A CAUSA REAL NO DISTRITO DE AVEIRO

A CAUSA REAL NO DISTRITO DE AVEIRO
Autor: Nuno A. G. Bandeira

Tradutor

terça-feira, 14 de agosto de 2012

A BATALHA DE ALJUBARROTA FOI HÁ 627 ANOS




Foi há 627 annos.

No Campo de São Jorge de Aljubarrota refundou-se e preservou-se PORTVGAL, Nação Valente & Immortal.


Honra & Gloria Eternas ao Senhor DOM JOÃO I, nosso Principe, Rei & Senhor, o de Boa Memoria, ao Senhor DOM NVN’ ALVARES PEREIRA, Condestavel Sancto de PORTVGAL Defensor Fidelissimo & Mordomo-Mor do Reino e a todos os VERDADEIROS PORTVGUESES que se bateram, deram o seu sangue e tombaram para que PORTVGAL fosse e permanecesse. Nunca esqueceremos.

«Sentio Ioane a afronta que paſſaua | Nuno, que como ſabio capitão, | Tudo corria, & via, & a todos daua | Com preſença & palauras coração: | Qual parida Lioa fera & braua | Que os filhos que no ninho ſôs eſtão | Sentio, que em quanto pasto lhe buſcara, | O paſtor de Maſsilia lhos furtara.

Corre raiuoſa, & freme, & com bramidos | Os montes ſete Irmãos atroa & abala, | Tal Ioane com outros eſcolhidos | Dos ſeus, correndo acode aa primeira ala: | O fortes companheiros, o ſubidos | Caualeyros, a quem nenhum ſe ygoala, | Defendey voſſas terras que a eſperança | Da liberdade, eſtâ na voſſa lança.

Vedes me aqui, Rey voſſo, & companheiro | Que entre as lanças & ſêtas, & os arneſes | Dos inimigos corro, & vou primeiro | Pelejay verdadeiros Portugueſes. | Iſto diſſe o magnanimo guerreyro | E ſopeſando a lança quatro vezes, | Com força tira & deſte vnico tiro | Muytos lançarão o vltimo ſoſpiro.»

— d’ OS LVSIADAS de Luis de Camoẽs. Com Privilegio Real. Impreſſos em Lisboa, com licença da ſancta Inquiſição, & do Ordinario: em caſa de Antonio Gõçaluez Impreſſor. 1572. Canto IV.

Hoje como ontem, Defendei vossas terras que a esperança da liberdade está na vossa lança!

Hoje como ontem, Pelejai verdadeiros Portugueses!

António Emiliano


Batalha de Aljubarrota / Batalha Real

Aljubarrota 14 de Agosto de 1385

"O exército português muda assim a sua posição uns 2Km para Sul, de forma a encarar o inimigo de frente, tal como um forcado quando enfrenta o touro. A "vanguarda" passa assim pela "retaguarda", e quando estas duas se encontram, distribuem-se abraços entre os portugueses, muitos deles são conhecidos e familiares, desejos de "Boa Sorte" e "São Jorge", já uma clara influência da presença dos arqueiros ingleses na hoste.

Também Nuno Álvares e Dom João I se encontram, trocam rápidas impressões, e despedem-se, com a certeza de que se voltariam a encontrar mais tarde, se Deus assim permitisse.

Por volta do 12h30, os portugueses ocupam a nova posição, perante um forte sol de meio-dia que se levanta, e sempre atentos, ao longe, à movimentação do inimigo.

Agora, sob a orientação de Nuno Álvares Pereira, Antão Vasques de Almada, Mem Rodrigues de Vasconcelos e alguns ingleses dava-se inicio às escavações e construção de obstáculos, tarefa em que participaram todos os portugueses que estavam nas linhas da frente e alas. Abrem-se covas de lobo, fossas, amontoam-se troncos de árvores, disfarça-se os buracos com ramagens.

Eram 15:00 quando o quadrado se formou finalmente.

Na vanguarda estava Nuno Álvares Pereira com a sua Bandeira, na ala esquerda, chamada a Ala dos Namorados comandada por Mem Rodrigues de Vasconcelos estava uma enorme bandeira verde.

Na ala direita, a Ala da Madre-Silva, era comandada por Antão Vasques de Almada, pairava a bandeira de São Jorge.

A cerca de 200 metros atrás estava El-Rey Dom João I, na retaguarda, com o seu estandarte real e as bandeiras de Avis.

Percorrendo a galope a vanguarda de um lado ao outro viu na cara dos seus homens, a sua própria sede, e decidido, foi até à ala direita, incumbindo Antão Vasques de Almada que fosse procurar água para os seus homens.

E assim foi.

Entretanto, no arraial castelhano, lá ao longe, discutia-se como se iria esmagar os portugueses. Continuavam a chegar mais tropas, cada vez mais, num turbilhão de lanças, espadas, cavalos, peões,

Parecia que toda a Espanha viera até ali, trazendo nos seus estandartes, a morte estampada.

Eis então que chega Antão Vasques de Almada a toda a brida.

Vai ter com o Condestável.

Nada.

Nem uma gota de água.

Os únicos riachos que encontrou estavam completamente secos, devido às altas temperaturas que assolavam esta época.

Quando isto ouviu, Nuno Álvares baixou tristemente a cabeça.

Anuiu a Antão Vasques para que se retirasse, e desmontando do seu cavalo, voltou para o pé da sua vanguarda, retirando o pesado elmo que levava sobre a sua cabeça.

Aos que mais sofriam com o calor e sede, Nuno Álvares confortou, abraçando-os, transmitindo palavras de esperança, ajudando-os a levantar, e compondo as suas vestes. Já apeado, andava pelo meio dos seus homens, que o olhavam com um misto de admiração e surpresa, por ver tão famoso e insigne capitão, partilhando a sua dor.

Também já Dom João I estava apeado, e tal como o seu amigo, ia percorrendo as fileiras, onde a todos distribuía sorrisos e palavras de incentivo. Valoroso Rei aquele, a quem haveriam de chamar O de Boa Memória.

E era de notar, que também nas alas, os Ingleses permaneciam aí, partilhando laços de camaradagem cada vez mais fortes com os seus companheiros portugueses, laços esses que só são verdadeiramente "fortificados" em situações de sofrimento ou de guerra.

Estava-se a aproximar as 18:00, e grande era a azáfama e movimento de cavalos e homens entre o arraial castelhano. Era a momento em que se iria decidir o destino de Portugal.

É então que, verdade ou lenda, um rapaz aparece de repente vindo das florestas que rodeavam o campo e dirige-se até ao quadrado português.

Aí aguarda, observa, e é então que consegue ver o célebre estandarte do Condestável na frente do quadrado.

Dirige-se até aí e vai ter com Nuno Álvares Pereira. Entrega-lhe uma bilha cheia de água, para poder saciar a sua sede.

Só pode ter sido um sinal de Deus!

Um sinal de São Jorge!

Nuno Álvares apenas bebe um golo, entregando a bilha aos seus companheiros para que partilhassem a água por aqueles que mais precisassem.

Sentindo-se um pouco melhor, Nuno Álvares Pereira monta no seu cavalo.

Apenas ele.

Percorre a vanguarda a galope, gritando palavras de incentivo, com a sua espada na mão, tal como no monumento da Batalha.

"Portugueses, lutai por vossa terra!"

"Ânimo!"

"Se sóis vós descendentes do grande Henriques, então provai-lo agora, que Deus e São Jorge estão de olho em vós!"

As palavras de Nuno Álvares, tão cheias de patriotismo e ardor, incendeiam no coração dos Portugueses a vontade e a força, fazendo chorar até os mais fortes.

Não querendo nenhum deles passar por cobarde, cerram fileiras, espetam as lanças no chão e aguardam a vinda da morte.

Nuno Álvares, desce do cavalo, ajoelha-se no chão, pede protecção para si e para os seus homens, beija a terra e levanta-se, colocando o elmo com a viseira aberta.

Vira-se para trás, de sorriso no rosto, olha para os seus homens e diz:

"Amigos, que ninguém duvide de mim"

Todos sabem o que se seguiu.

Após a vitória, Dom Nuno Álvares Pereira mandou edificar naquele mesmo sítio onde lhe apareceu o rapaz com a bilha de água e onde tinha permanecido o seu estandarte, uma ermida a São Jorge.





EM HOMENAGEM À COMEMORAÇÃO DOS 627 ANOS DA BATALHA DE ALJUBARROTA (1385 - 2012)

O BAPTISMO DE SANGUE DE SÃO NUNO ALVARES PEREIRA



Este moço, que Leonor Teles, pasmada do seu ardimento de criança, por suas mãos armou cavaleiro aos treze anos de idade, servindo-se do pequeno arnês do Mestre de Avis, e depois andou por morador em casa de el-rei, como escudeiro da rainha, tem agora vinte e dois anos. ...

De pouca figura, ruivo como cenoura, rosto afiado, face seca de um vermelho sujo de sardas, aqui e acolá, no buço e no mento, punge uma penugem de faúlhas de oiro.

Todo o valor expressivo está na testa alta e larga, na boca miúda de lábios de reza e no sonho pertinaz de dois pequenos e estranhos olhos azuis, cândidos e enérgicos, que no fundo das órbitas concentram pureza e poder.

De pequena estatura, vergonhoso e calado, vive para si, vive para dentro. Parece calmo. Súbito explodem naquele corpo estreito rebentinas bravas, e todo o seu místico ser se agita, se transforma em acção, que derrui com violência e edifica com beleza. É a piedade feita energia, a oração feita espada. A ideia de bem servir seu reino e seu rei é nele obcecante. E este sentimento, feito de muitos sentimentos, enche-o, exalta-o.

Assim pensando e sentindo, esta alma nobre vive, por esse tempo, esmagada nas suas aspirações e ofendida pelo que vê em volta de si. Nuno Álvares é violentado a assistir, de braços cruzados, aos enxovalhos cuspidos sobre a sua amada terra, que ingleses, vindos para a defender, saqueiam, e castelhanos já pisam para a possuir e arrebatar. Freme. Contorce-se. Derranca-se. Desde o inverno busca lutar, e não lho permite o irmão. Requesta o inimigo para duelos, dez contra dez, e proíbe-lho o rei. Tanto empacho enoja-o.

Nuno Álvares vive cerrado num colete de varas de ferro. O sangue ferve-lhe. Por que o não deixam pelejar? Pouca gente? Os seus trinta companheiros minhotos, "homens para feitos", valem por trezentos; e ele, por um exército! Nuno Álvares sente que tem em si a graça de Deus que o esclarece, o incendeia e o atrai, semblante transfigurado, para os chãos das batalhas, onde os triunfos acorrerão a ele. Santos e arcanjos, descidos do Céu, guerrearão a seu lado. Guerra santa! Esta fé dura e cega. É um enviado de Deus, e tem uma obra a realizar. Não o tolham. Furacão de aço e de fogo, tudo varrerá, tudo purificará. Deixem-no!

Os castelhanos, com suas oitenta galés ancoradas no Tejo, vêm à cidade em batéis, amiudadas vezes, roubar o que lhes apetece, afrontando a todos com suas visagens escarnidas, suas armas arrogantes, enxovalhando por actos e ditos os alevantados corações portugueses. Uma vergonha!

Nuno Álvares, rugindo, não se contém. Reúne os seus chegados, e em segredo combina com eles uma cilada ao inimigo, que precisa de tremenda lição.

Na manhã do dia seguinte, na ponte de Alcântara, os castelhanos, segundo seu costume, desembarcam e roubam uvas numa vinha. Nuno Álvares e os seus, ocultos, os espiam por detrás de valados. De repente lhes caem em cima, à lançada, desbaratando-os, obrigando-os a debandar espavoridos, pelo outeiro abaixo, a correr até à riba, onde precipitadamente se atiram à água, fugindo a nado para as suas naus.

Mas já os outros castelhanos, que estão a bordo e de longe vêem o que se passa, se armam à pressa, saltam nos batéis e remam para a margem. Vão castigar com a morte esse punhado de portugueses atrevidos. Os castelhanos são mais de duzentos; os portugueses, uns cinqüenta somente, entre besteiros, homens de cavalo e de pé. Firmes, esperam. Os outros avançam. Nuno Álvares exulta de alegria. A sua alma enche-se de sol. Vai, enfim, pelejar!

"Amigos — grita aos companheiros, com voz estrondosa e augusta — por nossa honra! A eles, a eles! Deus é connosco". Mas os outros replicam-lhe, prudentes: "Mestre, os castelhanos são dez vezes mais do que nós". "Não importa! — bradou de novo Nuno Álvares, com voz vinda do fundo do coração, vinda de outros mundos — A eles, a eles! Segui-me. Fazei o que eu fizer. Serei o primeiro. Sejamos um!"

Ia avançar. Mas vendo que os companheiros não se moviam, Nuno Álvares afastou-se, ajoelhou em terra e, todo dentro de si, orou de mãos postas a São Jorge. A sua alma mística viveu esse rápido momento em luz celeste, iluminando-se de puras claridades, temperando-se de energias sobre-humanas, despertadas no fundo do seu ser pela inspiração sublimada. Depois montou de um pulo, firmou-se na sela de alto arção, sofregou as rédeas, esporeou rijamente o corcel nervoso, couraçado de testeira e peitoral de ferro, e pôs no inimigo o olhar resoluto.

Num paroxismo de intrepidez, como se fora a própria chama do espírito armado e alado quem galopasse, atirou-se numa arrancada doida, num clarão, numa transfiguração — o corpo em fogo, a alma em luz, nos olhos um rir de divina alegria, na boca uma flor de divina reza — atirou-se para esse extenso e espesso sendeiro de duzentas lanças em riste, contra o qual a sua virginal armadura de aço e de fé se chocou ardidamente.

A espada de Nuno Álvares, vibrada de trás das costas, fende para a direita, fende para a esquerda, fende de través, ataca de chuço, espedaçando capelos, talhando broquéis, esmigalhando lorigas, sempre brandida por esse braço de ferro que uma alma religiosa vitaliza, incendiando-o de coragem, de virtude, a romper caminho, a abrir clareiras de sangue em volta de si, a limpar de inimigos a terra santa da pátria adorada.

Seu cavalo empinado, com olhos em chama e narinas em brasa, lampejando na testeira, atira-se aos galões, esmagando corpos caídos por terra, ferindo lume com as ferraduras bravas, nos arneses, nos escudos, nos ferros das lanças partidas que cobrem o chão. A espada miraculosa de Nuno Álvares continua ingente, descarregando golpadas de fogo.

Sobre ele, sobre a sua intemerata armadura, ressoam os golpes dos montantes, os encontros das lanças, as pancadas das pedras e os arremessos dos virotões. O cavalo, lanceado no peito, no pescoço, nas ancas, a espadanar sangue, cai para morrer. No espernear da agonia, engancha um ferro numa solha da armadura de Nuno Álvares, que, tendo caído com ele, fica preso no corcel. Por terra, Nuno Álvares brande sempre a espada furiosa e religiosa.

O desastre é fatal; a morte, iminente. Mas já ao longe surge uma chusma de companheiros, acorrendo. Chegam e desprendem-no. Nuno Álvares levanta-se de um pulo. Toma nas mãos, cheias de sangue, uma das muitas lanças abandonadas que jazem em volta dele. E à frente dos seus, alucinado, corre à lançada os castelhanos, derrubando-os, esmagando-os, matando-os. O inimigo foge. O campo fica varrido. Vencera!

E este foi o seu baptismo de sangue. Sangue que depois, na ardência das batalhas, efervesceu e explodiu em bravuras sublimes!

(Fonte: Antero de Figueiredo, "Leonor Teles")

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