A CAUSA REAL NO DISTRITO DE AVEIRO

A CAUSA REAL NO DISTRITO DE AVEIRO
Autor: Nuno A. G. Bandeira

Tradutor

sábado, 25 de novembro de 2017

18º ANIVERSÁRIO DE SUA ALTEZA O INFANTE DOM DINIS DE SANTA MARIA

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SUA ALTEZA O INFANTE Dom Dinis de Santa Maria Miguel Gabriel Rafael Francisco João, 4º duque do Porto, nasceu a 25 de Novembro de 1999.


Desejamos para o nosso Infante tudo de bom: muitas felicidades, alegrias, amor, saúde,....

Que Deus o abençoe e lhe dê uma longa Vida.

PARABÉNS! FELIZ ANIVERSÁRIO! 

VIVA O DUQUE DO PORTO!

VIVA A FAMÍLIA REAL!

VIVA PORTUGAL!

REI DA ROMÉNIA TERÁ ESTATUTO IDÊNTICO AO DOS ANTIGOS CHEFES DE ESTADO


Călin Popescu-Tariceanu, Presidente do Senado da Roménia e Liviu Dragnea, Presidente da Câmara dos Deputados, iniciaram um projecto lei que concederá várias vantagens à antiga Casa Real da Roménia.
A lei propõe que o Chefe da Casa Real tenha um estatuto idêntico ao dos antigos Chefes de Estado.
Também concederá à Casa Real o direito de usar gratuitamente o Palácio Elisabeta em Bucareste por 49 anos e disponibilizará à Casa Real serviços administrativos financiados pelo Orçamento do Estado. Os iniciadores da lei afirmaram que o projecto de lei é um reconhecimento pela forma como o Rei Miguel, o último soberano da Roménia, serviu o País, mesmo após ser forçado a abdicar.
O Rei Miguel da Roménia nasceu em 1921, como  filho de Carlos II da Roménia e da princesa Helena da Grécia e Dinamarca. Foi Rei da Roménia de 20 de Julho de 1927 até 8 de Junho de 1930 e novamente entre 6 de Setembro de 1940 e 30 de Dezembro de 1947. Foi forçado a abdicar em 1947 pelo governo controlado pelo Partido Comunista da Roménia. Sendo descendente da Rainha Vitória através de ambos os seus pais, é primo em terceiro grau da Rainha de Inglaterra e de vários outros Chefes de Estado reinantes. Casou com a princesa Ana de Bourbon-Parma em 1948 e têm cinco filhas. A Rainha Ana morreu em 2016.


Fonte: Causa Real

PORTUGAL: A ASCENSÃO DA PRIMEIRA POTÊNCIA MARÍTIMA MUNDIAL DA HISTÓRIA



O poder naval do Portugal de Quinhentos: ascensão da primeira potência marítima mundial da História

Em tese que contrastou de modo claro com a anteriormente formulada por Alfred Thayer Mahan, inaugurador da noção de "poder naval", George Modelski e William Thompson propuseram Portugal, a Holanda, a Inglaterra e os Estados Unidos, por sucessão, como únicas potências mundiais de base marítima desde
 o século XV. Essa divisão é relevante por duas ordens de motivos: por um lado, porque respeita, respalda e perpetua a negação, existente já na obra de Mahan, do papel da Espanha como superpotência talassocrática, isto é, do mar; por outro, porque inova no reconhecimento de Portugal, justamente, como primeiro poder marítimo de destaque, influência e capacidade de acção realmente universais. Essa aceitação de Portugal como primeira superpotência naval da História mundial diverge do "protestantismo operativo" - isto é, o enviesamento anti-católico e, em consequência disso, anti-ibérico - de Mahan.

De que modo pode, contudo, atribuir-se a Portugal o papel de superpotência naval nos séculos XV e XVI - e, depois disso, decerto de grande potência - quando se o nega à Espanha? Trata-se de problema cuja resolução não é evidente, uma vez que a verdade é que não abundam no século XVI português enfrentamentos navais com outras marinhas europeias - e, assim, a comprovação concreta da superioridade naval dos portugueses sobre os seus adversários marítimos imediatos (1). Todavia, a discussão do poder naval dispensa, pelo menos até certo ponto, essa contabilização simples de triunfos guerreiros. No século XVI, e até ao final da centúria, Portugal é chefe incontestado do mar: por altura da expedição de Filipe I de Portugal e II de Espanha à Inglaterra, operação a que a História viria a chamar "Invencível Armada", as forças navais ao dispor de Lisboa no Atlântico eram claramente superiores às da Coroa de Castela - por esse preciso motivo, Portugal foi o participante destacado do ataque a Isabel I, e seria também o principal perdedor com o malogro da frota. Para fazer prova disso bastará consultar lista dos meios marítimos destacados por cada uma das coroas pertencentes à Monarquia dos Habsburgos, do que se retirará que os de Portugal foram superiores aos de qualquer outros dos reinos dos Áustrias - e quase duas vezes mais numerosos que os de Castela.

Grande potência terrestre, o império que Carlos V construiu - e que veio depois a comandar-se do Escorial - era inquestionavelmente a primeira potência europeia de então. Não era, porém, claramente superior a Portugal no mar: o que este conquistava nas ondas, garantiam os espanhóis com os seus tercios em terra. Crucialmente, ainda, e seguindo a avaliação de Thompson e Modelski, não poderá dizer-se da Espanha que tenha sido em momento algum uma superpotência naval mundial excepto, talvez, quando nela se integrou Portugal. De facto, se o poder naval se mede em número de navios, apetrechamento e qualidade das tripulações, nele surge como característica de relevância ainda maior a realidade logística, a rede de bases, o controlo de pontos estratégicos e de rotas de navegação. Se no primeiro grupo de categorias a Espanha foi potência dominante com Portugal e, talvez, com a Inglaterra, nem ingleses nem espanhóis puderam sequer aproximar-se de Lisboa no segundo. A Inglaterra do século XVI possui forte braço naval, mas concentrado unicamente no norte da Europa; a Espanha tem-no também, e mais musculoso que Londres, mas meramente regional. Hegemónicos nas Caraíbas, de fraca presença na Ásia através das Filipinas, os espanhóis dividem o controlo do Atlântico Central e de boa parte da costa americana com Portugal. Este, pelo contrário, está presente em toda a parte, e em toda a parte constrói incomparável rede de fortalezas portuárias - precursoras simples das bases navais dos nossos dias - inexpugnáveis se assentes na superioridade marítima que Portugal manteve até à chegada de ingleses e holandeses ao Índico. Se a frota Hasburgo era regional, porque quase integralmente destinada à preservação do império europeu da dinastia, a portuguesa era mundial e manifestava-se determinante da costa brasileira à do Japão.

Importante e revolucionária é, ainda, a tese de Modelski e Thompson por outro motivo. Os dois teóricos do poder naval não se limitam a reconhecer Portugal como superpotência marítima entre outras; percebem-no como a primeira nação a adquirir esse estatuto. As velas de Portugal descobriram e conquistaram os mares de leste a oeste, e fizeram-no antes de qualquer outro Estado. Desse modo, estabeleceram o padrão e a receita da obtenção, projecção e manutenção de poder hegemónico no oceano: o controlo de largas extensões marítimas através da posse de pontos estratégicos solidamente protegidos numa rede mundial e interdependente de pontos - portos e fortalezas - para projecção de força. Embora radicalmente distintos do português nas suas motivações ideológicas e restante modo de operar, os impérios marítimos que se seguiram ao de Portugal - o holandês, o britânico, o norte-americano - tiveram com ele parecenças óbvias nos modos encontrados de imposição e disseminação da sua influência marítima. Não há, pois, exagero em ver nos edificadores do império dos portugueses no oriente - Manuel I, Francisco de Almeida, Afonso de Albuquerque - teorizadores, também, de um modo novo de fazer Estados e estabelecer, fortalecer e preservar impérios.

RPB


(1) Referimo-nos aos Estados europeus vizinhos da metrópole portuguesa. No Índico, foi frequente a prova da absoluta superioridade da carraca lusa. Na obra seminal "Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa", Armando da Silva Saturnino Monteiro contabiliza para cima de quatrocentos (424) enfrentamentos marítimos entre as forças de Portugal e as dos seus adversários ao longo do século XVI, a larga maioria dos quais no Índico.

Para saber mais:
Domingues, Francisco Contente. Revista da História das Ideias, Vol. 30., O poder naval português - um conceito em discussão, Coimbra, 2009.

Mahan, Alfred Thayer, The Influence of Sea Power Upon History 1660-1783, Londres, Sampson Low, Marston & Company, 1890. Reedição: N.Y., Dover, 1987. 

Saturnino Monteiro, Armando. Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa, vol. IV, Lisboa, Livraria Sá da Costa, 1993

George Modelski e William R. Thompson, Sea Power in Global Politics, 1494-1993, Floudmills and London, The Macmillan Press, 1988.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

LANÇAMENTO NO PORTO: "AFONSO DE ALBUQUERQUE" DE BRANDÃO FERREIRA



CONFERÊNCIA: "A INDEPENDÊNCIA NACIONAL - NÃO HÁ PORTUGAL SEM FORÇAS ARMADAS"

Foto de Nova Portugalidade.

No dia 29 de Novembro, no Café Santa Cruz, Coimbra, a Nova Portugalidade vai apresentar uma conferência intitulada "A Independência Nacional - Não há Portugal sem Forças Armadas".





BERNARDO DE KAGOSHIMA, OU "BERNARDO, O JAPONÊS"

Foto de Nova Portugalidade.

Portugueses do Portugal universal: Bernardo de Kagoshima, ou "Bernardo, o Japonês"

Nascido em Kagoshima, no extremo sul do arquipélago nipónico, Bernardo terá sido dos primeiros autóctones daquelas ilhas a abraçar o Cristo. Converteu-se tocado pela palavra de São Francisco Xavier, que naquela terra andou pescando almas por dois anos. Quando o evangelizador navarro abandonou o Japão, em 1551, Bernardo - esse nome escolhera ao fazer-se neófito cristão - foi com ele e acompanhou-o para Macau, Malaca e a Índia. Outro japonês convertido por São Francisco, um tal Matias, veio a morrer em Goa. Decidiu-se então que o converso sobrevivente deveria fazer-se às ondas e rumar à Europa, onde lhe seria oferecida a experiência de conhecer Portugal e seus costumes, dominar a língua, visitar os lugares santos, ver Roma, descobrir as glórias da arquitectura e ciência europeias e tomar prova da riqueza e força da Europa cristã. Em 10 de Abril de 1552, explicava Xavier ao Padre Simão Rodrigues, co-fundador da Companhia e uma das suas mais relevantes faces: "Matias e Bernardo (...) seguiram-me até às Índias, com o propósito de rumarem a Portugal e à Itália, e particularmente à própria Roma (...) para verem a religião cristã em toda a sua majestade. (...) Eles [os japoneses] são muito pobres, mas de muita fé. O intelecto japonês é tão agudo e sensível quanto qualquer outro no mundo." Seguiu-se longa e dificultosa viagem para Portugal que deixaria o nipão fisicamente muito fragilizado.

O japonês foi o primeiro homem do seu país a ver a Europa. Adentrou o Tejo em Setembro de 1552, tentou o ingresso na Companhia de Jesus e estudou no colégio que os inacianos mantinham em Coimbra. Lá andou por dois anos, atravessando depois a Espanha até Barcelona, de onde embarcou para Nápoles. De Nápoles, então cidade espanhola - e uma das maiores urbes da Europa - Bernardo viajou para Roma, onde ficou por dez meses. Assistiu à eleição do Papa Marcelo II, que se interessou muito pelo asiático e lhe dispensou muitas atenções. Se Bernardo ainda se achava em Roma quando Marcelo faleceu, vinte e dois dias após o início do seu pontificado, é dúvida que nos não é esclarecida pelas fontes disponíveis; o que se nos mostra claro é que Bernardo regressou a Lisboa após o encontro com o Santo Padre, com toda a probabilidade para retomar em Coimbra o labor académico que interrompera com a peregrinação italiana.

Parecerá rude ironia que visitante de terra tão distante tenha vindo a morrer tão pouco tempo após o passamento de dois Papas, pois ver o Papa fora, afinal, um dos propósitos da longa viagem. Contudo, assim foi com Bernardo. Não surge evidente o que o vitimou, mas parece, não havendo informação que indique fim mais dramático, provável ter sido maleita natural a conduzi-lo à tumba. Morreu em Lisboa ou Coimbra, divergindo as fontes quanto ao assunto. Foi, no fundo, fim profeticamente desanimador do início de empresa - a cristianização do Japão - que muito entusiasmaria os portugueses, muitas energias concitaria, muitos mártires devoraria e muito pouco fruto deixaria para a posteridade. Não que, como por vezes se diz, a Companhia tenha encontrado no Japão terra infecunda à sementeira de novos cristãos: Portugal fez, segundo as estimativas conhecidas, trezentos mil católicos no arquipélago japonês, ergueu infinidade de colégios, criou igrejas, desenvolveu hospitais e fecundizou de ideias novas - na medicina, na astronomia, na filosofia - ilhas tradicionalmente fechadas sobre si. O destino do Japão cristão foi, todavia, cruel. Décadas após o início da evangelização, em 1614, os japoneses expulsariam violentamente os portugueses e a fé católica por eles trazida; as igrejas foram queimadas, os colégios arrasados, as feitorias portuguesas encerradas, as naus atacadas, os missionários presos, torturados e mortos, os conversos massacrados e forçados à reconversão. Assim, afogados em sangue e cobertos de fumo espesso, foram os dias derradeiros do Japão de que Bernardo foi um dos primeiros filhos. Mas o seu nome, como a sua vida extraordinária, nem por isso deixam de ser os do primeiro Japão que viu a Europa, por um lado, e, por outro, o de um Japão - cristão, católico, feito à imagem de Portugal - que poderia ter existido até aos nossos dias.

Rafael Pinto Borges


quinta-feira, 23 de novembro de 2017

PRINCIPADO DA BEIRA CELEBRA A RESTAURAÇÃO NO 1º DE DEZEMBRO EM VISEU


"AFONSO DE ALBUQUERQUE SÓ NÃO ATACOU MECA POR FALTAR VENTO E CAVALOS"


Entrevista ao historiador José Manuel Garcia, que acaba de publicar O Terrível - A Grande Biografia de Afonso de Albuquerque (A Esfera dos Livros)

Bartolomeu Dias, Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral, Fernão de Magalhães... a lista de grandes navegadores portugueses é vasta, mas conquistadores, como os espanhóis Hernán Cortés e Francisco Pizarro, só tivemos Afonso de Albuquerque. O historiador José Manuel Garcia, que publicou agora a biografia daquele a quem Camões chamou O Terrível, conta como até a sagrada Meca esteve nos planos do genial militar português, que, afinal, também era mestre na arte de navegar

José Manuel Garcia

Afonso de Albuquerque era sobretudo um conquistador ou era também um navegador?

Ele caracteriza-se como conquistador. Fundamentalmente foi o que ele foi, o maior conquistador português de todos os tempos. Foi também um descobridor e um grande navegador. Em 1506, é ele que pilota a sua própria nau quando vai pela segunda vez de Lisboa para a Índia. Afonso de Albuquerque considerava-se um grande especialista na navegação e foi o primeiro a fazer a exploração do mar Vermelho para os portugueses. Ficou para a história não tanto como esse grande navegador mas sim como o homem que conquistou para Portugal Ormuz, Goa e Malaca.

Antes da aventura na Índia, teve a formação clássica de ir para Marrocos combater os mouros. É aí que ele ganha a pujança de soldado, não é?

Sem dúvida. A primeira parte da sua formação é em Arzila. Vai duas vezes para lá, combate os mouros de Marrocos em Arzila e é aí que ganha a experiência de combate e de luta contra os muçulmanos. Depois há de continuar para o Oriente, ele que era um homem profundamente católico, cruzado, que quer combater os muçulmanos onde eles estiverem.

No Oriente, dá-se essa luta sistemática até contra grandes potências muçulmanas, como os mamelucos do Cairo e depois o Império Otomano. E há o episódio do quase ataque a Meca...

Afonso de Albuquerque quando vai em 1513 para o mar Vermelho, e quer dominar o ponto estratégico que é a passagem do Índico para o Mediterrâneo, é obrigado a ficar na ilha de Camarão porque não pode avançar para Jidá, que era o porto de onde se tinha acesso a Meca. Depois das ameaças mamelucas de destruir as relíquias cristãs em Jerusalém, o grande objectivo dele era destruir Meca, porque achava que estava lá o túmulo do profeta Maomé e queria acabar com o domínio islâmico na península da Arábia. Mas por um lado não teve o vento e por outro talvez não tivesse ainda os cavalos que necessitava para a incursão que tinha planeado com 500 cavaleiros. Ele ia estudar a forma de dominar Jidá e numa segunda fase avançar para Meca.

Goa, Malaca e Ormuz são as conquistas que dão o domínio aos portugueses do Índico e consolidam o Estado da Índia, que dura um século como grande potência. É possível comparar o império marítimo de Albuquerque com o poder naval que a América hoje têm?

Penso que Portugal chegou a dominar mais o Índico, os americanos farão um domínio mais indirecto. Na altura, Albuquerque conseguiu um domínio efectivo, a chamada talassocracia. Era isso que ele pretendia, e conseguiu porque o poder marítimo português era grande e a construção de fortalezas eficiente.

Albuquerque era mesmo implacável?

Sim, ele ficou conhecido como O Terrível, como o livro se chama, em honra da referência de que Camões fala. Ele era de facto implacável e foi terrível porque atemorizava para assim conseguir a paz. Ele tinha poucos meios, poucas pessoas e pouco dinheiro, então tinha de rentabilizar as acções através de incutir o medo para que não fosse atacado e conseguir que os seus inimigos fossem derrotados. Graças à superioridade da artilharia e dos navios portugueses e à sua grande capacidade de força e vontade, juntamente com uma tecnologia e uma técnica de combate das mais modernas tendências europeias, conseguiu impor um poderio sobre inimigos muito mais numerosos mas tecnicamente não tão eficientes.

Tinha inimigos também na Corte, mas D. Manuel percebe que este homem lhe traz não só prestígio como fortuna?

O Rei D. Manuel sonhava ser um imperador do mundo e teve em Afonso de Albuquerque o principal executante dessa política. Mas na Corte havia quem defendesse mais uma teoria mercantilista e não de domínio político e imperial. Além disso, havia na Índia indivíduos que tinham interesses próprios e que Afonso de Albuquerque, em nome do Rei, numa política estatal, contrariava. Não gostavam dele, eram inimigos e conspiravam contra ele na Corte, e os amigos que ele tinha lá como Duarte Galvão, o próprio Rei e a Rainha, que era uma grande apoiante, não conseguiram no fim da vida de Afonso de Albuquerque travar a sua substituição.

Se tivéssemos de dizer o grande triunvirato português da Índia seria Vasco da Gama, D. Francisco de Almeida e Afonso de Albuquerque?

Sim, com Vasco da Gama como iniciador de um processo, que é o descobrimento do caminho marítimo para a Índia e que inicia toda a mudança de relação entre o Ocidente e o Oriente.

Albuquerque nunca se casou, tem um filho em Alhandra com uma mulher que nunca viveu com ele. Também descobriu no seu livro que haveria uma filha nascida no Oriente...

Sim, é um aspecto curioso. Penso que ele era muito obstinado no serviço do Rei, queria fazer grandes feitos e nunca decidiu casar-se, embora como cavaleiro da Ordem de Santiago estivesse autorizado a casar-se. A verdade é que teve um filho bastardo de uma senhora de que não há referências, mas antes de partir para a Índia em 1506 esse filho foi legitimado e depois houve o testamento em que lhe dava todos os seus bens. Na Índia, penso eu, também teve uma filha bastarda de uma escrava chamada Leonor, e essa filha, ou como ele dizia, afilhada, chamava-se Ximena. Ele protegeu muito essa menina, que foi enviada no fim da vida dele para Lisboa, para depois ser casada em Portugal com grande dote e jóias e toda a protecção da duquesa de Bragança.

Afonso de Albuquerque promoveu muito o casamento entre portugueses e indianas, mas quando fala da escrava, seria uma africana?

Não, era mesmo indiana. Era uma escrava de Cannanor, no sul da Índia. Não sei se seria mais ou menos escura, pois os portugueses preferiam mulheres brancas, mas também havia casos de se casarem com mulheres mais escuras. Havia essa ideia em Albuquerque de defender os casamentos, mas com mulheres que fossem mais brancas.

Nesta biografia que agora publica considera resolvido o problema da data de nascimento. Não do local?

O local não conseguimos saber. Poderá ser Vila Verde dos Francos, perto de Alenquer. Alhandra não porque há documentos que mostram que até 1497 essa quinta de Alhandra que ele depois veio a comprar era de outras famílias. Lá teria nascido em 1500 o seu filho Brás de Albuquerque. Quanto à data, que foi outro dos pontos que se discutiram bastante, tendia-se a acreditar que ele teria nascido em 1462, mas na realidade foi em 1452, portanto terá morrido com 63 anos, de acordo com o que já João de Barros dizia, e há documentos que referem a possibilidade de ele ter 60 anos em 1512. Ele considerava-se velho já no fim da vida e velho, nessa altura, era só a partir dos 60 anos.


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FERNÃO MENDES PINTO: O AVENTUREIRO DO IMPÉRIO

Foto de Nova Portugalidade.

Autor da “Peregrinação”, Fernão Mendes Pinto ergue-se com um dos vultos de peso da cultura portuguesa do século XVI. O fascinante relato das suas viagens pelo Oriente dá-nos conta do quão perigosas estas poderiam ser, e as aventuras e desafios com que se defrontou foram, certamente, enfrentadas por copiosos outros homens que, à sua semelhança, percorreram os mares nas caravelas portuguesas. 

Nascido em cerca de 1510, Fernão Mendes Pinto provinha de uma família modesta que, provavelmente, seria detentora de algum título nobiliárquico de menor relevo. Trazido para Lisboa por um tio, foi posteriormente para Setúbal, onde entrou ao serviço de um nobre, Francisco de Faria, da casa de D. Jorge, o filho bastardo de D. João II. Daí parte para a Índia, por volta de 1537.

Chegado ao Índico, fez parte da comitiva de um cruzeiro que circulava pelo Mar Vermelho, mas foi inesperadamente feito cativo por muçulmanos que por sua vez o venderam a um grego, acabando por ser resgatado em Ormuz. De seguida, encaminhou-se para Malaca com Pedro de Faria, que ocupava o cargo de governador, sendo este possivelmente aparentado com o Faria setubalense a quem antes tinha estado ao serviço. A partir do ponto nevrálgico de Malaca, Fernão embarcou em novas aventuras que o levam a percorrer a costa da Birmânia, o Sião, o arquipélago de Sunda, as Molucas e o Japão. Ao longo de cerca de vinte e um anos, Fernão Mendes Pinto adquiriu uma experiência extraordinária, testemunhando e convivendo com culturas, povos e territórios tão distintos entre si e tão longínquos da sua terra natal. No decorrer de todo este tempo, o autor conta-nos que foi náufrago, treze vezes cativo e dezassete vendido, bem como emissário em embaixadas de grande pompa oriental. As suas viagens foram recheadas de grandezas e misérias: ora rastejava nos recônditos mais rudes da existência humana, ora era senhor orgulhoso de uma embaixada luxuosa.

Outras fontes para além da sua obra, a “Peregrinação”, nestas incluindo cartas de jesuítas com quem conviveu (entre eles o próprio S. Francisco Xavier), é possível descortinar uma crise de consciência que o terá abalado, e que o compeliu a ingressar na Companhia de Jesus e rumar ao Japão. No entanto, desiludido com a experiência, regressa finalmente a Portugal, onde em vão busca uma tença real como recompensa dos serviços prestados. Estabelecendo-se em Almada, dedicou-se à redacção da sua obra magistral, testemunho das suas experiências, acabando por falecer em 1583.

Embora a sua obra esteja repleta de imaginação e acrescentos literários a uma narrativa verídica na base, a “Peregrinação”, além do exotismo sedutor, carrega em si uma essência com matizes de uma narrativa picaresca, mas com uma preocupação moral e satírica, uma irónica denúncia de falsos valores pelo exemplo, que fazem da obra uma sátira de costumes e ideias. Acima de tudo, o testemunho de Fernão Mendes Pinto é a de um português que viajou por grande parte do Oriente e conseguiu conviver durante décadas num ambiente culturalmente muito heterogéneo, não sem enfrentar grandes provações, que, com um misto de heroísmo e bravura, conseguiu sempre superar.

Miguel Martins


quarta-feira, 22 de novembro de 2017

51º ANIVERSÁRIO DE S.A.R., A SENHORA DONA ISABEL DE BRAGANÇA

A Real Associação da Beira Litoral deseja a Sua Alteza Real, A Senhora Dona Isabel, um Feliz Aniversário com tudo de bom: muita felicidade, saúde, alegria, paz, amor... junto da Vossa Real Família.


Que Deus A proteja, ilumine e guie!



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VIVA A NOSSA RAINHA!

VIVA A FAMÍLIA REAL!

VIVA PORTUGAL!

QUEREM ROUBAR-NOS AS FORÇAS ARMADAS: PORTUGAL NÃO PODE CONSENTIR

Foto de Nova Portugalidade.

I. Está em marcha um golpe sem precedentes contra a liberdade de Portugal. Por convenção que se prepara de Bruxelas, a PESCO, ou Permarnent Structured Cooperation (em português, Cooperação Permanente Estruturada), serão progressivamente integrados os aparelhos militares dos Estados-membros, criado um comando militar único subordinado à União Europeia e lançadas missões - isto é, campanhas - militares dependentes da autoridade da União. A ideia é proposta pela França, que com ela pretende transferir para os vizinhos o fardo - em vidas e tesouro - das suas muitas aventuras militares no Norte de África. A "colaboração" significa, naturalmente, pôr portugueses (ou belgas, italianos, gregos e polacos) nos países africanos onde hoje combatem franceses. A França defende o seu interesse nacional, e nisso não podem os portugueses ver problema. O que se exige é que também Portugal defenda o seu - e o seu interesse nacional é continuar a comandar de Lisboa as suas forças armadas, usando apenas em conflitos em que esteja em causa o interesse português soldados, dinheiros e equipamentos portugueses.

O PESCO constitui perigo imenso para Portugal e para toda a Europa. Trata-se, objectivamente, de passo primeiro, mas claro, rumo ao desmantelamento das forças armadas nacionais para sua substituição por um exército europeu. O programa determinará ainda a fusão prática dos dispositivos de defesa dos Estados que se lhe associem, passando os países a definir a sua política de defesa em conjunto e a afectação dos seus recursos em função da dos restantes signatários. Sigmar Gabriel, Ministro dos Negócios Estrangeiros da República Federal da Alemanha, explica que o PESCO servirá para que os Estados europeus "deixem de gastar todos dinheiro nas mesmas coisas". O que se procura, portanto, é que se concentre Portugal no que não tem a Espanha e a Espanha no não possui a França. A ideia não é razoável e não é aceitável, pois o que causará é que os Estados abdiquem de equipamento e valias de que precisam para defender-se autonomamente, passando todos a depender dos restantes.

II. As consequências são claras, são inaceitáveis e representam um cutelo aguçado sobre o pescoço de todos os povos europeus. Nenhum português com memória da sua História poderá aceitar que se prescinda de instrumentos indispensáveis à defesa militar de Portugal - sejam eles quais forem, e isso não esclarece a priori a PESCO - para entregá-los a outros países, alguns deles de interesses incompatíveis com os de Lisboa e seus aliados mais próximos. País velho que somos, sabemos bem que, como dizia o estadista inglês, os Estados têm interesses permanentes, mas nunca amizades permanentes. Transferir para comando alemão, francês ou espanhol tropas portuguesas seria colocá-las sob o mando de Estados que se encontraram todos eles em guerra, pelo menos uma vez, com Portugal ao longo dos últimos duzentos anos. Nada garantindo que as relações não venham a ser novamente inamistosas - e não há impossibilidades na política - aparece como irresponsabilidade imensa, absurda e até criminosa ceder a estes Estados estrangeiros o comando das forças que defendem o interesse de Portugal, a nossa democracia, a segurança dos portugueses e o império da lei e da Constituição.

III. Em causa está a própria existência do Estado português e o direito dos portugueses à vida livre. Se bem sucedido, o projecto de integração dos exércitos europeus virá a deixar Portugal sem forças armadas que lhe obedeçam e prossigam os seus interesses. Tratar-se-ia, na leitura tradicional do que constitui o Estado, de uma abdicação por Portugal da dignidade de o ser: se Portugal não cunha moeda (e já não a cunha, ou cunha a moeda dos outros), se não controla território (e, de facto, já não tem fronteiras), se já não é, na conhecida fórmula da ciência política, "poder superior a todos na ordem interna e inferior a nenhum na ordem externa" (e não o é, pois aceita o primado do direito dito "europeu" até sobre a sua Constituição), já não poderemos dizer-nos um país na plenitude do termo. Tinha ainda as forças armadas, uma das poucas atribuições claras de Estado que Lisboa soube preservar. Com o PESCO, cai essa última garantia de soberania; sem soberania, desaparece Portugal como nação politicamente determinante. Cessará, de facto, a nossa condição de Estado.

Especialmente gravosa seria a proposta de um exército conjunto europeu para a Portugalidade e para a integração portuguesa, essa sim natural e do interesse de Portugal e de todos os povos seus irmãos. Acabando Portugal privado de forças armadas, achando-nos nós forçados a implorar permissão de Bruxelas em todos os assuntos atinentes à utilização de meios militares, necessariamente perderemos a capacidade de associar-nos, como deve no futuro fazer Portugal, ao mundo português. É perspectiva contrária, por um lado, à própria natureza e tradição de Portugal, sempre nação marítima e jamais país de foco continental; por outro, significará a proibição de todos os passos - e eles são abundantes - que de outro modo poderíamos dar, na esfera militar, rumo à reconstrução da unidade da Portugalidade. Sugestões como a constituição de uma força naval da Portugalidade para a Insulíndia (através de Timor) e o Atlântico Sul - e o Atlântico Sul foi lago português ou luso-brasileiro durante 500 anos -, a harmonização de políticas externa e de defesa entre países portugueses da Amazónia a Timor ou a fusão de dispositivos de defesa entre Portugal, Cabo Verde, Timor, São Tomé e Príncipe e a Guiné quedariam impossibilitados.

Sem Forças Armadas, não há política externa própria. Sem Forças Armadas, não há dignidade nacional. Sem Forças Armadas, não há independência e não há Estado. Sem Forças Armadas, não há Portugalidade. É obrigação de todo o português - de Portugal ou de parcelas outras da Portugalidade - trabalhar com empenho e entusiasmo para que não vingue este golpe perigoso contra nós e todos os povos da Europa.

A Nova Portugalidade

Um pedido da NP: para combater esta ameaça, é preciso divulgá-la. Por favor, partilhe este post entre os seus amigos.



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O NOSSO INFANTE QUE FEZ O MUNDO NOVO

Foto de Nova Portugalidade.

Efeméride: na morte do Infante Dom Henrique

Fez este mês (14/11/2017) 557 anos, que morria aos setenta e três anos no Algarve o Infante a cuja força, ardor e teimosa persistência Portugal ficou a dever a sua gesta planetária, e à Europa, então ignoto cabo do mundo, sair da cerração multissecular em que jazia desde o ocaso de Roma e estender a sua civilização pelas partidas do mundo.

A expansão portuguesa, cuja ideologia imperial foi estimulada em doses iguais por sede de "poder, fé, proselitismo, cobiça e ubiquidade" (Vitorino Nemésio) encontrou no Infante o homem do destino. Henrique era a um tempo um senhor feudal e medieval e uma inteligência renascentista, cruzado e mercador, guerreiro e organizador, cientista e místico, prático e sonhador, recolhido e expansivo.

Rodeado de moços cavaleiros cheios de ambição e sedentos de honra, de mareantes, estrangeiros, cartógrafos, mestres carpinteiros, homens práticos do mar, aventureiros e espiões conhecedores de línguas e paragens exóticas, o Navegador dedicou infatigavelmente a sua vida a um objectivo que se foi alargando, completando, definindo e corrigido no equilíbrio entre a experiência e a convicção. Aqueles quase quarenta anos de mando à cabeça da maior empresa a que até então se entregara um Reino cristão - feita de tentativas e erros, vencendo as reservas do "pensamento velho", das superstições e medos - foram, afirmemo-lo sem hesitação, os pilares sólidos do sucesso que quarenta anos após o passamento de Henrique daria a Portugal o domínio do Atlântico, do Índico e da terra brasileira.

Do Infante ficou muito - antes, ficou tudo o que depois o tempo cumpriria - e dele retenhamos o retrato psicológico que Zurara tão bem captou: a cobiça de "acabar grandes e altos feitos", o auto-domínio, a austeridade, a abstémia e a privação dos comuns prazeres da carne. Se pelos acasos e desastres da história Portugal tivesse desaparecido nesse longínquo ano de 1460 em que o Navegador fechou os olhos, a existência de um homem como o Infante Dom Henrique teria sido justificação para que esta nação jamais se perdesse na memória dos homens.

MCB

A ARMADA QUE NAPOLEÃO QUERIA PARA SI

Foto de Nova Portugalidade.

Da força dos portugueses no mar se diz, normalmente, que se foi dilatando e fortalecendo até ao século dourado de Quinhentos e, logo, estagnando e minguando para a banalidade e a insignificância. Trata-se de outra falsidade, infirme e precária como as restantes; um pouco de estudo, uma gota de leitura e uma pitada de amor à verdade e imediatamente se esfuma. A realidade não se limita a encontrar-se distante dessa mentira; com efeito, está-lhe nos antípodas.

Tomaremos por elemento de análise o Portugal de 1807. Nesse ano, a Metrópole deprimida, pobre e atrasada que retrataria Herculano era centro de um império que atingia a sua máxima extensão territorial. De presença sólida na América, na Europa, na África e na Ásia, Portugal vivia do mar, e dele dependia para a protecção de, e comunicação entre, as diversas parcelas da Monarquia. Ao contrário do que se dera no século XVI, não era potência hegemónica em parte alguma do globo. Contudo, nem por isso se fizera pouco significativo. Visitando Lisboa em 1806, o almirante inglês Conde de São Vicente - que fizera o nome e obtivera o título ao bater, no homónimo cabo algarvio, uma frota francesa durante a Guerra dos Sete Anos - registou ter visto no Tejo 15 navios de linha de segunda, terceira, quarta e quinta classe. Liderando a armada surgiam o Príncipe Real e o Príncipe do Brasil, um de 110 peças e outro de 84. Ambos seriam pouco menores que o espanhol Nuestra Señora de la Santíssima Trinidad, até 1805 o maior vaso de guerra do mundo. Entre outros navios mais pequenos ou de apoio à frota principal, viu várias dezenas de embarcações.

Convirá, para perceber a escala da força que Portugal possuía na boca do Tejo - e a armada atlântica do país não se limitava, como sabemos, aos navios sediados em Lisboa, uma vez que lhe era confiada a protecção das águas do Brasil, de Angola e restantes entrepostos portugueses desse oceano - compará-la à de outras potências europeias. A frota russa do Báltico - que em 1807 protagonizou, comandada pelo vice-almirante Dmitry Senyavin, curioso incidente frente a Lisboa - compunha-se de 7 navios de linha; em Trafalgar, onde Nelson desbaratou franceses e espanhóis, a força britânica compunha-se de 27 navios de linha, a espanhola de quinze e a francesa de 18.

Bem se percebe, pois, que o Imperador Napoleão pretendesse abocanhar a frota portuguesa. Perdidas as da França e da Espanha, sua aliada, em 1805, a entrada de Junot em Lisboa destinar-se-ia, entre outros propósitos, ao de render a Paris o controlo da armada de Portugal. Deu-se mal, como sabemos, pois a cobiçada frota saiu de Lisboa, rumo ao Brasil, dias antes da entrada triunfante do general francês na capital. Com ela se escapou o braço forte de Portugal e, por isso, a última esperança de que a França viesse ainda a disputar o controlo dos mares com a Inglaterra.

Rafael Pinto Borges

terça-feira, 21 de novembro de 2017

1717-2017: OS TREZENTOS ANOS DE MAFRA

Foto de Biblioteca Nacional de Portugal.

Foto de Biblioteca Nacional de Portugal.

Foto de Biblioteca Nacional de Portugal.

Foto de Nova Portugalidade.

Um projecto que excedia a grandeza das proporções daquela montanha de pedra: a ambição de um soberano que o papado elevou a Majestade Fidelíssima, emulando os Reis de Espanha e de França, e a manifestação programática de quem reivindicava para Portugal o papel de potência católica de primeira grandeza com mandato missionário na Ásia e na América.

O Convento de Mafra nunca foi compreendido pela historiografia portuguesa dos séculos XIX e XX. Se o reduzirmos à expressão da caricatura, escoadouro do ouro e de energia gratuita, e se o tentarmos compreender nas coordenadas do Memorial, é certo que canhestramente o situaremos como manifestação de megalomania e desperdício. Porém, em Mafra está a manifestação de uma potência e influência que Portugal não mais voltou a ter, de uma segurança psicológica e até de um toque de boa altivez que tanta falta faz na relação dos Estados com o mundo exterior.

É sabido que desde o século XIX se montou intensa campanha difamatória contra a dinastia de Bragança e contra a nobreza supostamente decaída a partir "absolutismo" do período joanino. Em Rebelo da Silva (A Última Corrida de Touros Reais em Salvaterra, 1848; A Mocidade de D. João V, 1852-53), em Oliveira Martins (História de Portugal e Portugal Contemporâneo), em Junqueiro (Pátria, 1896), em Júlio Dantas (Os inquéritos médicos às genealogias reais portuguesas - Avis e Bragança, 1909) e até na sempre frágil preparação historiográfica de Saramago perpassam a "maldição dos Bragança", a "degenerescência" da estirpe - beata, casmurra, idiota, caprichosa, reaccionária, decrépita, sifilítica, vítima da consanguinidade, violenta ou afásica - e a sua responsabilidade no Finis Patriae.

Sim, dizem as mentes anacrónicas, "Dom João V devia ter investido em manufacturas, em vez de pedras e religião". O lugar-comum não resiste à mais leve e honesta prova. Dom João V investiu muito em cultura, em conhecimento e em ciência. Não, Portugal de D. João V não era, como diz a historiografia oitocentista, um país bisonho, um "reino cadaveroso", "supersticioso" e fora das grandes correntes do pensamento ocidental do tempo. Para contrariar tais estórias, leia-se a obra de Henrique Leitão, que vai ano após ano lapidando as fanadas mentiras que se foram acastelando desde há mais de século e meio sobre aquele monarca a quem Lisboa deveu dois observatórios astronómicos e a mais persistente política de mecenato cultural, tecnológico e científico da nossa história. Portugal era, ainda no século XVIII e graças à Companhia de Jesus - um verdadeira internacional de conhecimento - um país tocado pelas musas do engenho, do experimentalismo e da curiosidade.

MCB




Em mais um centenário de Mafra, vale a pena ouvir José Hermano Saraiva sobre o grande palácio-convento. A imensa obra, manifestação de um Portugal que exigia ser reconhecido como grande poder europeu, marcou no passado dia 17 os trezentos anos do início da sua construção.

140 ANOS DA TRAVESSIA DE SERPA PINTO

Foto de Nova Portugalidade.

"(...) senti uma pungente mágoa, uma indefinível saudade, uma dor profunda, que me produziram como que uma embriaguez, e confesso que não tenho muito a consciência de ter deixado Benguela.
A bandeira das quinas estava desenrolada e afastava-se da cidade ao passo cadenciado da caravana; segui-a." 

Assim escreveu Serpa Pinto, no segundo capítulo do primeiro volume do seu livro "Como eu atravessei a África". Faz hoje (12/11/2017) 140 anos que partiu de Benguela a expedição por ele guiada e idealizada, e que só chegaria à outra ponta da costa africana precisamente 15 meses após a partida; 15 meses de sacrifícios hercúleos e lutas contra as vicissitudes dos sertões africanos.
Faça-se justiça à memória dos heróis nacionais!

"... OS URUGUAIOS FALAM PORTUNHOL, MAS QUEREMOS QUE FALEM PORTUGUÊS"


"Nós dizemos que os uruguaios falam portunhol, mas queremos que falem português."

De visita a Portugal, a Ministra da Educação e da Cultura do Uruguai recorda, em entrevista ao Diário de Notícias, os solidíssimos laços que unem aquele país sul-americano à Portugalidade. A entrevista teria sido mais interesse se tivesse fugido - como, lamentavelmente, não fugiu - a assuntos internos da vida uruguaia que relevância nenhuma têm para o leitor português ou da Portugalidade; contudo, não deixa de ter a virtude de reiterar a solidez de uma relação antiga e que faz do Uruguai parte de pleno direito do mundo português. O país foi, afinal, parte de Portugal enquanto Província Cisplatina entre 1817 e 1822, mantendo-se brasileiro até 1828. Parcela dele (a Colónia do Sacramento) havia, ainda, sido constante motivo de distúrbio e hostilidade nas relações entre Portugal e a Espanha. Muito bom é, pois, que se recorde que o Uruguai é tanto parcela da Hispanidade como da Portugalidade, e que deve afirmar-se como ponte entre as duas.




segunda-feira, 20 de novembro de 2017

AS ORIGENS DOS PORTUGUESES E DOS POVOS DA PORTUGALIDADE

Foto de Nova Portugalidade.

Culturalmente, os portugueses são um povo que resulta da descendência de vários outros povos, cruzados entre si, que habitaram a Península durante diferentes épocas. Por vezes, achamos que somos única e exclusivamente descendentes dos Lusitanos, povo "bárbaro" que se dedicava principalmente à pastorícia, caça e recoleção, e cuja religião era animista. Porém, nós portugueses somos essencialmente sucessores culturais de dois povos: dos Romanos e dos Árabes.

Os Romanos foram expandindo progressivamente o seu domínio da Península Ibérica desde o século IV até ao I a.C., designando-a de Hispânia. Dividiram-na em várias províncias, habitadas por povos culturalmente diferentes. Cá, travaram fortes batalhas contra os Lusitanos, que, astutos, mostraram-se invencíveis até à traição por um dos companheiros de Viriato, segundo reza a tradição. Com a sua força, inteligência, método e organização, os Romanos construíram grandes cidades, templos, hipódromos, portos de comércio, mercados, desenvolvendo a agricultura, fábricas, a pesca, a salga e todo o tipo de conservação de alimentos com vista à exportação. Deixaram-nos parte da dieta, uma vez que a produção, cultivo e consequente consumo da parreira aumentou e perdurou até à atualidade, sendo o vinho a bebida fundamental que atravessou os séculos da nossa história. A oliveira dava a gordura natural indispensável, a seara o trigo, e por consequência o pão, o principal destes três alimentos. Esta trilogia alimentar constitui os três elementos sagrados na devoção: o vinho - Sangue do Senhor, o Pão - Corpo do Senhor, e o azeite - matéria dos santos óleos usados nas unções sacramentais. Herdámos então essencialmente três referências que hoje nos caracterizam. Por fim, herança egrégia, herdámos o desejo, a vontade e o talento romanos da expansão, e força para a conquista de um povo descobridor e aventureiro.

A invasão árabe da Península deu-se no séc. VIII, altura em que o atual território português estava sob ocupação visigótica, que durava desde a queda do Império Romano do Ocidente em 476. Os Árabes difundiram a sua cultura, dogmas e fé. Deles herdámos muitas tradições alimentares, mais visíveis no Algarve e no Alentejo. Trouxeram-nos o açúcar, e ensinaram-nos a "fritar". Não consumiam porco, e como o álcool só foi proibido no Islão mais tarde, ensinaram-nos a destilar. Com eles aprendemos novas técnicas de cultivo, mais eficazes, e de pesca, tal como a Almadrava, que esteve em prática, igual há 1300 anos, até à década de 70 do século passado. Na música, temos influência mourisca no Fado e no Cante. Lançaram os maometanos a semente que haveria de crescer num povo de mercadores e de grandes marinheiros comerciais.

Por fim, a nossa língua, de linhagem latina, em que praticamente toda a gramática está, ou estava, de acordo com os pilares da língua romana, possui muitas palavras também de origem árabe.

O "ser português" revê-se neste “modus vivendi” como o legado de um conjunto de culturas, com uma matriz europeia e hispânica indiscutível. Com a Reconquista, foi criada a identidade de uma pequena zona da Ibéria, que se estendeu até ao Sul, e, reproduzindo toda esta mistura de culturas, foi enaltecida a identidade portuguesa. A partir de quatrocentos, propagámos esta identidade lusa pelo mundo inteiro, construindo uma certa ideia de Portugal à volta do planeta, cujas raízes e identidade são únicas, porque não são só europeias, mas o resultado deste processo histórico que o local onde hoje se ergue Portugal sofreu. Essa certa ideia de Portugal espalhado pelos quatro cantos do mundo, com uma marca identitária única é aquilo a que se chama Portugalidade - e é isso que defendemos e que queremos preservar. 


Tomás Severino Bravo

Na imagem, a vila de Mértola, que foi a "Mirtylis Iulia" romana, e a "Mārtulah" islâmica. A presença das culturas que nos deram origem está aqui, como em tantos casos, bem presente.