A CAUSA REAL NO DISTRITO DE AVEIRO

A CAUSA REAL NO DISTRITO DE AVEIRO
Autor: Nuno A. G. Bandeira

Tradutor

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

AVEIRO, VENEZA DE PORTUGAL


Nas colecções de velhas gravuras portuguesas, frequentemente se encontra uma, que representa a cidade de Aveiro, (talvez a oppidum Talabrica, a que se refere Plínio), ainda cingida pelas muralhas com que a fortificou no século XV o Infante D. Pedro, Duque de Coimbra e Regente do Reino, esse grande e famoso príncipe, que correu as sete partidas do mundo e que morreu heroicamente na batalha de Alfarrobeira.

O arqueólogo ou artista, que, tendo visto esta estampa, decida hoje visitar Aveiro, na fé de lá encontrar ainda pitorescos vestígios do que essa terra foi há quinhentos anos, profunda decepção experimentará decerto, ao ver-se numa cidade muito escarolada e risonha, mas arqueologicamente incaracterística, donde por completo desapareceram há muito os muros e as sombras da cidadela medieval. De antigo, em Aveiro, só existem agora duas ou três casas nobres, relativamente modestas, e meia dúzia de construções religiosas, igrejas e conventos, das quais a mais velha remonta apenas, na sua feição actual, aos começos do século XVII. Todas essas construções são mais ou menos interessantes, mas de nenhuma se pode dizer que seja notável. (...)

Mas não é pelas suas riquezas artísticas que Aveiro se distingue: levam-lhe a palma nesse ponto muitas outras cidades portuguesas, Coimbra e Viseu, Évora e Guimarães, Tomar e Leiria. O que imprime a esta cidade um ar inconfundível, o que plenamente justifica a extensa fama da sua beleza é a situação privilegiada que desfruta à beira da ria do seu nome, dessa fecunda ria, que tem cinquenta mil hectares de superfície liquida e que tão generosamente lhe dá graça, riqueza e frescura. É efectivamente a ria que deriva a doçura do seu clima, podendo sem exagero afirmar-se que em Aveiro, mesmo nas zinas do verão, nunca há frio que moleste nem calor que incomode. É da ria que lhe vem o peixe e os mariscos, que todos os dias lhe pejam o mercado, sobrando ainda a ponto de permitirem uma larga exportação; o moliço, adubo paludial, de limos e algas, graças ao qual os campos aveirenses sobrepujam em fertilidade os mais úberes do país; o sal, com tantos wagons e navios continuadamente saem de ali carregados, e em cujo amanho se empregam tantos marnotos, que é o nome dado na região aos que trabalham nas salinas; o bunho e o junco, que servem para a cama do gado e fabrico de esteiras e alcofas; e ainda os patos bravos e outras espécies da ornitologia ribeirinha, cobiça e regalo dos caçadores e dos gastrónomos delicados. Por último, é também a ria que aformoseia e anima a cidade, atravessando-a por meio de dois canais, alegrando-a com o bolinar majestoso das suas velas, movimentando os seus cais, e imprimindo-lhe uma pitoresca feição lacustre, que originou esta popularíssima comparação: Aveiro é a Veneza de Portugal.

CASTRO, Eugénio de (1926) Cartas de torna-viagem
Coimbra: Lumen; Volume I – 233-240 pp.
 

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