25º ANIVERSÁRIO DA REAL ASSOCIAÇÃO DE VISEU

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A CAUSA REAL NO DISTRITO DE AVEIRO

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Autor: Nuno A. G. Bandeira

Tradutor

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

DOM DINIS: UM MESTRE DA LITERATURA MEDIEVAL

Foto de Nova Portugalidade.

D. Dinis é um caso excepcional na literatura medieval, visto que a tónica dos seus poemas possui uma originalidade e singularidade que não se encontram em mais nenhum outro autor de poesia trovadoresca. Embora seguindo formalmente o cânone da poesia da Provença, na actual região de França, o Rei sempre encarou o modelo da poesia trovadoresca provençal com uma certa distância crítica, visto que, de acordo com ele, esses trovadores limitavam-se a seguir ocamente um cânone literário sem expressarem verdadeiramente os seus sentimentos.

Estamos aqui perante uma profissão de fé poética que, mais do que um aspecto episódico de escrita, reflecte aquilo que faz a originalidade da sua poesia: essa dedicação a uma expressão do sentimento – em particular amoroso – que vem do fundo do ser e da alma, e não se limita a efectivar uma estrutura formal poética destituída de qualquer ponta de emoção genuína. Pode-se interpretar esta característica como um traço profético de modernidade que se manifestaria de forma pujante na poesia subsequente. Se nos debruçarmos sobre a poesia deste Rei, é possível descortinar um profundo conhecimento dos sentimentos e das relações amorosas que, quer nas cantigas de amigo quer nas de amor, constituem um vasto leque de situações, desde o namoro ao amor adúltero.

D. Dinis é um dos trovadores que mais longe levou a sua mestria no tratamento da linguagem poética, desde a forma mais popular das cantigas paralelísticas até às cantigas de amor, que se situam na linha elaborada da poesia provençal. Esta elasticidade literária revela o verdadeiro génio poético do Rei, já que a sua vertente escrita multifacetada revela um polimorfismo de capacidades em acção. No entanto, se ele é capaz das mais simples e inocentes formulações, que vêm de uma oralidade e coloquialidade em que se diz com toda a simplicidade «Ai madre, moiro d’amor!», também se encontra um substrato com um significado muito mais profundo e quase místico quando a amiga se dirige a Deus para saber novas do amado, em «Ai flores, ai flores do verde pino». Neste poema, curiosamente, não é Deus que dá a resposta, mas sim a própria natureza, num animismo quase panteísta que é sem dúvida um dos aspectos que torna esta cantiga um caso único na poesia medieval. Uma tal subtileza artística e espiritual só poderia ser produto de uma inspiração superior.

O que é original em D. Dinis é que esta entrega total às emoções e aos sentimentos humanos leva-o a traçar, inteligentemente ciente de todo o complexo universo humano dos afectos, um panorama transversal dos modos de relação amorosa. Na poética dionisina, o amor está para lá do universo estreito das convenções da época, embora respeitando e seguindo os códigos formais da poesia, apresentando o que poderíamos designar como um «teatro de sentimentos». A preponderância dos sentimentos na obra de D. Dinis, carga intemporal dos corações humanos, faz deste Rei um autor plenamente actual e transversal a todas eras.

Miguel Martins

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