25º ANIVERSÁRIO DA REAL ASSOCIAÇÃO DE VISEU

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A CAUSA REAL NO DISTRITO DE AVEIRO

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Autor: Nuno A. G. Bandeira

Tradutor

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

SIM, A CONQUISTA DE CEUTA FOI UM SUCESSO PARA PORTUGAL

Foto de Nova Portugalidade.

Esclarecer falsidades: sim, a conquista de Ceuta foi um sucesso para Portugal

A conquista de Ceuta em 1415 é retratada, na esmagadora maioria da historiografia portuguesa, como um fracasso de todos os pontos de vista. Só nos últimos anos é que esta imagem tem começado a ser desconstruída por uma nova corrente historiográfica que, analisando objectivamente as fontes coevas, constatou que esta imagem não poderia estar mais em dissonância com a realidade. Explane-se a totalidade da questão para que esta possa ser verdadeiramente compreendida.

Uma vez firmada a paz definitiva com Castela em 1411, com quem Portugal estava em guerra desde os tempos de Aljubarrota, tornava-se necessário encontrar um novo rumo para o Reino. Entalado entre o mar oceano desconhecido e uma Castela permanentemente ameaçadora, o Reino português havia chegado a um impasse. D. João I compreendeu as debilidades do país que governava: um território pequeno, sem recursos naturais, completamente à margem da Europa e com um terreno pouco propício para a agricultura, resultado daí a sua escassez crónica de cereais, não se poderia aguentar indefinidamente sem algo mais em que se apoiar. Assim, surgiu uma corrente de opinião que defendia a expansão para o Norte de África, visto como o prolongamento natural da Península Ibérica.

A escolha de Ceuta prendia-se, de acordo com a visão tradicional, com o facto de ser um centro próspero de comércio onde afluíam cereais e ouro, produtos essenciais para Portugal. Uma vez tomada a cidade, esta tornou-se num enclave cristão isolado num meio muçulmano hostil, sendo que a cidade deixou de receber as preciosas rotas comerciais que os Portugueses queriam supostamente controlar. O próprio Infante D. Pedro diria, anos mais tarde, que Ceuta não passava de “um sorvedouro de homens e de dinheiro”. Esta interpretação é míope e pouca rigorosa. Vejamos porquê.

Em primeiro lugar, a conquista de Ceuta nunca visou o controlo das rotas comerciais que aí afluíam. Era mais do que óbvio que, uma vez estabelecido o controlo cristão da cidade, que esta já não comerciaria com os muçulmanos. Presumirmos que o Rei não tivesse pensado nessa possibilidade é partir do princípio que ele seria alguma espécie de incapacitado mental. Se atentarmos bem para o local geográfico da cidade, vemos que esta se encontra num ponto estratégico crucial do estreito de Gibraltar. À data, não havia qualquer porto cristão na área onde as embarcações comerciais pudessem atracar, descansar, comprar mantimentos e reparar os seus navios. A conquista de Ceuta visava, pois, não controlar as rotas comerciais pré-existentes, mas sim constituir uma praça exclusivamente militar que servisse de porto seguro para os muitos navios cristãos que atravessavam o estreito de Gibraltar, lugar de cimeira importância na ligação marítima entre o norte e o sul da Europa.

Em segundo lugar, a documentação coeva, e não as crónicas posteriores, mostram que Ceuta tinha receitas chorudas provenientes dos muitos navios que aí passaram a aportar, fornecendo-lhes mantimentos e prestando-lhes serviços. Ou seja, dava salto positivo a Portugal. A frase do Infante D. Pedro não passa da opinião subjectiva de um agente político com interesses próprios, que não coincide com a realidade objectiva.

Em terceiro lugar, o zénite da demonstração da importância da cidade de Ceuta foi o sacrifício do Infante D. Fernando, que, tendo sido capturado no desastre de Tânger em 1437, nunca foi trocado pela cidade de Ceuta tal como proposto pelos muçulmanos. Ou seja, a importância de Ceuta era tal que valia a morte de um filho do Rei de Portugal, como de facto aconteceu. Se a cidade fosse de facto descartável, ela teria sido entregue sem delongas em troca do Infante capturado.

Concluindo, Ceuta cumpriu o objectivo a que estava destinada: tornar-se numa praça militar que desse cobertura à navegação cristã que atravessava o estreito de Gibraltar, obtendo por isso receitas avultadas e transformando-se, efectivamente, na chave do Mediterrâneo. Deste ponto de vista, foi um claro sucesso.

Miguel Martins


1 comentário:

  1. Concordo em geral com a visão exposta. Juntaria o controlo da pirataria, necessário à segurança das navegações portuguesas, como possível objectivo da conquista de Ceuta.
    Quanto à opinião do Infante D. Pedro, a ideia que tenho é que se tratava de uma crítica aos que queriam alargar as conquistas em Marrocos.
    O Infante teria sido 'avisado' em Inglaterra quanto à escassez de recursos de Portugal. Essa tendência levou-nos ao desastre de Alcácer Quibir.

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