A CAUSA REAL NO DISTRITO DE AVEIRO

A CAUSA REAL NO DISTRITO DE AVEIRO
Autor: Nuno A. G. Bandeira

Tradutor

domingo, 22 de janeiro de 2012

ENTREVISTA A UMA PRINCESA REBELDE - D. MARIA ADELAIDE DE BRAGANÇA

Em vesperas de completar um século de vida, reeditamos o relato/entrevista a SAS a Infanta Dona Maria Adelaide de Bragança feita em Novembro de 2009 para o Correio Real nº 2.


Não deixa de ser algo irónico que seja numa pequena moradia da “outra banda”, onde fomos tão magnanimamente recebidos, que encontrámos uma verdadeira Princesa, tão ou mais encantada que as dos romances e do cinema cor-de-rosa: referimo-nos a D. Maria Adelaide de Bragança, Infanta de Portugal, afilhada do rei Dom Manuel II e da rainha Dona Amélia, que por insólita conjugação de duas paternidades muito tardias e da sua provecta idade, é hoje a última neta viva do rei D. Miguel, esse mesmo do tradicionalismo e da guerra civil de 1828-1834.

Filha mais nova do duque de Bragança D. Miguel (II) e de Maria Theresia, Princesa de Löwenstein-Wertheim-Rosenberg, D. Maria Adelaide nasceu em 1912 no exílio, em St. Jean de Luz, tendo crescido em Seebenstein na Áustria em convívio com as mais influentes famílias europeias. Uma verdadeira mulher do Mundo, vem-lhe da infância a sua curiosidade pelas questões políticas e humanitárias: ainda pequena, a Infanta confidencia-nos que se escondia atrás dum sofá na sala para ouvir as conversas de seu pai com militares e políticos. Habitando no olho do furacão que era a Europa Central do início do Século XX, a pequena D. Adelaide de Bragança acabou vivendo aventuras e desventuras de pasmar: da I Guerra Mundial, recorda o racionamento e as filas para aquisição dos alimentos que então rareavam. «A certa altura, ainda eu era muito pequena, comíamos batatas ao pequeno almoço, que vinham de comboio e no Inverno congelavam. Uma batata congelada nem um animal consegue comer: ficávamos sem a refeição.» D. Maria Adelaide ressalva que não chegou a passar fome, pois por ser muito pequena, sempre arranjava qualquer coisa quando passava na mercearia ou no talho. «O meu irmão Duarte (D. Duarte Nuno de Bragança), esse sim: primeiro porque não “pedia”, segundo porque não queria receber “assim” os alimentos, e repartia o pouco que tinha, em prejuízo da sua saúde» que se deteriorou, fazendo perigar os saudosos passeios de bicicleta que a pequena infanta dava com o irmão sentada no guiador, recorda.

Em busca de subsistência, a família refugiou-se então numa propriedade dum tio materno na Boémia, que no final da Guerra acabou “requisitada” pelos comunistas, com os quais se encantou «com as suas boinas vermelhas e altivos cavalos». Em Viena, a jovem Infanta estudou Enfermagem e Assistência Social, e habitou uma residência universitária «uma coisa já natural para uma Senhora na altura».

Leitura obrigatória
Cresceu de frente para um Mundo em convulsão e durante a ocupação nazi, ainda em Viena, onde como enfermeira se juntara à resistência e acudia os feridos entre bombardeamentos, foi presa e sentenciada à morte pela Gestapo, vindo a ser libertada por intervenção de Salazar, que então acumulava a presidência do Conselho de Ministros com os Negócios Estrangeiros. Nessa ocasião foi-lhe concedido, e a seus irmãos, passaporte português. Foi entre estas correrias e aflições que conheceu um estudante de medicina de seu nome Nicolaas van Uden, com quem casou. “Ele como médico e eu como enfermeira estivemos para ir para África, mas pressionados pela família acabámos por vir para Portugal”, por autorização especial de Salazar, por volta de 1949, ainda antes da revogação da lei do banimento.

Instalada a família numa quinta em Murfacém, perto da Trafaria, a Senhora D. Maria Adelaide cedo se entregou a uma intensa actividade de cariz caritativo, tendo dirigido a Fundação D. Nuno Álvares Pereira situada em Porto Brandão, instituição de apoio a mães pobres em final de gravidez e crianças abandonadas, dedicando fervorosamente a sua vida aos mais desfavorecidos.

Longe das fugazes ribaltas e feiras de vaidades, a Senhora D. Maria Adelaide, hoje prestes a completar noventa e oito anos, além de constituir um precioso testemunho vivo, directo e indirecto, da História dos últimos duzentos anos, é um verdadeiro exemplo de profunda nobreza, aliada a uma invulgar coragem e irreverência.

João Távora com João Mattos e Silva para o Correio Real nº 2

Agradecimentos: Adriano e Nuno van Uden

publicado por João Távora em Real Associação de Lisboa

1 comentário:

  1. Ma.Conceição J Silva22 de janeiro de 2012 às 20:29

    Boa tarde,
    Uma mulher forte, muito à frente de seu tempo!
    Adorei saber da história da familia e da Princesa D. Maria Adelaide.

    Att.

    Sãozita/São Paulo

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