A CAUSA REAL NO DISTRITO DE AVEIRO

A CAUSA REAL NO DISTRITO DE AVEIRO
Autor: Nuno A. G. Bandeira

Tradutor

sábado, 18 de novembro de 2017

DESMITIFICANDO A SUPOSTA BRUTALIDADE DA INQUISIÇÃO: O CASO GOÊS

Foto de Nova Portugalidade.

Tema recorrente na campanha difamatória que se tem empreendido contra Portugal e a sua obra imperial é, desde há muito, a actuação da Inquisição. Esse tribunal, presente em Portugal desde 1536, foi alvo constante da imaginação - isto é, da deturpação aberta, comprometida e malsã - da propaganda protestante na sua guerra de palavras aos impérios católicos da Península; sossegadas aquelas vozes após Vestefália, em 1648, o Santo Ofício fez-se alvo preferencial dos filósofos das Luzes e, logo, do campo liberal na sua luta de morte com as antigas monarquias da Ibéria. O Tribunal da Inquisição passaria depois a ilustrar o imaginado ambiente obscuro, tirânico, brutal e irracional do Portugal antigo, mantendo-se essa a leitura ortodoxa até à actualidade.

Da Inquisição portuguesa, a de Goa distingue-se, na leitura caricatural que dela se faz ordinariamente, pela brutalidade particular dos seus meios e severidade da sua acção. O braço goês do Tribunal servia - e vigiava, julgava e punia - por todo o Estado da Índia, região onde o cristianismo era fé recém-chegada e, por isso, onde era grande o número de conversos do judaísmo, do hinduísmo e de seitas cristãs tidas por Roma como heréticas. Voltaire, grande inimigo do catolicismo, comentaria asperamente a Inquisição de Goa, dizendo-a "contrária à humanidade e ao comércio" e concluindo que "se os monges portugueses [que lá serviam] pensam que os nativos servem o diabo, a verdade é que são eles que o fazem". Como Voltaire, importante número de outros comentadores e estudiosos se dedicaria à exploração, descrição e mensuração dos horrores que imputavam ao Tribunal, lamentando os "Autos-de-fé", chorando as vítimas do obscurantismo e da intolerância e imaginando torturas, massacres e repressões.

Ora, será inegável que foi política portuguesa a conversão à fé católica dos povos que nela se integravam ou se lhe encontravam submetidos, satisfazendo a evangelização o propósito duplo de cimentar fidelidades políticas e de conquistar almas para a Igreja de Roma. Mas é embuste absurdo e de fácil repudiação a tese de que a Inquisição de Goa impôs à Ásia portuguesa duro e longo reinado de terror. Estudiosos notáveis como Jean Dumont denotam, entre outros aspectos, serem geralmente de morfologia flamenga ou renana os edifícios que decoram as gravuras de Autos-de-fé, o que atesta terem elas sido produzidas em regiões de forte infiltração protestante e de lá exportados para toda a Europa. Exageração inconsciente, pois, ou propaganda pensada é o que serão, no essencial, as imagens utilizadas para ilustrar o labor inquisitorial.

A dura aritmética constituirá, no que à vida da Inquisição diz respeito - e aqui focamo-nos meramente no caso goês -, prova mais terminante ainda. Na sua impressionante História da Igreja em Portugal, oferece-nos o Professor Fortunato de Almeida relato de um total de 71 Autos-de-fé em Goa entre 1600 e e 1773. Nesses setenta e um actos, 4167 - é dizer, 24 por ano - indivíduos terão sofrido algum tipo de condenação, dos quais 4046 teriam apagado os seus crimes com actos vários de penitência como orações, jejuns ou esmolas; condenados à pena máxima e à fogueira teriam sido apenas 57 indivíduos no mesmo período de 173 anos, o que dará uma execução a cada triénio. Para um Tribunal tão vilipendiado, acusado de abusos tão grandes e extensos quanto foi e é ainda o da Inquisição, parecerá que os padres eram surpreendentemente avessos aos derramamento de sangue.

Rafael Pinto Borges



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