A CAUSA REAL NO DISTRITO DE AVEIRO

A CAUSA REAL NO DISTRITO DE AVEIRO
Autor: Nuno A. G. Bandeira

Tradutor

domingo, 27 de maio de 2012

FREI FORTUNATO DE SÃO BOAVENTURA

"Professou no mosteiro cistercense da sua terra natal em 1795 e ingressou na Universidade de Coimbra, onde frequentou o curso de Teologia, doutorando-se em 1810. Foi nomeado lente substituto da referida Faculdade, mas parece que não chegou a subir à cátedra, optando por um lugar menos categorizado, o de mestre do Colégio das Artes da mesma cidade.

Em 1820, Frei Fortunato foi admitido na Academia das Ciências de Lisboa, de início como sócio correspondente e depois como sócio livre da agremiação. Deixou abundantes traços da sua actividade de humanista e historiador nas memórias da Academia, entre as quais o Ensaio de Um Índice das Palavras, Provérbios, Sentenças Morais e Frases que a Língua Portuguesa Tomou da Grega sem Intermédio da Latina.

Nesse período foi eleito cronista da sua ordem, não se limitando, porém, à tarefa erudita e paciente de recuperar os códices de São Bernardo. Defensor das ideias absolutistas, conservou-se silencioso durante o Governo Constitucional de 1820, mas logo que triunfou a reacção de 1823 tornou-se um jornalista acérrimo da escola do padre José Agostinho de Macedo. Publicou então, sucessivamente, o Punhal dos Corcundas, com trinta e três números editados, o Maço de Ferro Antimaçónico e o Mastigóforo, períodico de que saíram quatro números.

O golpe de Estado miguelista de 1828 encontrou em Frei Fortunato de São Boaventura um apologista exaltado e alcandorado ao alto do púlpito da Sé de Coimbra, a 25 de Abril, de onde pregou um sermão memorável em acção de graças pelo regresso do futuro monarca. D. Miguel não deixou de compensar tal fidelidade e, em 1829, o monge instalou-se em Lisboa para prosseguir a publicação do Mastigóforo, de que saíram mais oito números, substituído nesse ano pelo Defensor dos Jesuítas, jornal que foi acompanhado, em 1830, pela Contramina. Com o padre José Agostinho de Macedo, o monge de Cister formou uma dupla temível de combate aos liberais, incessantemente fustigados pelo seu jornalismo planfetário.

No entanto, era unânime a reputação de Frei Fortunato como homem de puros costumes e vida morigerada, virtudes pouco aplicáveis a Agostinho de Macedo. Não espanta que a sua nomeação para reformador geral dos Estudos, em Agosto de 1831, tenha sido bem recebida. Em 29 de Setembro desse ano, o simpatizante miguelista foi elevado à dignidade de arcebispo de Évora, título confirmado pelo papa Gregório XVI, sendo sagrado em 3 de Junho de 1832. (...)

Pouco tempo se conservou Frei Fortunato na diocese eborense, já que a marcha triunfal do duque da Terceira, em 1833, desde o Alentejo até Lisboa, o obrigou a renunciar ao cargo. Já proscrito, o prelado enviou ainda duas pastorais aos seus diocesanos, tendo-se instalado em Estremoz e Borba em Abril de 1834. Todavia, com a assinatura da Convenção de Évora Monte, partiu para Roma, onde já se encontrava d. Miguel, juntando-se-lhe e partilhando com ele as agruras do exílio.

Não foi fácil a vida do arcebispo de Évora em Itália, de onde dirigiu várias pastorais aos sacerdotes e fiéis da sua diocese. Abandonado e sem recursos, sem as rendas da mitra, cuja administração o Governo Liberal confiara a uma junta, Frei Fortunato passou privações. No entanto, não abdicou de escrever, tanto em português como em italiano, embora as suas obras pouca receptividade tenham obtido entre nós, o mesmo sucedendo em Itália. Contudo, o seu nome era já conhecido em Itália, sobretudo em círculos eclesiásticos, que apreciavam o Comentarium de Alcobacensi Manuscriptorum, e também uma pastoral de 1822 que havia sido traduzida e publicada no periódico La Voce della Verità, onde o arcebispo passou a colaborar assiduamente e em que publicou artigos importantes. Um deles continua uma censura à expulsão das ordens religiosas de Portugal, em 1834, e outro era réplica a Francisco Freire de Melo, que escrevera contra uma das suas pastorais.

Frei Fortunato, estando ainda em Portugal, iniciara e dirigira a publicação da Colecção de Inéditos Portugueses dos Séculos XIV e XV, que ou Foram Compostos originalmente, ou Traduzidos de Várias Línguas, por Monges Cistercenses Deste Reino. Já em Itália, o teólogo de Cister, continuou a ocupar-se desses importantes trabalhos, publicando em Módena, em 1836, a Formula honestae vitae de São Martinho de Dume, copiada de um códice do Vaticano e precedida de um sólido comentário. No Vaticano, o nosso compatriota encontrou também um códice latino contendo a vida do Infante Santo, que traduziu para português e fez imprimir em Módena no mesmo ano.

Neste seu permanente labor, suportando privações bem cruéis, viveu em Roma dez anos, encerrado quase sempre na biblioteca do Vaticano, até ao seu derradeiro fôlego. Foi sepultado na Igreja de São Bernardo, sem direito a um epitáfio evocativo."

Joaquim Fernandes
in "O Grande Livro dos Portugueses Esquecidos", Círculo de Leitores, 2008

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