Fidelíssima Descriptos por S. M. El-Rey D.
Manuel em Três volumes” foi publicado em 1929, tendo D. Manuel se
deslocado ao palácio de Windsor para entregar em mão o exemplar ao rei
Jorge V, que havia sido o primeiro subscritor da obra. O volume
debruça-se sobre dois manuscritos, cinco incunábulos e trinta e três
livros impressos em Portugal até 1539.
A obra recebeu excelentes criticas dos especialistas e o rei
dedicou-se de imediato ao segundo volume, que abrangia o período de 1540
a 1569. O trabalho foi estafante, mas, com excepção das sobrecapas,
estava terminado em 1932. O rei faleceria inesperadamente pouco depois,
tendo o terceiro volume sido publicado, sob a supervisão da sua
bibliotecária, Miss Margery Withers, já postumamente. Este volume já só é
uma listagem de obras, sem os ensaios que enriqueciam os anteriores, e
que deram ao rei a merecida reputação de historiador e do mais erudito
dos reis portugueses. O seu busto está hoje no átrio de entrada da
Biblioteca Nacional em Lisboa.
Morte
Faleceu inesperadamente na sua residência, em 2 de Julho de 1932, sufocado por um edema da glote. O Governo Português, chefiado por Salazar,
autorizou a sua sepultura em Lisboa, organizando o funeral com honras
de Estado. Os seus restos mortais chegaram a Portugal, em 2 de Agosto,
sendo sepultados no Panteão dos Braganças, no Mosteiro de São Vicente de Fora em Lisboa.
Títulos
- 1889-1908: Sua Alteza Real o Infante D. Manuel, Duque de Beja
- 1908-1910: Sua Majestade Fidelíssima El-Rei
- 1910-1932: Sua Majestade Fidelíssima El-Rei D. Manuel II
Referências
- ↑ PROENÇA, Maria Cândida; "D. Manuel II", Rio de Mouro, Círculo de Leitores, 2006 ISBN 9724236595
- ↑ Nobre, Eduardo "Família Real – Álbum de fotografias", Quimera Editores Lda., 2002
- ↑ Pimenta, Alfredo, 1922, "Cartas Políticas de Sua Magestade El-Rei D. Manuel II", Lisboa, Depositária Portugália, p. 19.
- ↑ Nobre, Eduardo, "Paixões Reais", Lisboa, Quimera Editores Lda., 2002.
- ↑ Morais, Jorge, "Com permissão de Sua Magestade", Lisboa, Occidentalis, 2005
- ↑ Proença, Maria Cândida, 2006, "D. Manuel II" – Colecção "Reis de Portugal", Lisboa, Círculo de Leitores, pag 100
- ↑ Fernando Honrado, Da Ericeira a Gibraltar vai um Rei, Lisboa, Acontecimento, 1993, pp. 91–93
- ↑ Ferro, António, “D. Manuel II, o Desventurado”, Lisboa, Livraria Bertrand, 1954, pp. 108–9.
| Precedido por D. Carlos I |
Rei de Portugal e dos Algarves daquém e dalém-mar em África 1908 — 1910 |
Sucedido por Proclamação da República |
| Precedido por João de Bragança |
Duque de Beja 1889 - 1908 |
Sucedido por Monarquia abolida |
| Precedido por D. Carlos I |
Chefe da Casa de Bragança 1908 - 1932 |
Sucedido por D. Duarte Nuno de Bragança |
Fonte: Wikipédia



































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